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‘Tarde de transistores’, ou a emoção de volta

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de março de 2013 | 06h26

Carles: Algum leitor andou reclamando do excesso de Barça no 500 a.C. e a ausência do Corinthians, legítimo campeão mundial. Não sei a sua motivação, mas a minha à distância é mínima, tendo em conta um torneio descafeinado como o Paulistão. Ou é uma falsa impressão?

Edu: O Paulistão não conta, definitivamente. É uma decadência só, pouco mais que uma pré-temporada. O leitor deve estar se referindo à Libertadores da América…

Carles:  As noites mágicas de “Champions”!!! Curioso que os torneios e campeonatos na América ou têm o problema do decréscimo de interesse quando são locais ou padecem do grande desgaste que supõe viajar, seja para disputar o Brasileirão ou os torneios continentais. Talvez o hábito acabe obstruindo a visão crítica, mas sempre achei que deveria haver uma solução local, própria, não necessariamente uma imitação dos europeus.

Edu: A Libertadores cresceu muito nos últimos 10 ou 15 anos e recebeu os óbvios anabolizantes da mídia e dos patrocinadores para tentar se equiparar à Champions, o que de certa forma é legítimo se pensarmos que estão competindo os principais times da América. Mas é claro que há exageros. O que acontece com as soluções regionais é que já não resistem ao apelo do espetáculo. São poucos times, a rivalidade cai, vem o desinteresse. O único lado bom, como contrapartida, é que o futebol brasileiro sabe hoje dar a devida importância a seu principal torneio nacional, inclusive a Série B. Esse é um fator que preponderou nos últimos tempos, com relativo aumento sustentado de público. Ainda longe do ideal, mas melhorando.

Carles: Mas existe sempre um espírito monumentalista por aí, em detrimento das emoções e dos valores territoriais. Isso pode determinar o começo do fim de clubes com características regionais. Nunca esqueço do Almirante Heleno Nunes à frente da antiga CDB cujo lema era “Aonde a ARENA vai mal, um time no Nacional”, em referência ao partido do governo.

Edu: Aqueles tempos eram de completo cabresto. Havia a intenção clara de satisfazer politicamente algumas regiões e o governo militar abria as portas (e as comportas financeiras) para tentar ampliar sua base. Essa questão da falta de apego regional é um pouco esquecida pela mídia hoje, mas o torcedor das pequenas cidades continua bastante fiel a seu clube local. Há inúmeros exemplos de luta pela sobrevivência que só terminaram bem porque a população abraçou o time local. O problema é que, num território deste tamanho, as coisas se diluem. Além do fato de os pequenos não poderem contar com os instrumentos de divulgação ideais.

Carles: As coisas se diluiriam menos se houvesse uma busca da revalorização do local, se as emissoras de TV por exemplo, em vez de repetidoras , fossem emissoras autonômicas, a fórmula que deu certo por aqui até virarem instrumento político de quem governa. Sei que é uma dura batalha, mas por algo se começa. Com programas de desenvolvimento regional, relacionados com a formação, com as políticas administrativas e com o esporte, claro.

Edu: Esse risco de virar instrumento político sempre existe, mas mesmo assim alguma coisa funciona em nível regional aqui. Os torcedores, bem ou mal, continuam indo ao estádio ver seu time local, enquanto ouvem pelo radinho o time grande pelo qual também torcem. Emissoras regionais sempre garantem a transmissão das divisões menores e a internet melhorou muito essa circulação da informação que fica longe da grande mídia. O problema será sempre a divisão do bolo, quem conseguirá se sustentar com os patrocinadores locais e com as pobres cotas televisivas, quem conseguirá manter um time razoável para sonhar com as principais divisões. Mal comparando, vocês vivem muito disso aí também, embora as raízes regionais sejam mais fortes.

Carles: Na minha última visita ao Brasil, tentei comprar uma camiseta de um clube do interior de São Paulo que já foi de Primeira mas agora joga na Segundona. Nenhuma loja de esportes tinha a camiseta do time da cidade! Acabei na secretaria do clube e o funcionário disse que a situação econômica não permitia fabricar camisetas além das dos jogadores e que os grandes industriais da região preferiam patrocinar clubes da capital. Que ele não tinha nem uns trocados no caixa para fazer uma fotocópia. Moral da história: acabei voltando sem a camisa, que podia ser uma fonte de renda para o clube. Pelo menos esses torcedores que você diz que seguem indo ao estádio comprariam. Aliás, acho que as raízes regionais no Brasil são muito fortes, mas estão adormecidas.

Edu: Pois é, o problema é que não são tantos torcedores assim que justifiquem uma política eficaz de marketing. Marketing para eles ainda é um luxo. Nesse ponto, o futebol do interior é pré-história. Talvez faça falta uma política de estado voltada nessa direção. Algo gradual, que, mesmo que não resolva já o problema, ao menos aproveite o prazer e poder de mobilização que o futebol ainda significa para aquelas pessoas. As demonstrações de apoio aos times locais poderiam ser melhor aproveitadas.

Carles: Digo tudo isso porque acredito nos torneios regionais, mas sinto que carecem de emoção como campeonato. Os picos de entusiasmo são os clássicos, normal por outra parte, mas se os coadjuvantes fossem medianamente fortes, melhor para o torneio. O problema é que por aqui vamos pelo mesmo caminho. As ligas estão destinadas a dois times, os clubes menores perdem força financeira e esportiva e sentimos falta das velhas “tardes de transistores” (alusão ao termo “noche de transistores”, como ficou conhecido o 23 de fevereiro de 1981, em que as forças comandadas por Tejero invadiram o Congresso dos Deputados para tentar promover um golpe, que terminou em fracasso) das ligas que o Dream Team do Barça ganhou mediante uma combinação de resultados na última rodada. Mas claro, como você diz, faça-se a vontade das marcas comerciais globais.

Edu: Sobre esse tema, merece uma leitura especial o capítulo que aborda as tardes de domingo com radinho de pilha, no livro ‘Mitos, ritos y simbolos’, de Vicente Verdu. Eram outros tempos, mas nem sei dizer se o futebol e o torcedor mudaram tanto desde então.

Carles: Viva as tardes de radinho. Quantas lembranças!

 

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