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Sem criatividade, o inferno é logo ali

O FUTEBOL COBRA CARO PELA FALTA DE IDEIAS

Carles Martí e José Eduardo de Carvalho

10 de julho de 2014 | 20h36

Carles: Pensando nos dois derrotados das semifinais da Copa, Scolari e Van Gaal, você diria que faltou a eles criatividade para solucionar os problemas de enfrentar adversários diferentemente perigosos?

Edu: Cuidado, Carlão, você pode ser punido sem direito a fiança por incluir a palavra criatividade tão próxima do nome do técnico da Seleção Brasileira. Não se aplica a Van Gaal, que é um estudioso e tem ideias. Um sujeito autoritário, prepotente e ortodoxo também pode ter criatividade, embora use para muitos fins com os quais eu não concordo. Acontece que, no caso do holandês, o excesso de cálculo (para não dizer medo) entorpeceu o resto nesse jogo contra a Argentina. E, claro, no futebol, ideias não servem apenas para resolver os próprios problemas, mas para criar dificuldades aos outros.

Carles: Na competição em geral é assim, incluído o mundo dos negócios em que se fala tanto em inovação e onde essa quimera é tão rara. Estou de acordo, acho que Van Gaal tem sobretudo um sistema de trabalho, e isso já é bastante. Inclui estudar a matéria, buscar alternativas, não utilizar sempre o mesmo caminho. Existe um conceito neurológico segundo o qual “criar” consiste não em fazer combinações aleatórias, mas em efetuar aquelas que são úteis. Os defensores desse conceito acreditam que inventar é discernir, escolher. É uma definição que talvez se afaste da original definição, de oferecer o que jamais foi visto e se aproxime das reais necessidades da aplicação diária com o fim de obter resultados práticos e ao mesmo tempo surpreendentes. Do que eu tenho certeza é que criatividade não tem nada a ver com improvisar, um processo normalmente isento de análise, reflexão e planejamento.

Edu: Mesmo que o improviso, muitas vezes, também seja sinal de criatividade em circunstâncias especiais. Mas o pior de tudo é quando o improviso é a coluna cervical do planejamento. “Ah, tem dado certo improvisando, então vamos nessa!”. Aí vira burrice. Bom, nunca me esqueço do argentino Cesar Menotti e de seu ensinamento basal para um time de futebol: é mais fácil criar dentro da ordem. Veja o simplório e objetivo técnico colombiano da Costa Rica, Jorge Luis Pinto. Fazer de um nanico no cenário internacional um dos oito melhores de uma Copa do Mundo não é obra de improviso e, por outro lado, com um elenco limitado, exige doses cavalares de criatividade para enfrentar os gigantes. Ideias, meu chapa, colocar a cabeça para funcionar. Será que é tão complicado?

Carles: Claro, improvisar advém da necessidade de solucionar rapidamente algum problema, mas esse imediatismo requer um trabalho prévio, de preparação mental e principalmente uma predisposição para abraçar alternativas inovadoras, nunca como uma forma preguiçosa de desprezar a sistematização. Muito menos se tratando de uma modalidade associativa, um esporte coletivo e que tem necessidade de coordenação. E essa visão equivocada que acaba gerando situações em que a única solução parece o arroubo de um jogador com os olhos injetados tenta sozinho resolver tudo, sem que o resto de companheiros esteja preparado para a iniciativa. O caso do colombiano Pinto é mesmo um ótimo exemplo desse processo de utilização da criatividade e em que outros fatores, como a humildade, acabam sendo decisivos. Sem humildade, é quase impossível pensar em mudar pensamentos, encontrar alternativas. Outro dia li um artigo de um meio costarriquense dando conta da diferença de Pinto na primeira fase em que treinou a seleção revelação desta Copa. Ele chegou ostentando um bigotón, contavam no artigo, prepotente e sem querer ouvir outras impressões. Fracassou rotundamente. Na volta e depois de uma série de aventuras com maior ou menor sorte pelo futebol do continente, era outro, muito mais flexível (com mais experiência profissional e pessoal) e, segundo o relato, esse teria sido o segredo do sucesso.

Edu: Talvez esteja aí o pecado de Van Gaal – e de outros tantos, se é que você me entende. Não ter capacidade para ouvir, para trocar ideias e acreditar em modelos engessados e personalistas é caminho aberto para o fracasso. Ou seja, mudar de rumo pode ser saudável, ainda que seja uma contradição em relação a velhos princípios que uma vez deram certo. É simples demais para que um profissional minimamente lúcido não perceba. Lembro de outro, o falecido Claudio Coutinho, que era um hermético pedante na Copa de 78, quando afundou a Seleção Brasileira, mas que rapidamente reciclou-se e fez o melhor Flamengo da história – claro, com Zico, Júnior e companhia. Mas um técnico também brilha por não atrapalhar quando as circunstâncias são favoráveis, enquanto tenta solucionar o que ainda está estorvando.

Carles: Mas veja que Van Gaal, em vez de se cercar de semelhantes, preferiu a versão amadurecida do ex atacante, com fama de indisciplinado, Kluivert e do sempre sério e ótimo ex zagueiro Danny Blind. Uma metáfora viva daquela típica imagem de desenho animado em que o personagem ouve os conselhos do anjinho de um lado e do diabinho do outro. A transgressão e a rigidez como fontes de inspiração. Não deixa de ser uma forma inteligente de humildade, mesmo que ele dissimule e tente parecer mais durão do que é, na verdade.

Edu: Só que, visto de fora, exige um grande esforço reconhecer nisso um ato de humildade, ainda mais conhecendo o histórico do general Van Gaal. Ainda assim, é perceptível a opção por investir em ideias, o que não exclui a truculência do chefe. Ao contrário, na quarta-feira, quando vimos a comissão técnica brasileira chegar em bloco, uns seis ou sete, para a entrevista pós-desastre, numa atitude intimidatória e estúpida, já ficou claro que o teor da ‘conversa’ não tinha nada a ver com ideias. Foi um palavrório agressivo, de mão única e sem nexo, com explicações vazias e nada – zero – em matéria de demonstração de humildade ou reconhecimento do fracasso.

Carles: Pois é, se Felipão e resto de asseclas tivessem maior disposição a ouvir opiniões externas, em momentos como esse, poderiam até deixar se aconselhar pelo escritor russo Fiodor Dostoievski, reconhecido pela criatividade da sua obra e que costumava dizer: “Depois de um fracasso, até os planos melhor elaborados parecem absurdos”. Pelo menos teriam sido mais elegantes.

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