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Sessão deprê para encerrar os trabalhos

DESPEDIDA EM BRASÍLIA TEM JEITÃO DE VELÓRIO

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de julho de 2014 | 09h16

Edu: Você é daqueles que considera disputa de 3º e 4º inútil, mórbida, depressiva?

Carles: Depende das circunstâncias. Imagino que para a torcida brasileira não é nada agradável, porque significa sair a campo depois da tormenta que arrasou o Mineirão e também porque, tradicionalmente no Brasil, não ser o primeiro é sinônimo de perder. Por outro lado, acho que considerar indiferente acabar terceiro ou quarto, pode soar um pouquinho prepotente, já que com perspectiva histórica, o pódio dá mais pontos, prestígio, etc.

Edu: Sua perspectiva europeia enobrece esse jogo, Carlão, muito obrigado. Aqui temos a impressão de estarmos a caminho de um velório dos mais fuleiros e, posso te garantir, não há nenhum sinal de prepotência, não estamos para isso (exceto pela rapaziada da Comissão Técnica, claro, mas aí não conta). Sempre gostei de ver esses jogos em outras copas porque os times, descompromissados, jogam sem tensão, os gols surgem com facilidade, há cortesia o tempo todo. Desta vez não é o caso.

Carles: Sei e entendo perfeitamente. E garanto que, apesar de ser a atual campeã do mundo (até que Puyol devolva o caneco no domingo), se a seleção espanhola tivesse a chance de ficar em terceiro, a maioria por aqui estaria se vangloriando da casta e da raça de La Roja. Já sei que a galeria de conquistas é muito diferente num caso e no outro, mas também penso que, muitas vezes, é excessiva a carga de expectativas que se coloca em determinadas questões por aí e por isso, o nível de frustração parece insuperável, pelo menos num primeiro momento. Diante dessa visão maniqueísta, existem dois riscos para o jogo de hoje: no caso de uma boa vitória sobre a Holanda que meteu cinco na campeã, os estamentos do esporte têm argumentos para não mudar nada e, portanto, esta Copa não representaria uma evolução para futebol brasileiro. Se perder, vai recrudescer a sensação de que tudo está errado no país, esse derrotismo generalizado que chega até a questionar a validade pessoal. Uma terceira alternativa seria a de curtir esse jogo (torcedores e jogadores, aliás uma obrigação para estes) e, fosse qual fosse o resultado no campo, fazer uma análise fria da situação, do êxito da organização do Mundial e da necessidade de mudanças radicais no modelo do futebol brasileiro, mais além da mera troca de nomes, mas da filosofia. E claro diferenciando muito bem entre aprender e simplesmente copiar.

Edu: O sucesso do Mundial já descolou da Seleção Brasileira, esteja certo, ainda que muitos vira-latas que ficaram no esgoto por 30 dias tenham ressuscitado covardemente depois do fiasco, com seu fraseado rasteiro. Como você sabe, é ano de eleição né. No aspecto apenas esportivo, tenho a sensação de que qualquer vitória não significará nada, a não ser combustível para quem anda propagando que é uma questão de honra. Uma derrota normal também não cheira nem fede, a não ser que seja mais uma hecatombe, no que também não acredito porque a moçada de Van Gaal parece em outra órbita já. Será, isso sim, uma última oportunidade para muitos jogadores que ainda sonham em continuar por aí com chances de disputar mais um Mundial, ou dois. O ‘professor’ disse, todo garboso, que tem certeza de que 60% ou 70% desse grupo está pronto para a próxima Copa. Eu já acho que, no máximo, serão 6 ou 7.

Carles: Vai ser tudo muito diferente, tenha certeza, quando esse grupo, incluindo índios e caciques, já não estiver condenado a conviver diariamente. Já em seus clubes, alguns a milhares de quilômetros da Comary, os jovens valores vão recordar como são outras realidades, muito mais profissionais que viscerais, onde o empenho emocional é importante mas não essencial ou prioritário. Então, esses moços vão poder ser mais críticos com tudo o que viveram e com suas próprias capacidades técnicas. E recuperar suas vidas e seu jogo. Aí, provavelmente, vai ser mais fácil concluir quem é que está pronto para as próximas etapas. A partida de hoje, infelizmente, temo já está comprometida por esse espírito guerrilheiro instaurado pelo ‘professor’, capaz de inibir os verdadeiros talentos.

Edu: Me dê algumas horinhas e já veremos o que vai rolar, incluindo a reação da torcida, tão atuante na execução do hino durante o Mundial. Até mais tarde…

Carles: Por aqui vamos assistir e curtir tranquilamente. Até.

 

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