As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Todo-terreno, mas com classe

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de outubro de 2013 | 19h48

Carles: Estive comparando o jogador mais elogiado e o mais criticado por você, durante estes meses de 500 aC, e cheguei à conclusão de que eles são bastante parecidos. É mais do que provável que ambos estejam no Brasil o ano que vem para jogar a Copa por suas respectivas seleções. Refiro-me ao ex-corintiano, hoje no Tottenham, Paulinho, e ao ‘culé’, ex-Arsenal, Fàbregas. Originalmente, eles cobrem a mesma (ampla) zona do gramado, tem funções defensivas e muita chegada. Todo mundo pensa que eles são volantes e outros se enganam ao considerá-los meias. Costumam aparecer por todos os lados do campo, marcam gols de perna direita, de esquerda, de cabeça e os dois lançam – pior que Xavi e melhor que Khedira. É certo que Paulinho samba melhor e tem o inconfundível jogo de cintura dos trópicos, mas, fora isso, não vejo tanta diferença para você idolatrar um e demonizar o outro.

Edu: Espero que a palavra ‘demonizar’ não seja levada ao pé da letra, porque só acho, sempre achei, que Cesc apenas não é tudo isso que dizem, apesar de ser bom jogador. Principalmente, não vejo Cesc essencial para o Barça, exceto em determinadas ocasiões. Ou seja, no Camp Nou é uma boa opção de banco. Há mesmo algumas semelhanças com Paulinho, mas também fundas diferenças, a começar pelo marketing. Paulinho fez sua carreira no Terceiro Mundo, levou um time de massa aos títulos continental e mundial e só agora foi para um clube médio da Europa. Cesc foi paparicado desde muito cedo no glamouroso Arsenal (onde não ganhou quase nada) e é jogador do grande Barça e da ‘Roja’. Ou seja, uma covardia. Ainda assim, há alguns pontos em comum no aspecto técnico. Mas o principal que vejo em Paulinho é o fato de fazer o time jogar, como um propulsor, com muito mais energia e precisão do que Fàbregas, que parece bastante irregular, é capaz de fazer grandes jogos e de falhar quando mais se espera dele. Paulinho – a quem tenho acompanhado bem de perto nos últimos dois anos – não falha. Mesmo quando não joga tão bem, acrescenta sempre algo em intensidade.

Carles: Nesses últimos dois anos, Cesc tem jogado deslocado. É possível mesmo que sua contratação pelo Barça, com uma alta densidade populacional no meio de campo, tenha criado uma certa obrigatoriedade de escalação em posições improvisadas. Isso não acontece com Paulinho. Mas quando joga na sua posição e o Tata tem facilitado que desempenhe funções similares às do Arsenal, é tão decisivo como Paulinho. Pelo seu argumento, a diferença básica é de temperamento e felizmente é assim, Cesc é de família classe media catalã e forjado em Londres, realmente não poderia ter o caráter de um brasileiro obrigado a compensar todas as deficiências desse time campeão de tudo e com mérito. Quanto aos títulos e sem menosprezar o título mundial, o nível de competição da Premier e do Brasileirão e principalmente entre Libertadores e Champions são incomparáveis. Insisto que, se houver diferença entre ambos, não é tão abismal. É tão injusto colocar Cesc em um patamar tão inferior ao do brasileiro quanto o desnível que existe entre ambos na questão do marketing – se o Barça colocasse Cesc no mercado provavelmente todos os clubes ingleses se bateriam em duelo por ele e, injustamente, não seria assim com Paulinho.

Edu: Claro que não, é o que acontece quando o sujeito é dourado pelo marketing. Cesc comandou a geração do Arsenal que veio logo após aquele timaço que foi campeão invicto na Premier, com Henry à frente. Cesc, ainda muito jovem, era o termômetro, fazia a bola rodar, comandava os outros moleques e virou xodó da mídia inglesa, o que não é pouco. Paulinho teve resistência até do Felipão no início dele na Seleção, porque era um volante que fazia muitos gols!!! Longe de mim querer comparar Libertadores e Champions, se bem que gostaria de ver o ‘mauricinho’ Cesc numa noite dessas em La Bombonera ou contra o glorioso Olimpia no Defensores del Chaco. Diria até, para seu regozijo, que Cesc é mais refinado tecnicamente que Paulinho, mas, com minha visão do ponto de vista do proletariado do futebol, ainda prefiro o cara que é mais boleiro. E Paulinho é.

Carles: ‘Mauricinho’ é um qualificativo contemporâneo a convicções como a de que nenhum europeu sobreviveria às intempéries sociais e laborais da América Latina. A vida é muito mais dura na arquibancada de uma Bombonera do que no campo, onde tudo se iguala, e cada vez mais, em qualquer continente. Tudo o que fizemos neste papo de hoje foi especular e provavelmente vai ficar nisso, não teremos a chance de ver Fàbregas fazer parte da sua carreira desse lado da poça. Está claro que os dois são produtos das suas respectivas histórias e assim como acho que Paulinho vai se adaptar perfeitamente ao futebol do velho continente, Cesc daria hoje outra dimensão a esse time do Corinthians e até imagino ele pulando e grudado na grade (ainda tem, né?) do Pacaembu para celebrar um gol com a Fiel. Com toda a intensidade e vibração possíveis.

Edu: Pode até  ser, porque o futebol consegue esses milagres. Mas, como sempre, para os caras do lado de cá da poça, tudo se resume a aproveitar a oportunidade com unhas e dentes. Cesc, por sua origem e pelas ligações afetivas, só pôde mostrar seu jogo até hoje no jet set do futebol, Arsenal e Barça. Paulinho, ainda muito garoto, andou atrás de migalhas na Polônia e na Lituânia, foi vítima de preconceito racial, voltou para Série C ou D brasileira antes de chegar ao Corinthians. Cesc não tem culpa disso, mas foi o que ajudou Paulinho a ser o que é, cascudão e pronto para tudo. Mesmo assim, para falar em oportunidades, se Carlo Ancelotti tivesse conseguido convencer Florentino a contratar Paulinho, provavelmente para o lugar de Sami Khedira, aí teríamos um cenário de maior igualdade para facilitar nossa comparação. Se bem que acho que Paulinho ainda chega lá.

Carles: Disso eu tenho certeza e quem sabe ainda vemos os dois juntos, vestindo uma mesma camisa, levantando uma taça da Champions ou Interclubes. Porque eles podem ser parecidos, mas não incompatíveis.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.