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Segurança mal resolvida e os alertas de sempre

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de maio de 2014 | 20h39

Edu: Um tema que comentamos aqui num de nossos primeiros posts foi a questão da segurança durante a Copa. Segurança das seleções e especialmente do torcedor. Lembro que ressaltamos que quase tudo era contornável, inclusive problemas ocasionais nos aeroportos, no trânsito, nos estádios ou nos hotéis. Mas que segurança era vital e precisaria beirar à perfeição. Ocorre que só nas últimas semanas o pessoal da organização, Fifa incluída, atentou de verdade para isso e agora está correndo atrás com um certo desespero. A percepção que vocês têm daí ainda é a pior possível nesse quesito?

Carles: A pior, como sempre. Mas isso já é habitual. Com algo de motivo porque é uma questão ainda pendente no Brasil, mas muito pelo sensacionalismo que esse tipo de notícia gera na informação diária, essa tão ao estilo ‘copy and paste’, com enorme efeito e de baixo custo para o empresário da comunicação, já que pode até ser feita pelos estagiários, com todo meu respeito a eles.

Edu: Pois é, uma foto na capa de um jornal europeu de um manifestante com uma tocha e um fundo vermelho em chamas dá a impressão de que isso aqui é um inferno definitivo, embora a tal manifestação tivesse 300 fulanos que não sabiam bem contra o que estavam gritando. É o tipo de coisa que pode afugentar os desinformados, mas não conta, porque é factóide. O pior mesmo é a segurança nas inúmeras pequenas coisas, nas ruas, no dia a dia, no transporte público, nos arredores dos locais onde haverá bastante gente. Esse esquema, sim, deveria ser ponderado com muita antecedência e não foi. Existe agora uma força-tarefa centralizada, mas, na prática, cada cidade e cada estado estabelecerá seu sistema. É garantido? Nunca é. Lembro de um colega fotógrafo que foi assaltado três vezes na Copa da Itália, em cidades diferentes. Um repórter de uma revista argentina teve o computador roubado em Paris, durante o dia, dentro de um restaurante em que estavam vários jornalistas. Nos Estados Unidos e na Alemanha, foram inúmeros casos. Não é uma comparação, só uma constatação de que numa situação vulnerável sempre há riscos. Só imagino que o nível de compreensão e de abordagem no caso do Brasil seja outro, alguns graus abaixo.

Carles: Bom, primeiro minha recomendação para que o seu colega fotógrafo va se benzer. Falando sério, nem acho que o temor seja dos furtos, se bem que no Brasil a repercussão seria outra, nisso você está certo. Por aqui, os crimes considerados menores são puníveis com trabalhos comunitários, o que muitas vezes deixa de inibir esse tipo de ação. Além disso, quando tem um evento desse porte acaba atraindo o “Bloco Amigos do Alheio da Redondeza” em peso. Estamos falando do medo às tragédias, o que também não deixa de ser alarmismo que, em suma, vende jornal. Assim mesmo, tentemos ser informativos na medida das possibilidades do 500 aC. Pela minha percepção, acredito que o temor é muito mais quanto à ação ou a inoperância das forças de segurança. Pela SUPOSTA truculência, ou pela SUPOSTA falta de preparação diante de possíveis surpresas desagradáveis. Agora, quanto ao impacto das imagens e as possíveis manipulações, tem uma piada por aqui que vem a calhar porque faz referência à contagem do número de participantes numa manifestação: “- Foram 100.000 segundo os organizadores e 270, uma velhinha e um cachorrinho, segundo a polícia”. Ou como se diz por aí, é o olho do dono que engorda o porco.

