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Soluções caseiras para dois gigantes deprimidos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de abril de 2014 | 20h04

Carles: Dois gigantes em crise, United e Barça, com resultados esportivos ruins, crises institucionais e algumas velhas glórias no limbo. Esse samba do crioulo doido, com um tremendo ar de improvisação que em nada combina com a pose dos Red Devils, pareceu uma boa solução (provisória ou não, já veremos) à camarilha de Manchester, hoje contra o Norwich pelo menos deu certo. Fico pensando em Xavi e/ou Puyol como estepe para o Tata…

Edu: Hummm, Xavi gritando e gesticulando à beira do campo? Difícil visualizar essa cena. Puyol pode ser, mas aí a dúvida passa a ser sobre conhecimentos táticos, mais do que a questão da liderança. Também acho que o Barça não entraria numa aventura dessas sem antes fazer com que seus decanos passassem por uma experiência qualquer, acadêmica ou prática, algo como Zidane está fazendo em Madrid (é outro que não consigo ver esbravejando na linha lateral). Ryan Giggs não chega a ser um comandante espalhafatoso, talvez nunca seja. Mas o perfil de um treinador no Reino Unido é bem diferente e pode ser que dê certo, se bem que parece mesmo um mandato tampão. Agora, como inovador que é, o Barça poderia programar talvez uma gestão dupla, a visão de Xavi e a postura de Puyol. Quem sabe?

Carles: O que eu duvido é que eles aceitassem, pelo menos trabalhar para o atual gabinete de governança. Eles também não manifestaram ainda qualquer vontade de ser treinadores e desconheço se passaram pela formação necessária e obrigatória por aqui. No caso de Manchester parece que já existe uma campanha pró-Giggs em andamento. O ex-jogador Ole Gunnar Solskjaer, norueguês, companheiro de Ryan durante os anos de glória do Manchester e atual treinador do Cardiff, já tinha dito que era desejo do galês ocupar o posto de técnico em Old Trafford: “Ele é trabalhador e tem grande potencial”. O ex-segundo treinador do United, o holandês Rene Meulensteen, disse em entrevista ao ‘Daily Telegraph’ que não tem a mínima dúvida da capacidade de Giggs como diretor técnico. “Ele tem um grande conhecimento do jogo, é muito inteligente e é duro. Isso pode ajudar a administrar o stress e, claro, os jornalistas”. É ou não campanha?

Edu: Tem perfil, sim, até concordo com a campanha, só que não para já. Sempre considero  precipitado um salto imediato do campo para o banco, ainda que o profissional tenha esse dom de comando. As experiências instantâneas que temos visto por aí não deram muito certo e um exemplo fica acima de todos os outros: o Milan. Fez com Leonardo e agora com Seedorf e deu no que deu. Paolo Maldini, que tinha muito mais história do que Leonardo no clube, alertou na época para essa precipitação e acertou na mosca. Xavi e Puyol, se não manifestaram a intenção, é porque têm cabeça, conhecem bem onde pisam. Não são minimamente parecidas as experiências como jogador e treinador, são diferentes perspectivas e formas de liderança muito mais complexas, que vão de um tratamento mais reservado com os jogadores a uma relação bem mais forte com a cúpula do clube. Muda demais a hierarquia. Giggs, por mais conhecedor que seja das entranhas do United, sofreria tipos distintos de cobrança e teria que mostrar outras competências a partir do cargo de treinador. Coisa que ninguém, nem ele próprio, tem a exata dimensão vendo do ponto de vista de jogador.

Carles: Recuso-me a usar alguém mais ligado no jogo de bastidores do que o do gramado como referência. Já Seedorf acho que pode chegar a ser um bom treinador. Tem razão quanto à necessidade de um período de descompressão. A tal mudança de perspectiva. No caso de Giggs, essa espécie de mudança da ação à contemplação é bem possível que já tenha começado há algum tempo. Esta temporada, ele participou de 21 jogos, e só em quatro foi titular. Pouco tempo para tentar estender a lenda de pelo menos marcar um gol, como no resto de 24 temporadas seguidas na Premier e jogando Europa. Por falar em Europa, o ano que vem não tem para o United. Poderia ser mais um argumento para uma experiência do tipo. Ryan tem carisma e desfruta de reputação em Old Trafford.

Edu: Não digo que a receita não dê certo, até porque o professor do maior jogador galês da história foi um PhD em matéria de United. Vovô Ferguson teve sempre a seu lado a maestria de Giggs, ganharam juntos tudo o que se pode imaginar. Só é preciso ver se será justo atirar nessa fogueira uma lenda da trajetória recente do Manchester. Giggs, que com calma pode formar-se um grande gerente técnico, teria, em caso de fracasso por querer queimar etapas, uma história curta e inglória dirigindo o clube de toda sua vida. É só uma questão de querer assumir esse risco. Tem muitas coisas em jogo, inclusive vaidades, como você bem sabe. Para citar outro exemplo infeliz, a Seleção Brasileira pentacampeã do mundo fez isso com um certo Carlos Dunga, que provavelmente não tinha uma fração dos conhecimentos técnicos de Giggs e viveu sua primeira experiência como treinador justamente na equipe nacional. Me poupe de relembrar o fim da história.

Carles: Sei que um único jogo – e principalmente contra o mais histórico que glorioso Norwich – é muito pouca amostragem. Mas um 4-0 e dando mostras de mando não está nada mal. E, além disso, manejando as estrelas com maestria, fazendo alterações no time e mandando Mata para o banco. O espanhol entrou e fez dois. No final, Giggs confessou que não tinha conseguido dormir à noite por “deixar alguém como Mata no banco. Mas vocês mesmos viram como ele reagiu. Um grande profissional”. E arrematou: “Estou encantado com o meu trabalho”. Desconfio que está nascendo um futuro grande treinador. E, repito, o Manchester não só é a casa dele como o lugar onde ele praticamente passou toda a sua vida adulta. Não vejo que seja tão absurda uma tentativa de o clube investir na fabricação de um treinador que bem poderia devolver outros 27 anos carregados de títulos, como Fergie que, aliás, fez questão de abençoar a estreia do pupilo. Sei que você vai dizer que a Eredivisie nada tem a ver com a Premier, mas o Ajax fez algo parecido com Frank de Boer (e não conta o vexame desta temporada, também).

Edu: Se der certo com Giggs, no mínimo é mais um argumento para a comunidade culé tentar convencer seus dois históricos a assumir uma gestão dupla… Seria uma nova revolução com a grife Barça.

 

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