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Sim, Madrid se livrou de um problema

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

09 de agosto de 2013 | 07h31

Carles: Todo mundo esperando o encontro Mourinho-Cristiano e, no final, pelo número de mímicas com recadinhos, o grande destaque da partida Real Madrid-Chelsea acabou sendo Marcel Marceau.

Edu: Parece que Mou conseguiu aquilo que pretendia – despertar interesse por um torneio mequetrefe, rodeado por uma orgia de neon só possível em Miami mesmo. Agora, se aquilo que o Chelsea mostrou nesse tal ‘Torneio dos Campeões’ é uma prévia do que virá por aí na Premier League será o ressurgimento ‘catenaccio’, com a diferença de que não consegue evitar o principal: tomar gols.

Carles: Imagino que ele vai aperfeiçoar o sistema e recuperar seu modelo retranqueiro. Uma retranca ao melhor estilo Mourinho, muito cara, feita de jogadores poderosos no ataque para aproveitar um jogo pouco exato e baseado no erro do adversário. Como você já tinha nos alertado, Oscar ou Mata. Nunca os dois juntos.

Edu: Temo pelo Mata, que tem jogado pouquíssimo na pré-temporada, assim como David Luiz, por causa de seu idílio com o Barça. Mou é mestre nessas pequenas punições rancorosas. Mas sua língua solta, pelo jeito, deixou o pessoal do Madrid ‘mosqueado’. Pelo que li nos jornais daí, ele só cumprimentou efusivamente o Florentino e recebeu, em campo, abraços de Xabi Alonso e do ‘amiguete’ Coentrão. Nem Arbeloa, o maior de todos os puxa-sacos, se manifestou em público. Deve ter feito isso no vestiário.

Carles: Arbeloa, desconfio, conhece o próprio cacife que sabe, é cada vez menor. Vai ter que ficar na dele para garantir pelo menos um banquinho. Teve também o cumprimento a Luka Modric e a José Ángel Sánchez, o homem da grana no Madrid, pois o José pode ser polêmico mas não é bobo. Provavelmente os espanhóis não vão ter vez com ele. Marcelo e Cristiano aproveitaram suas chances e foram muito expressivos, dedicando gestos significativos em direção ao banco de reservas do Chelsea. Pergunto se essa segunda oportunidade dada por Abramovich alimentou ainda mais essa personalidade difícil que parece não ter limite, nem um pingo de humildade. Será que não tem ninguém próximo a ele, à parte dos bajuladores, que possa aconselhá-lo? Mesmo que tudo seja pantomima promocional, uma hora a magia dos títulos vai se quebrar, se já não se quebrou, e ele corre o risco de ficar sozinho.

Edu: Não tem pinta de ser um cara que aceita conselhos nem do próprio pai. Ainda mais com as convicções táticas que ele tanto valoriza. Fico com a impressão até de que ele vai sentir falta daquele ambiente belicoso do eixo Madrid-Catalunha, porque não terá o mesmo tratamento midiático na Inglaterra. Duvido que os caras dos outros times, que já conhecem Mou de longa data, deem muita bola para essas nuvens de fumaça que costuma levantar. Ao dizer que ‘Madrid é a cidade do cinema’, para dar a entender que foi a imprensa e não ele que provocou Cristiano Ronaldo, fica claro que gosta mesmo é disso, desse barulhaço em torno das suas flastranices. Para falar a verdade, Carlão, Mourinho é bem cansativo, vai fazer bem à Liga Espanhola que ele esteja longe.

Carles: Parece desculpa, mas a distância do semeador da cizânia Mou vai fazer bem inclusive ao combinado espanhol. A imprensa inglesa, ao menos parte dela, prefere outro tipo de notícias, na linha traição e triângulos amorosos. Além de tudo isso, ele começa a ficar repetitivo, Barcelona era a cidade do teatro, segundo o então treinador do Madrid.

Edu: E pior é que não vejo sequer evolução profissional possível em um técnico que não arreda pé de seus conceitos tão muquiranas. Com Mata-Hazard-Oscar, o Chelsea seria um time único na Europa em matéria de rapidez de troca de posições e leveza no ataque. Mas ele corta essa possibilidade a seco. Nem mesmo a visível evolução do Real Madrid, que voltou a ser um time que toma a iniciativa e expôs isso nesse jogo, sensibiliza o homem. Ancelotti, que não é nenhum padrão de filosofia ofensiva, ao menos demonstrou que pode conviver e aceitar uma postura mais agressiva no ataque. Daquilo que era há três meses com Mou, o Madrid já mudou muito.

Carles: Pois é, ontem ele teve a oportunidade de se olhar no espelho. O Madrid fez um jogo interessante, com fluidez e transições bastante eficientes, sem depender dos chutões para a correria de Cristiano e algum passe de Özil. Marcelo foi bem, sem ter que se desdobrar como ala e meia. O time mostrou que tem muitas alternativas e uma delas é Isco. Sorte dele chegar na era pós-Mourinho.

Edu: Proponho então que a gente só volte falar de Mourinho nestas linhas quando o time dele fizer algo que realmente preste. Pelo menos assim nos livramos da fumaceira inútil…

Carles: Por mim, proposta mais do que aceita. Já resistimos muito tempo sem falar dele e o preço do pão não subiu. O problema é que certamente, sob essa condição, ele vai ficar meio sumido do 500 aC. Pensando bem, isso não é nenhum problema.

 

 

 

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