As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Segredinhos para todos os gostos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de agosto de 2013 | 07h17

Carles: Desde inícios de 2011, um determinado jogador, ainda na ativa na Premier, escreve no jornal inglês “The Guardian” de forma anônima, a coluna dominical “The Secret Footballer” na que revela aquelas coisas do futebol que ninguém noticia. Conhecer a verdadeira identidade do tal jogador secreto transformou-se no maior objeto de desejo dos ingleses. Com base em algumas pistas, as especulações correm soltas. O espaço alcançou tamanho êxito que virou livro. Você imagina algo assim por aí ou por aqui?

Edu: Não imagino, de jeito nenhum, e tenho muita inveja dos ingleses. Nestes tempos de mesmice no relacionamento do futebol com a imprensa, seria uma atração e tanto. Tenho até um palpite: esse cara pode ser o Rio Ferdinand, um jogador muito bem informado, que não se priva de palpitar sobre tudo e que provavelmente é o popstar da Premier League que mais utiliza as redes sociais, mas não para divulgar fotos com as fãs periguetes e sim  para mostrar que entende de futebol.

Carles: Olha, se forem certas as pistas tiradas dos próprios textos, já adianto que não é o Rio. “The Secret Footballer” realmente foi capitão da sua equipe, teve depressão em algum momento da carreira, mas é branco. Quiçá a maior proeza do infiltrado tenho sido antecipar a destituição de Vilas-Boas do Chelsea. Ele avisou que o português estava sendo frito pelo vestiário quando veio a goleada frente ao Nápoles que precipitou a sua substituição por Di Matteo. Depois disso, o Chelsea foi campeão da Champions, com direito a desclassificar o então todo poderoso Barça.

Edu: Se algum incauto aqui da terrinha se aventurasse a escrever sobre bastidores, esse sim ia saber rapidinho o que é uma chapa quente. Se contasse algo dos treinadores então, do jeito que o corporativismo assola essa categoria, seria uma caça às bruxas para se descobrir a identidade do infeliz. Pelo que entendi, então, o nosso anônimo nitroglicerina pura continua na ativa, jogando? Dei uma olhada em alguns dos textos e isso não fica muito claro.

Carles: É o que tudo indica ou pelo menos é o que se insinua no espaço, para manter a chama bem acesa. Na verdade, o escriba oculto só confirma o que muitos de nós desconfiamos, seja sobre assuntos mais ou menos próximos aos gramados. Num dos últimos artigos, “The Secret Footballer” oferece todos os detalhes sobre uma viagem que ele mesmo realizou junto com alguns dos companheiros de time a Las Vegas: “Fomos levados a um local e sentamos numa mesa dentro de um reservado cujo gasto mínimo era de 5.000 dólares. Começaram a desfilar garotas diante de nós e nos avisaram de que, quando gostássemos de alguma, só tínhamos que avisar ao guia”. O pessoal da mesa de trás, na que estava um jogador do Barça, disse que dobraria nossa oferta por qualquer delas. Os gastos totais da noitada somaram 130 mil dólares, fora a gorjeta.” Parece que o fato do misterioso articulista escrever esses artigos está relacionado com a sua suposta depressão, pois ele justifica a sua decisão de escrever e contar todas essas coisas como uma espécie de catarse.

Edu: Para quem não sabe o objetivo das pré-temporadas nos Estados Unidos, aí poderia estar a explicação. Além do hot site dentro do ambiente digital do “Guardian”, há vários ‘filhotes’ em torno do “Secret”. Um deles traz um ranking de nomes do suposto autor. O líder nas apostas é Dave Kitson, atacante do Portsmouth, um especialista em frases não convencionais. O segundo é o lateral esquerdo do Reading, Nicky Shorey, que já esteve na Seleção Inglesa. E o quinto da relação de preferidos é um velho conhecido, o grandalhão Peter Crouch, que já andou por meia Premier e hoje faz seus golzinhos pelo Stoke City. Se bem que, se o autor misterioso anda deprimido, não deve ser o caso de Crouch, que nos últimos tempos parece bem feliz da vida ao lado da mulher e modelo Abbey Clancy.

Carles: Nada indica que o autor siga deprimido. A terapia parece ter funcionado.

Edu: Aliás, num dos temas abordados na coluna, bem menos festivos que esse de Las Vegas, descobrimos vários detalhes daqueles cinco ou seis nomes que os técnicos guardam na manga nos períodos de abertura de mercado, segundo nosso articulista deprimido.  Dali surgem os dossiês elaborados pelos olheiros que abordam desde questões básicas como ‘será que esse sujeito gostaria de jogar aqui?’ ou ‘quanto ele quer ganhar?’ até dúvidas mais picantes sobre a vida particular dos jogadores que podem ser contratados.

Carles: E aí vamos ao encontro de outra questão tratada aqui no 500 aC, a suposta rede de espionagem montada pelo Barça para conhecer detalhes da vida dos seus jogadores, fora do horário de trabalho. Obviamente que isso não é privilégio do Barça. Pensando bem, o tal jogador secreto não será o Bale e, como represália, decidiram que esta temporada ele não joga? Acho que já estou delirando com toda essa história.

Edu: Vai ver que o objetivo é mesmo deixar a cartolagem maluca e como você é praticamente um consultor do Barça…

Carles: Provavelmente somos, meu amigo, porque o 500 aC, assim como “The Secret Footballer”, é lido nas melhores casas do futebol, antes de serem tomadas as decisões importantes. Digo mais, o que você acha de convidar desde já o jogador que estiver disposto a reproduzir uma versão latina aqui mesmo? Não precisa ser craque, basta ter o mesmo sentido crítico que o nosso amigo “guiri”.

Edu: Por mim a gente faz uma campanha nacional angariando vários candidatos. Seria um campeonato paralelo com imensa chance de ofuscar os grandes clássicos, um festival de insubordinados.

Carles: Por algum lugar tem que começar a insubordinação. E, convenhamos, isso redimiria o futebol das sua piores reputações. Seria, como defende nosso amigo do “The Guardian”, uma verdadeira terapia. Com uma multidão de danificados, mas uma terapia.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.