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Sessão Dinossauro

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de setembro de 2013 | 06h24

Carles: Quando vasculho na memória, as minhas primeiras lembranças de futebol chegam em preto e branco, provavelmente com a narração de Luiz Noriega ou Geraldo José de Almeida e logo surge a figura dominante de Roberto Rivelino que, na verdade, usurpou a condição de meu primeiro ídolo futebolístico, um tal Tales. Você se lembra de qual foi o seu?

Edu: Ou quem sabe não era o Walter Abrahão? Riva foi o marco de uma geração porque nada do que fazia era rotina, foi o ídolo venerado com mais intensidade e por mais tempo, mas tenho muito apego aos tempos do Dino Sani, que chegou a conviver com Tales. Eram caras que tratavam o futebol com luxo, nunca eram agressivos ao bater na bola. Quando Rivelino chegou, mudou o parâmetro: era o drible, o lançamento, mas era também a pancada, a agressividade. Mesmo assim, Riva foi provavelmente o primeiro que me fez pagar ingresso para ver um drible.

Carles: Talvez porque a entrevista fosse para algum jornalista  brasileiro, mas, segundo Maradona, Riva também foi o ídolo dele. E teria todo o sentido do mundo, pelo estilo de jogo e pelo caráter. Voltando a Tales, provavelmente as lembranças do jogo dele me cheguem agora meio idealizadas, mas tenho a sensação de que ele poderia ser mesmo esse ponto de inflexão entre um futebol prático, mas bem jogado, e o drible mais acrobático. Uma passagem temporal e estilística que agora parece estar de volta, só que em sentido contrário. Tem mais, ele era o tipo de meia que, ao longo da historia do futebol moderno, parece desaparecer por momentos para reaparecer reconvertido no ala europeu, ‘interior’ ou ‘mediapunta’, mas que sempre volta quando o mundo do futebol se encapricha por recuperar a transição pensada. Hoje, o nosso Tales podia ser o Xavi ou o Isco. Ou será que é muito delírio?

Edu: Tales teria lugar em um grande time hoje, fácil! Mas teria que ser de fato um bom time, porque era o tipo do craque com talento, mas associativo, que precisava ter ao lado gente que sabia jogar. Não era um solista, como Riva, mas sabia ser decisivo, com um passe, um gol de sutileza. Poderia ser, além de Isco, um Özil e, no futebol brasileiro, o único que se aproxima é Oscar, com a diferença de que Tales corria menos, não precisava de grandes deslocamentos.

Carles: Bom, todo mundo corria menos, então. Sem tanta preparação física nem tanta grana. Mas acho que você tem razão, imagino que jogadores como ele sempre estiveram dispostos a ser os coadjuvantes. Tanto que Tales, depois de ver Rivelino surgir no Corinthians, presenciou, no Flamengo, os primeiros passos do Galinho de Quintino. Oscar pode ser mesmo o álter ego atual dele, mesmo tendo surgido como um jogador um pouco mais espetacular, parece que o jogo dele vai ficando cada vez mais pragmático, talvez contaminado pelos ares europeus que nem em sonho Tales imaginou respirar, talvez porque tenha percebido que a zona de campo reservada para eles requer, além de talento, trabalho, muito trabalho. E por isso não tem tempo para “florituras”, o termo que Tata Martino não soube repetir quando os jornalistas espanhóis perguntaram a ele sobre o possível motivo para que Neymar recebesse tantas faltas.

Edu: Por algum motivo Rinus Michels disse que o futebol muda, mas não melhora. Ainda tenho minhas dúvidas se concordo plenamente com isso, mas sigo pensando. De qualquer jeito, já que estamos na Sessão Dinossauro, é o caso de se imaginar como Ademir da Guia encontraria hoje seu lugar no campo. Seria, hoje, o grande Da Guia um cabeça-de-bagre nas mãos de um cortejo de volantes carniceiros? Será que Tales, pouco mais ágil que Ademir, também sobreviveria com a eficiência que a gente conheceu?

Carles: Provavelmente com uma musculatura e um salário à altura, teriam lugar sim. O futebolista Ademir da Guia reencarnou primeiro no Bergkamp e depois no Iniesta. As comparações são odiosas, mas é impossível assistir às evoluções de Neymar em campo e não se lembrar de Pelé, talvez pelo amplo repertório de recursos de ambos. Nesse caso, o símil é inverso, o jogador atual é o mais franzino e por isso, talvez, seus toques sejam até mais refinados. Quanto a Rinus, o que ele queria, provavelmente, era confete pelo reconhecimento de ser um dos responsáveis pela melhora do futebol.

Edu: Hummm, essa associação Pelé e Neymar, seja ou não uma comparação, dá uma boa discussão. Não vejo bem assim. Em todo caso, no mínimo, poderíamos homenagear jogadores como Tales e Da Guia, tanto como Özil e Isco, qualificando esse tipo de craque como universal. Chico Buarque tem aquela definição clássica: o brasileiro é o dono da bola, do drible; e o europeu é o dono do campo, do espaço. Esses tipos aí faziam ou fazem ambas as coisas com igual maestria.

Carles: Claro que Pelé e Neymar se parecem pouco, cuidam de zonas do gramado diferentes, até. Logicamente que jogadores como Juari e Robinho poderiam ser mais facilmente confundidos, à primeira vista míope e com duas boas doses de gim-tônica, com o Pelé. A semelhança está, além da trajetória, na capacidade de resolver uma jogada de ataque com quase qualquer um dos recursos, o drible, o arranque, a cabeçada. Pelo andar da carruagem e se seguirmos nesse processo de globalização que obriga os jogadores intuitivos a fazerem um MBA em tática, quem sabe o garoto não vira uma versão tropical de Cruyff. Por falta de influência não será.

Edu: Deixe o Neymar livre dessa, Carlão, por favor.

Carles: Hahaha, sabia que você não ia gostar.

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