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Sobre ronaldos e romários

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de maio de 2014 | 18h39

Carles: As notícias sobre a outra Copa, a disputa política que usa o torneio de futebol para fazer campanha contra e a favor do governo, chegam aqui incompletas e parciais, aliás, como não poderia ser diferente. A última foi sobre a decisão de o cidadão Ronaldo Nazário finalmente mudar de posição. É porque está fora de forma para jogar na ponta do ataque, porque gostou da história de trocar a camisa com o rival como aconteceu com Inter e Milan, Barça e Madrid ou a intenção é confirmar a tradição dos grandes artilheiros brasileiros depois de aposentados dos gramados, de recuperar o tempo perdido e não dar uma bola dentro?

Edu: O cidadão Nazário tem todo o direito de mudar de posição quantas vezes quiser, o que só interessa a ele e à turma dele. Depois, que responda por isso. A vida dos outros brasileiros não vai ficar mais ou menos enriquecida por causa de seu conjunto de ideias. O problema é outro. Ficamos tanto tempo pregando em favor da politização dos jogadores de futebol, normalmente uma classe que vive num universo paralelo, e agora me aparece um ídolo nacional (ou ex) que acaba de ganhar o Nobel do Oportunismo. Andou pelo mundo, sugou o que pôde, fez sua RP particular como empresário, tudo em cima do governo e da Copa. E aos 45 minutos do segundo tempo solta um pé no traseiro do governo e diz que apoia Aécio Neves, seu amigo “de noite e de dia” segundo suas próprias palavras ao jornal ‘Valor Econômico’. Certamente os jornais daí manchetaram que Ronaldo disse se envergonhar dos atrasos na Copa, mas pouca gente destacou as razões reais da guinada ideológica (?) a estas alturas.

Carles: Como? Vamos ver se você consegue me esclarecer, ele disse que apoia o amigo de noite e de dia e, com isso, pretende fazer um favor ao tal colega? Assim ele pretende que o amigo perca qualquer eleição e possa dedicar mais tempo à amizade entre ambos ou no Brasil ainda continua dando uma boa imagem ser um cara festeiro e bon-vivant? Pelo visto é como os diretores de campanha pensam, não?

Edu: É só um dos detalhes barrocos da entrevista que ele deu, justamente a um veículo de mídia dirigido ao empresariado nacional. Falou claramente que assim que a Copa acabar, vai se engajar de alguma forma na campanha (“alguma coisa vou fazer”). Ou seja, já está em campanha. Mas quanto a isso, eles que se entendam. Disse ainda que pretendia, como empresário, investir no Brasil no ano que vem, mas desistiu (fico imaginando o quanto perdemos sem o investidor Ronaldo!!!).

Carles: Ocorre-me uma série de piadas sobre essas declarações, mas melhor manter o nível do post.

Edu: O que causa um enorme mal-estar neste momento é o cinismo do sujeito que passou os últimos anos com o estandarte na mão e um sorriso na boca angariando simpatias. Já falamos aqui de outro tipo de oportunismo, o de Romário, que, uma vez fora do esquema da CBF, passou a ser o inimigo número um da entidade como deputado, sendo que em toda sua carreira nunca levantou uma sobrancelha contra o sistema podre que quase sempre o apoiou. Agora, as bizarrices chegaram a tal ponto que Romário e Ronaldo se tornaram inimigos íntimos e passam a maior parte do tempo mandando chumbo grosso pela mídia – no fundo, ambos se acusando mutuamente de oportunismo. E, em matéria de cinismo, Romário completou o quadro, ao dizer que, uma vez que a Copa já está perdida fora de campo, ele vai torcer pela vitória do time do Felipão. Tá bom pra você ou quer mais?

Carles: Não, mais desse enredo surrealista eu não aguentaria num mesmo dia. Confesso que eu me perdi. Desde aqui e você me contando alguns detalhes, fica a primeira impressão de revanchismo, de uso de posições públicas para vingança pessoal. Por outro lado, parece muita pretensão para artilheiros pouco habituados a usar a cabeça. Já sabemos que eles pouco treinaram esse fundamento e que costumavam bater ora de direita, ora de esquerda, dependendo da conveniência pessoal, da posição circunstancial diante do gol ou como os adversários se colocavam. Ou é o caso de desconfiar de que, apesar de aposentados, eles seguem ouvindo ofertas?

Edu: Ofertas eles sempre estão dispostos a ouvir, você bem sabe. Romário, depois de um momento de especial dedicação a esculhambar a Copa, entrou nos últimos meses com tudo na dança dos patrocínios voltados para quê: para a Copa, claro. Também tem todo o direito, assim como outros campeões mundiais que aproveitaram a demanda de entusiasmo dos anunciantes para voltar à cena e levantar uma grana. É justo e legítimo, embora não seja ético no caso do Romário. O problema, insisto, é a falta de uma mínima consciência sobre a função do ídolo como figura pública, como uma espécie de agente da cidadania, ainda mais se tiver algum tipo de convicção política, o que sempre é útil, mas não é o caso.  Aliás, há outro problema grave: a quantidade de gente que entra na onda deles, mídia inclusive. Mas aí já é outra história.

Carles: Bom, justo e legítimo? Segundo quem? O gerente do banco ou o código de ética? Um cara que desde a sua tribuna política critica a organização de um evento de repercussão mundial e depois usa a realização desse mesmo evento para faturar com publicidade, mesmo que seja evocando glórias pessoais passadas, na minha terra, como mínimo tem outro nome: perda total de credibilidade. E a tal onda expansiva se chama eco interessado. Li um texto do Ciro Gomes (na mídia!) que defendia que o povo brasileiro não é bobo, que apesar da vitória da seleção do Tri em 1970, a votação de 1974 foi uma verdadeira lavada no regime militar que pretendeu usar a vitória em benefício próprio, como forma de propaganda. Ou seja, devo concluir que nem todos os meios estão mesmerizados.

Edu: Não, nem todos, o que nos faz tocar a caravana adiante dignamente. O resumo da história é uma rematada ironia: antes de a política usar o futebol é o futebol quem está usando a política, o que não é de hoje. A baixa política, diga-se. E no momento em que muitos delírios se propagam em torno da Copa, ao menos muitas figuras carimbadas não estão resistindo à transparência de boa parte dos debates, como é o caso dos romários e ronaldos que estão por aí.

Carles: Isso tudo faz-me lembrar de uma família que costumava visitar meus pais quando eu era pequeno. Minha mãe servia uma torta de chocolate e eles sempre diziam a mesma coisa, fazendo uma careta: “Não obrigado, nós não gostamos de chocolate”. Conversa vem, conversa vai, fatia de torta para cima, pratinho vazio para baixo, quando aquela gente ia embora, não tinha sobrado nem um pedacinho de torta. E eu e meu irmão que adorávamos chocolate…

 

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