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Símbolos da Mãe Pátria confrontam a cidadania

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de março de 2013 | 06h21

Edu: Você que tem uma ojeriza especial aos símbolos pátrios deve ter tido alguns espasmos ao ver os pedidos da digníssima Marine Le Pen para que Benzema fosse banido da Seleção Francesa por dizer que nunca vai cantar o hino, La Marseillaise , antes dos jogos. Que tempos são estes?

Carles: Ahhhh, que saga essa dos Le Pen!!! O pior é que o Benzema, “pasota” de carteirinha, não está entendendo bem o que está acontecendo. O que ele disse é que ninguém vai obrigá-lo a fazer nada que ele não quiser. Não está levantando nenhuma bandeira de negação aos símbolos de um estado opressor. Já os galeses da seleção britânica…

Edu: Os galeses têm mais motivos ainda para não cantar ‘God Save The Queen’. São galeses e ponto, nunca pediram para estar sob o jugo britânico. Não são ingleses. Foi o que disse o capitão do time olímpico, Ryan Giggs, aliás já foi condecorado pela rainha com as honras do Império. Aí, os outros galeses da equipe seguiram o capitão. No caso da França essa história vem desde a Copa de 1998, quando o paisão Jean Marie Le Pen fez a campanha contra caras como Viera e o goleiro Barthez. Acontece que outro sujeito com uma certa importância no time também não cantava o hino: Zizou. E Platini, nas tribunas, idem.

Carles: O Evra, em compensação, foi flagrado derramando lágrimas ao som de ‘Les enfants de la Patrie’… E as suas circunstâncias, teoricamente, são parecidas às dos “rebeldes”. Para variar, já existem grupos de torcedores ultras forçando a barra, em defesa dos símbolos pátrios. Não acredito que na “Roja” tenhamos esse problema.

Edu: Sim, porque o hino não tem letra. Se bem que a cobrança existe e sei que você vai espernear: catalães e bascos se esmeram em vaiar o hino nacional. Não deixa de ser uma pressão sobre um símbolo pátrio.

Carles: Hehehehe. Espernear? Dou a maior força. Tirar um brasão e a letra o hino não eliminam as evidências de um estado que foi criminoso e que, em alguns casos, ainda está por aí, disfarçado de democrata.

Edu: Sei disso. Mas, se excluirmos a Espanha – que provocaria uma discussão para horas – o mais interessante de tudo, no contexto europeu, é que os jogadores têm uma noção de cidadania bem consistente. Özil, que tem ascendência turca, Khedira, de pais tunisianos, e Podolski, que nasceu na Polônia, não cantam o hino alemão, nem dão explicações. O pessoal protesta, a imprensa cobra, mas os caras ficam na deles. Benzema, de família argelina, fez um pouco isso: ‘Não vou cantar porque não quero’.

Carles: É, os alemães não deram explicação, mas teve ministro pedindo. No caso de Giggs, é preciso ressalvar que não se sentiu representado pelo hino inglês, mas pediu respeito enquanto fosse entoado. É uma posição de acordo com a condecoração, não?

Edu: Completamente. Essa proposta hedionda da herdeira dos Le Pen tem um precedente grave entre os grandes times europeus. Sinisa Mihajlovic, um ótimo zagueiro e exímio cobrador de faltas nos seus bons tempos, tem deixado aflorar, agora como técnico da Seleção da Sérvia, todos os seus princípios autoritários e nacionalistas, como notório simpatizante fascista que é. Excluiu da seleção um garoto prodígio, o meiaAdem Ljajic, porque ele não seguiu a cartilha proposta que obrigava todo mundo a cantar o hino. Resultado: uma das maiores revelações sérvias dos últimos tempos está fora do time por um capricho de ‘Major’ Sinisa.

Carles: E o garoto deixou claro que é por convicção e não volta atrás, sejam quais forem as consequências. No ranking de “patriotas” na última Eurocopa estão, por ordem, italianos, poloneses, gregos e ingleses. A maioria dos jogadores desses times cantaram os hinos. E os menos dispostos a cantar as glórias da mãe pátria são russos, seguidos dos alemães. A classificação foi feita contabilizando a quantidade de atletas que cantaram o hino do país antes dos jogos. Tem ranking para tudo… Pelo visto, deve ter sido o ar do velho continente que contaminou Messi.

Edu: Pois é, Messi também não canta. Menos mal que no Brasil ninguém liga muito pra isso. Aliás, alguns caras daqui é melhor que não cantem mesmo, são horríveis, desafinadíssimos, um tormento. E a letra do nosso hino é bastante bizarra e complicada. Não me lembro de nenhuma comoção por aqui porque alguém deixou de cantar. Só o Dunga fez uma leve campanha pedindo isso a seus jogadores.

Carles: Para que cantassem?

Edu: Sim, mas não colou, E, curiosamente, um dos jogadores mais politizados da história do país, ferrenho crítico do sistema, do qual falamos outro dia, o brilhante Dr. Sócrates, cantava o hino nacional com a palma da mão sobre o peito, como todo milico que se preze. Vai entender…

Carles: É, mas o hino e outros símbolos pátrios, em determinadas circunstâncias, foram considerados manifestações subversivas, especialmente por governos ditatoriais. Por outro lado, o canto do hino pode ter o valor de um ritual ancestral, uma forma de intimidar o inimigo. Se a moda pega, podíamos propor uma espécie de canto-dança ritual Mahori Haka, como a dos All Blacks. Imaginou os jogadores espanhóis entoando Macarena com expressão selvagem e as caras pintadas?

Edu: Puyol de cara pintada? E dançando? Não conte comigo.

 

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