Edu: É bem complicado para nós, não especialistas, pensar na hipótese de uma tragédia, ainda que seja obrigação das tais forças de segurança. Pessoalmente, acho que a maior tragédia continua sendo a insegurança cidadã, porque uma reunião de pequenos desgraças pode virar, na soma final, uma senhora tragédia. Seria uma Copa da desgraça se os casos se multiplicassem, mesmo que fossem furtos ou quase bobagens. Um grande problema com as seleções é muito pouco provável que aconteça, haverá um esquema VIP praticamente blindando as delegações. Mas vamos supor que você não conhecesse o Brasil e me perguntasse: ‘Posso ir sem susto?’ Eu diria: ‘Venha com susto, mas não deixe de vir por isso’. Porque o turista minimamente descolado sabe dos problemas que uma cidade grande pode ter e deve tomar seus devidos cuidados. Isso, porém, não exime os responsáveis da montagem de uma estratégia de segurança fiável. E quanto à truculência, esteja certo que para os torcedores não será esse o problema. Para ocasionais manifestantes, pode até ser, mas para o torcedor não.

Carles: Muito bem, vou com susto, então. Com relação às delegações, sempre existe o risco daquela tradicional e quase inevitável notícia sobre o furto no hotel ou no local de treino em que algum jogador mais incauto pode ter uns milhares de euros surrupiados (para quê andar com essa quantia??!!). É fato que tem sempre alguém disposto a conseguir um dinheiro fácil e outro alguém interessado em denegrir a imagem da organização do evento, que pode esquecer uma porta destrancada. Quanto à truculência é própria de um modelo de policiamento ainda remanescente de outros tempos e isso não se soluciona da noite para o dia. Por isso, esperemos que a única necessidade de intervenção seja preventiva.

Edu: Entendo sua preocupação, até pelo histórico. E há exageros, claro. Por exemplo, a Bahia, tida como um dos lugares mais vulneráveis, terá o reforço de 2.500 homens da Marinha e do Exército. Sim, 2.500! É uma garantia? Sinceramente não sei e vou desconfiar sempre, hoje e nas próximas encarnações, de que exército na rua seja garantia de segurança. Em todo caso, pensemos, por fim, como um torcedor. Vou chegar aos estádios inteiro? Sim, certamente, com os devidos alertas. Vou poder tomar algo no bar com os amigos à noite? Claro que sim, com os devidos alertas. Vou poder visitar os lugares históricos e museus quando não houver futebol? Óbvio que sim, deve. Mas nunca se esqueça de que está em uma cultura distinta e em um cenário bastante mais relaxado, em todos os sentidos. Será que basta?

Carles: Pois é justamente esse o problema, com todo respeito ao torcedor e, neste caso, um torcedor com alto poder aquisitivo, não é exatamente o turista acostumado a interagir com culturas distintas. Com o agravante da sensação de impunidade que muitas vezes proporciona o fato de ser parte de uma massa com uma bandeira por identidade. Justamente sobre isso, li outro dia num meio latino-americano sobre o risco da invasão pelas hordas dos ‘Barra Bravas’. Vão ou não, o grande problema é a provável reconfiguração do cenário normal e a inclusão de novos atores, com ações e reações menos conhecidas. Assim mesmo, parece-me que a cifra de 2500 soldados chega a ser ofensiva e até alarmante, afinal não se trata de nenhuma batalha.

Edu: Sabe como é quando se trata de mostrar autoridade: melhor exagerar do que passar por frouxo. Só lamento que, neste caso da segurança, tenha sido perdida uma oportunidade de se enfrentar o problema com inteligência estratégica mais do que com aparatos diversos. Ainda assim, continuará sendo a grande incógnita da Copa. Tudo por causa do que reclamamos lá no começo: a falta de um Plano Diretor para todas as sedes do Mundial.

Carles: O lado bom é que se dá autonomia às diversas províncias. Quem sabe a coisa sai melhor que a encomenda e o Brasil começa a se repensar sob uma filosofia de a reunião faz a força em vez de a força da união. Isso, claro, se a intenção for mesmo a de iniciar um processo louvável de descentralização e não a de, simplesmente, lavar as mãos. O fundo dessas questões você conhece melhor do que eu, pois já sabe como as notícias daí chegam por aqui…

 

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