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Segurança de menos, desinformação demais

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de janeiro de 2014 | 19h24

Carles: 30 anos sem a Jules Rimet, tem gente na Fifa empenhada em não levar a original da atual Taça para aí em nenhuma hipótese. Faça a fama e deite na cama?

Edu: País dos ladrões, das selvas urbanas, dos animais selvagens nas ruas, da água insalubre… Que mais? Será que é só a Fifa que acha isso? Será que o pessoal sabe, por exemplo, que aqui já acabou a escravidão?

Carles: Não é só a Fifa, mas antes que você diga que é puro preconceito vou adiantar que a fonte das notícias que chegam sobre um Brasil caótico e cheio de criminalidade são nativas, brasileiras.

Edu: Bom, se vocês pretendem se informar sobre o Brasil pelo que diz a maioria da tal grande mídia, o azar é de vocês. Muitos de nós aqui estamos vacinados contra essa espécie de ofídio.

Carles: Eu também estou vacinado, perdi a inocência faz tempo, mas a grande maioria talvez desconheça essa particularidade.

Edu: Quanto à criminalidade, é fato e é grande, em um estágio acima do que existe em boa parte das metrópoles do mundo. Mas não pense em São Paulo e Rio como Natal ou Curitiba, você sabe bem as diferenças. Agora, falar em caos já é delírio europeu para vender informação direcionada.

Carles: Corrijo: para vender informação e ponto! Quiçá o que falte seja rigor, mas essa doença é epidêmica e contagiosa, pelo visto.

Edu: Se você perguntar se a segurança é uma grande preocupação para a Copa, a resposta é fácil: sim, e põe grande nisso, porque é um evento especialíssimo, diluído por todo o território, com muita gente de fora e em uma situação vulnerável até pela desinformação.

Carles: Alarmismo não tem nacionalidade e atende pelo sobrenome de “Vender mais jornal”. Os daí emitem e os daqui, reproduzem. Eu naturalmente faço minha interpretação e separo bem as coisas: ‘policiamento numeroso’ é uma coisa e ‘cultura do oportunismo’, outra. O “gosto de levar vantagem em tudo” já foi para melhor vida?

Edu: Carlão, neste país multitudo, com tanto tipo de gente e de culturas, você sabe muito bem que não há padrão de comportamento. Aliás, talvez seja esse o grande lance deste lugar onde você viveu por muito tempo.

Carles: O Brasil são vários países e não um único, o dia que todos se convencerem disso vai ser mais fácil atacar os problemas sociais…

Edu: Mesmo assim, eu diria que banir os espertalhões daqui é virtualmente impossível, é o traço perverso desta sociedade em todos os níveis, do batedor de carteira ao executivo do convênio de saúde.

Carles: Mas quanto antes começarem…

Edu: Claro, mas nesta situação como a da Copa há formas de se prevenir e de combater e não só com o exército nas ruas, tanto os espertos quanto os criminosos, como, aliás, em todo lugar. Por ingenuidade, fui assaltado em Roma. Muitos hotéis de cidades americanas como Dallas, New Orleans e Los Angeles distribuem folhetos instruindo o turista a evitar certos lugares em certos horários. Quando vivi em Madrid me diziam para não ir à noite de jeito nenhum em bairros como Ventilla e Hortaleza. Também por isso falo da importância da informação, mas a informação bem intencionada e sem preconceitos.

Carles: As más intenções, primas do alarmismo, também não têm endereço certo. A Jules Rimet foi roubada pela primeira vez em Londres em 1966, às vésperas da Copa, e “foi encontrada” pelo cachorrinho Pickles num jardim, embrulhada com jornal. O herói morreu anos depois vítima da própria coleira. Queima de arquivo, dizem alguns exagerados, como no caso do roubo no Brasil em que todos os presumíveis culpados foram caindo como moscas. Em 1984, a Kodak fez uma nova Jules Rimet e entregou, numa cerimônia na Alemanha, aos capitães brasileiros. Será que a que Pickles encontrou também não era uma reprodução? Talvez a questão mais importante seja a forma de administrar as crises. No caso dos ingleses e segundo minha tese, menos sincera, é verdade.

Edu: Tanto que Pickles virou celebridade nacional, ganhou mais espaço do que a própria logística do roubo, que aconteceu em pleno Complexo de Westminster. O que é muito sério, no caso da Copa deste ano, é que, das muitas frentes em que foi preciso atuar, a segurança não recebeu toda a atenção que deveria. Já comentamos algumas vezes aqui: o sujeito que atravessa o mundo para ver futebol só pensa em duas coisas, ser bem tratado e ter segurança. Se tiver que enfrentar trânsito na ida ao estádio, se seu lugar nas arquibancadas não for maravilhoso, se o hotel às vezes fica devendo conforto, se há alguma espera nos aeroportos – tudo isso é menos relevante do que se sentir seguro e ser bem tratado pelas pessoas. O resto é contornável, tem solução.

Carles: Bom, o fato de acontecer em plena Westminster me preocupa menos. Os grandes escândalos de roubos na Europa, principalmente obras de arte, normalmente ridicularizados na América, devem-se sobretudo a esquemas de segurança singelos, nos que o acesso está relativamente franqueado à população. Eu já disse que não estou de acordo com soluções baseadas em sistemas truculentos de proteção ao patrimônio e sim na educação. E advogo que as culturas ainda em consolidação rejeitem cada vez mais o modelo John Wayne. Como cidadão, fico muito contente de poder encontrar a mesma moeda de um euro que usei para abrir o armário da academia e que eu tinha esquecido, três dias depois e no mesmo lugar. Sem ajuda do Pickles nem da Kodak.

Edu: Não vamos conseguir esgotar o assunto educação versus truculência neste modestíssimo post, concorda? Até porque coincidimos na opinião.

Carles: Só se a gente pedir mais uma rodada…

Edu: Só para finalizar, no que diz respeito à Copa, que precisa de um ‘tiro curto’, para usar uma expressão do pessoal da segurança, ainda dá tempo de prevenir algo, programar ações mais urgentes de informação e logística. Mas não adianta acordar para isso no fim de maio. É já ou já.

 

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