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Senhores do tempo, mas nunca livres do pecado

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de janeiro de 2014 | 18h22

Carles: Adivinhe… quem é o único cara convocado para representar o próprio país numa Copa do Mundo que nenhum compatriota quer ver na final?

Edu: Essa é moleza: o sujeito do apito.

Carles: Pois é, ontem à primeira hora da manhã, o senhor Carlos Velasco Carballo, árbitro da associação madrileña – como não podia deixar de ser – recebeu uma mensagem no celular da Fifa, dizendo que seria o representante espanhol na Copa. Para variar, não é o melhor árbitro em atividade, mas claro como tem que cumprir uma série de requisitos…

Edu: Já falamos aqui da péssima imagem que os árbitros espanhóis têm por aqui e principalmente entre os seus vizinhos europeus. Deste sr. Velasco Carballo, lembro que apitou a abertura da última Eurocopa e que algumas vezes recebeu o prêmio protocolar de melhor juiz da Liga. Nem sei se significa muito. E a tal lista de requisitos é sempre um mistério.

Carles: Pois o melhor, quiçá o único bom árbitro que está apitando na primeira divisão espanhola é meu conterrâneo Antonio Mateu Lahoz, muito bom tecnicamente, dialogante e por isso, talvez, não seja do agrado dos senhores austeros da federação local e da Fifa. Claro que ele é seis anos mais novo do que Carballo e tem muitas chances de estar na próxima Copa. Pensando em como deve ser um bom árbitro, o escritor donostiarra, radicado na Alemanha, Fernanando Aramburu escreveu no jornal El País esta semana uma crônica intitulada “¿Qué es un buen árbitro?”, referindo-se ao árbitro alemão Knut Kircher, de 44 anos, que está sendo considerado a grande sensação da Bundesliga e a quem normalmente se entrega os jogos de grande responsabilidade ou de alto risco, como foi o Hannover 96 – Eintracht Braunschweig da última rodada. Uma verdadeira batalha campal entre torcidas e que Kircher soube conduzir com maestria e, principalmente, com absoluta serenidade.

Edu: A escolha entre um árbitro mais diplomático, que pode ser visto como um contemporizador, e um mais rigoroso, que pode ser visto como autoritário, é o que marca as diferenças entre as ligas europeias, me parece. Lahoz, que esteve no último Atlético-Barça, tem todo o jeitão de contemporizador, mas essa é uma espécie de juiz que, dependendo do nível de tensão do jogo, tem tudo para se transformar num banana. O árbitro brasileiro escolhido, Sandro Meira Ricci, já tem o perfill padrão dos colegas daqui, é do tipo ‘cartão nervoso’.

Carles: Não é sempre o caso. Um juiz que conhece sua qualidade técnica não precisa tratar os times como se fossem uma classe de pré-escolar para poder controlar a situação. Aliás, acho uma situação absurda, que só fomenta o comportamento infantil e caprichoso de alguns jogadores de futebol ou de parte da torcida. Se tivesse que indicar um padrão de juiz, não teria dúvidas, seria Lahoz. Árbitro teatreiro, gesticulador ou cartão nervoso me parecem modelos pertencentes a outros tempos, mais ao feitio “caudilhista”. Justamente, uma das grandes virtudes do alemão Kircher é não dar mais atenção do que a necessária aos possíveis distúrbios, que aliás costumam surgir pela necessidade de alguns em procurar protagonismo. O juiz que com a sua atitude amplia a importância de um ato de indisciplina, seja de quem for, só está entrando num jogo de provocações.

Edu: Aí vamos entrar provavelmente numa discussão sem fim sobre o árbitro ideal e o árbitro real. O que vem antes em matéria de arbitragem, a qualidade técnica ou ter o controle emocional do jogo? Como equilibrar as duas coisas de forma criteriosa se o árbitro já entra como vilão, no fio da navalha? Como fazer com que os jogadores – no fundo, todos ainda semi-adolescentes – entendam claramente as regras, ao mesmo tempo em que respeitam os adversários e as decisões polêmicas da arbitragem? A princípio, concordo com você: é de doer um árbitro que quer mostrar quem manda no pedaço, antes de fazer o trabalho técnico com eficiência. Mas um juiz vacilão com a violência certamente irrita mais do que aquele que tem uma ou outra deficiência técnica. Até porque o vacilão, hesitante por natureza, também vai errar mais tecnicamente.

Carles: Por isso defendo uma ótima preparação técnica. Normalmente o recurso da autoridade excessiva, mais do que um instrumento disciplinar ou de controle, demonstra uma certa insegurança e é isso que, via de regra, faz com que os jogadores queiram forçar a barra e passar dos limites estabelecidos para a convivência e o bom desenvolvimento esportivo. Só vacila o árbitro que não confia nas suas próprias possibilidades e não aquele que é mais ou menos autoritário. Mas voltando à questão dos árbitros Fifa, os 25 encarregados de dirigir os jogos da Copa. Na verdade, uma das maiores preocupações na hora das escolhas é com os árbitros que representam países cujas seleções têm menores possibilidades de chegar aos jogos finais, ou seja, os que dirigirão os jogos de maior visibilidade. Não seria a primeira vez que semifinais e finais de uma Copa fossem dirigidas por árbitros de países com menor tradição futebolística que já, desde o início, partem de uma certa desconfiança geral.

Edu: Nesse caso, provavelmente ficaremos livres do alemão Felix Brych, o mesmo que validou o recente gol fantasma de Kiessling, do Leverkusen, na Bundesliga. Mas Howard Webb – aquele que não vê grande problema nas pancadas do holandês De Jong – pode muito bem estar lá de novo, para azar de Xabi Alonso. O brazuca Meira Ricci dificilmente apitaria uma final, é muito novo ainda, apesar de ter sido o árbitro de Bayern e Raja Casablanca, na decisão do Mundial de Clubes. E o principal detalhe do seu currículo é o processo que ganhou contra Neymar, há quatro anos, quando o então adolescente santista fez alguns ‘elogios’ no Twitter à atuação do árbitro. Desde já, tenho meu candidato à final: o português Pedro Proença, que tem um padrão de atuação muito firme e seguro, é bastante conhecido de todas as estrelas porque tem larga experiência na Champions League e também é respeitado pelos treinadores.

Carles: Com isso, então, você descarta que o atual Bola de Ouro pise o gramado do Maracanã no dia 13 de Julho próximo? Mas nem Proença está livre de pecado, diria minha tia do interior. Normalmente encarregado de apitar os confrontos Porto-Benfica, ele já esteve implicado no processo de escutas telefônicas chamado “Escutas apito dourado”, que investigava possíveis manipulações arbitrais em Portugal. Proença costuma ser relacionado com o Benfica, que, dizem, seria o clube do seu coração e do qual seria sócio. Mesmo assim, as arbitragens de Proença também não agradam aos lisboetas encarnados, quiçá porque se sinta obrigado a uma neutralidade que de fato não existe. Esse é o outro lado perverso da arbitragem.

Edu: Bom, pessoalmente, o que mais quero mesmo é desencanar com os árbitros, já que eles são inevitáveis. Porque, nesse ponto, sou adepto da tese de outro escritor espanhol, Vicente Verdu, que defende que os juízes de futebol representam na verdade o não-futebol, a negação de tudo, são dentro de campo os únicos senhores do tempo e do espaço, e têm plena liberdade para fazer, com o apito na boca, exatamente o contrário do que todo o estádio – e o mundo – está vendo.

 

 

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