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Sem noção de grandeza

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

13 de outubro de 2013 | 19h47

Carles: Outro 0 a 0?

Edu: Sim, o oitavo 0 a 0 no mesmo campeonato do clube que é ainda o atual campeão mundial e tem hoje o maior orçamento do futebol brasileiro. Acho que o sujeito precisa ter a noção de que o Corinthians não é time para jogar em função disso. Não é possível que ele não tenha aprendido, pode até batalhar por um empate aqui, outro ali, quando convém, mas jogar propositalmente com essa mesquinharia é contra a natureza desse time.

Carles: Tite?

Edu: É, só pode ser iniciativa dele, ele é o líder da turma. Não sei se haveria hoje no país treinador mais indicado para o Corinthians, mas o homem perdeu a bússola.

Carles: É evidente que optou por tentar terminar a temporada mantendo uma posição na zona morna, táticas que costumam sair pela culatra. A pergunta é: na América do Sul, não conseguir vaga para competições continentais da seguinte temporada penaliza de verdade um clube?

Edu: Zona morna? Pelo jeito ele ainda não se tocou que é o time de pior campanha do segundo turno e isso não é nenhuma zona morna. Sete pontos em 27 possíveis não é coisa para Corinthians. E sobre ficar fora das competições continentais, nem penaliza tanto, principalmente em ano de Copa.

Carles: Então esse é o problema. O desempenho ruim num torneio deveria ser premiado não só com o troféu correspondente, mas com as oportunidades de novos títulos e uma boa injeção nos cofres. Caso contrário, é fácil escolher se fingir de morto e tentar deixar a temporada, que em seguida vem outra. Se é pela questão da Copa, pergunto: é um risco calculado? Um ano sabático para purgar?

Edu: É muito risco para ser tão calculista, ainda mais para quem marcou três gols em nove jogos. Se vierem mais dois empates, como já ocorreu 13 vezes em 28 partidas, o Corinthians estará na zona da degola com o campeonato entrando na reta final.

Carles: Essas táticas viciam, são difíceis de largar, o cara pensa “só mais esta vez, na próxima me emendo, arrisco, revoluciono o time, procuro jogadores jovens nas base ou leio os relatórios dos olheiros”. Quando vai ver, é tarde. Já não tem amanhã nem para o time, nem para ele, técnico. Também é uma questão de lei de vida, parece que quanto mais alto se sobe, maior é o tombo. Para prevenir ou amenizar, só com projetos sérios do clube, em que se enquadre o projeto do quadro técnico, porque é fácil que o treinador perca o rumo, mas o clube não pode se dar ao luxo. É possível também que como você já disse aqui, alguns clubes como o próprio Corinthians e o Fluminense experimentaram o inferno para voltar reforçados. Isso significa também que o temor ao descenso diminuiu, quem sabe tampouco é suficiente penalização. Já não é o inferno, mas o purgatório.

Edu: Não, não mesmo!!! Vai dizer para o torcedor que a Segundona é uma passagem natural  para ver a reação dele! Não estamos falando de um time médio que eventualmente corre esse risco, reposiciona seus objetivos, faz algum sacrifício com a compreensão de sua pequena torcida. Estamos falando do time que tem a segunda maior população futebolística do país e que vem de títulos como nunca conquistou em sua história. Relaxamento? Não, não é admissível para Corinthians, Flamengo e outros desse porte. Até acho que o treinador fica trabalhando internamente suas salvaguardas, como você sugeriu. ‘Hoje o adversário é o São Paulo, então o importante é não perder de jeito nenhum’, mas em seguida vêm Grêmio, Santos, o Flamengo. Não se pode perder nunca, mas é preciso tentar ganhar na maioria das vezes. O futebol que o torcedor vai ao estádio para ver deve ser proporcional à grandeza do clube, se não na questão técnica ao menos na ambição, minimamente. Isso está cheirando perda de rumo mesmo.

Carles: Para o torcedor, nosso time tem sempre a maior das grandezas. E somos capazes de nos acostumar a quase tudo. O problema pode estar mais embaixo, alguns clubes menosprezam a própria historia e tradições por não encontrarem uma resposta das federações à altura, frequentadoras habituais do casuísmo. Sigo sem ver a suficiente seriedade na organização dos torneios. A vibração do dia a dia no futebol brasileiro continua a cargo da torcida, incansável (e sobrada em tolerância). As rivalidades históricas sustentam competições sem a necessária suficiência. Acho que é muito pouco.

Edu: Não vejo bem assim, porque aqui cada clube tem oito ou nove rivalidades históricas, essa é que a verdade, o que deveria ser suficiente para garantir ao menos um campeonato proporcionalmente convidativo. Não é o caso deste ano, um torneio ruim como poucos, mas supõe-se que seja uma exceção. Também não acho que o torcedor de times médios tenha essa noção de grandeza. Para o Criciúma, escapar ano após ano do descenso é quase o clímax e sua torcida vai a campo com essa expectativa. Se algo maior vier, tanto melhor. A questão da organização dos torneios é uma doença endêmica por aqui, mas o futebol por si só consegue sobreviver se os clubes investirem em sua dignidade, que afinal das contas é o que o torcedor pede e preza. São Paulo, Fluminense, Vasco e agora o Corinthians estão se debatendo para ficar longe da zona de degola, o que é uma incapacidade que nada tem a ver com o sistema do campeonato ou com a balbúrdia terminal na CBF. Eu diria até que não é nestes casos um problema concreto de gestão das direções dos clubes, mas um problema de conceitos técnicos, de opção por modelos e pessoas. No final, vamos caminhar para a conclusão de sempre, de que o Brasil tem apenas treinadores médios e comissões técnicas limitadas, que só se saem bem nas horas gordas e sucumbem à adversidade com muita facilidade.

Carles: Me refiro a rivalidades que são como um patrimônio, peças de museu, revividas nas redes sociais, nos locais de trabalho e nas escolas mas que não correspondem ao dia a dia do esporte, baseado em nenhum planejamento com torneios organizados só para cumprir a obrigação de preencher a temporada. Os times menores são componentes obrigatórios nos torneios bem sucedidos. Debatem-se e  se sobrepõem, eventualmente surpreendem com projetos inteligentes que raramente fracassam. Um torneio composto só por grandes clubes, todos eles relacionados através de rivalidades ferrenhas, não deixa respirar. A possibilidade de baixar as pulsações, numa jornada ou outra é também necessária. As inferioridades são parte do jogo, mas devem ser capazes de surpreender, não só pedras no caminho como tem sido o caso da nossa liga, condenada por outro tipo de pecado.

Edu: Ao menos nisso levamos alguma vantagem: times com os maiores orçamentos ficam meses chafurdando na areia movediça tentando sobreviver tecnicamente, enquanto o dinheiro continua forrando o caixa com certa regularidade. A bizarrice se completa quando um milionário desses vai visitar a Segundona, para o tal ano sabático.

Carles: Nesse caso, o problema passa a ser, por exemplo, a superlotação de estádios acostumados ao déficit de público, como vimos por aqui, quando o Palmeiras foi visitar Natal.

 

 

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