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Tradição e camisas com vida própria

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de fevereiro de 2013 | 11h33

 

A tradicional indumentária dos ‘milionários’ do Rio da Plata

Carles: Você lembra quando a camiseta do seu time era imaculada, imutável? Hoje é praticamente uma obrigação o desfile prêt-à-porter no início de temporada. Ainda tem torcedor que resiste às mudanças, ao ver o Timão de roxo, por exemplo?

Edu: Roxo não, porque parece que já desistiram, não estão mais no mercado oficial. Mas há variações de cinza que estão fazendo sucesso, se bem que o Corinthians neste momento é uma exceção por causa dos títulos que ganhou em 2012. Tudo que entra na loja vende. O fato é que alguns clubes por aqui lançam duas novas camisas por ano, deve estar valendo a pena.

Carles: Uma tradição no futebol europeu é tentar manter a linha da camisa principal, na medida do possível, e causar surpresa com o lançamento de duas novas, com desenhos um tanto espantosos – a habitual segunda, para eventualmente poder contrastar com um adversário de uniforme parecido, e outra para torneios especiais. Mas aí surge outro componente decisivo no futebol, a superstição. Basta o time perder um ou dois jogos importantes na Champions para a camisa ficar meio encostada. Aconteceu este ano com o Real Madrid e a camiseta verde.

Edu: Isso de manter a tradição temos por aqui também. Mas basta o rival fazer algo diferente para mudar tudo e o clube também lançar uma novidade. Se bem que, no fundo, é uma estratégia do fabricante. O clube entra na onda e o torcedor vai junto. Quando a camisa não vende, discretamente é retirada de circulação. Mas o design das camisas de futebol evoluiu demais, algumas são realmente muito bonitas.
Juve e Udinese pelo ‘calcio’

Carles: É possível que o fator decisivo seja, no final das contas, as vendas. E parece que, como nas roupas de passeio, a indústria têxtil impõe a cada temporada um tom que se repete e repercute pelo mundo inteiro. Recordo em determinada época ter sido complicado para o Corinthians impor um segundo uniforme todo preto e, entretanto, mais recentemente quase todos os clubes tiveram uma versão desse estilo. Tivemos o ano do rosinha, que o Getafe adotou por aqui, mas que o Palermo italiano sempre desfilou por Europa. Ou aquela fase das fosforescentes, do Borússia Dortmund ao Chelsea.

Edu: A rosinha do Palermo é o típico caso de tradição arraigada mesmo, e por isso aceita por todas. Mas a Juventus de Turim tem um modelo rosa que é um desastre, virou piada para os rivais. E alguns casos de tradição são estranhos. A camisa escura do Real Madrid, preta ou azul, é a antítese da própria imagem institucional do clube, os merengues. Mas são camisas muito bonitas e imagino que vendáveis…

Carles: Muito menos que a tradicional, a branca, campeã absoluta de vendas.

Edu: Mesmo caso do Santos, que inventou uma camisa azul turquesa.

Carles: Estava aí quando eles estrearam, incluindo, se me recordo bem, a desclassificação nas semifinais da Libertadores, não é isso?

O “glorioso” Karanka vestido de Athletic de Bilbao

Edu: Não sei se ficou estigmatizada pela derrota, mas continuam usando.

Carles: Houve alguma reação negativa. Outro caso por aqui de amor e ódio foi quando o Athletic de Bilbao voltou às competições europeias e decidiu honrar a tradição do Museu Guggenheim lançando uma camiseta com manchas de “tinta” vermelha, insinuando alto relevo.

Edu: E a torcida? Como reagiu?

O camaronês Eto’o

Carles: Mal. Mostraram que a vanguarda artística eles preferiam reservar para o âmbito do museu, mesmo. Na Catedral (Estádio San Mamés), eles queriam as faixas verticais que tanto caracterizaram a garra os Leões. Por falar em garras, você se lembra do uniforme de Camerun, ‘rasgado’ pelas garras dos Leões Indomáveis?

Edu: Aí já entra no terreno do exótico.

Carles: Olha, eu achei inovador, arejada inclusive.

Edu: No fundo, o torcedor é que é um sábio e maneja bem essa história de tradição e de respeito aos símbolos. É inadmissível ao torcedor do River Plate ver o time com uma camisa que não tenha a faixa diagonal. Como o vascaíno e mesmo o torcedor da Ponte Preta. O Vasco já fez alguma tentativa sem a faixa, mas não colou.

Carles: Lembro-me disso, é um grafismo forte demais, apesar das possíveis restrições estéticas. Diria mais: uma faixa diagonal em qualquer outra peça gráfica é automática e mentalmente vinculada ao esporte, sobretudo ao futebol e ao rúgbi.

Edu: Verdade, tem a cara do rúgbi.

O exóticogoleiro mexicano Campos.

Carles: O design fortíssimo da camiseta de ‘los  xeneizes’ (Boca Juniors), na verdade, está associada a esportes mais elitistas como o polo ou o próprio rúgbi.

Edu: Mas ganha outra conotação com o Boca. É como o Peñarol, que tem uma camisa idêntica às usadas nos campeonatos ‘da firma’ aqui em São Paulo. Mas, vestida pelos jogadores do Peñarol, no Estádio Centenário lotado, têm vida própria, puro magnetismo.

A mística Laranja Mecânica

Carles: Mas se você vai à 25 de Março comprar aquele pacote com as camisetas para o seu time de bairro não vai voltar com camisetas brancas, tem que justificar a viagem né? Quer mais impactante que amarelo e preto?

Edu: Tem que chamar a atenção.

Carles: O fato é que a camisa é a cara do time. Na hora de reivindicar qualquer coisa, o torcedor logo diz ‘é preciso defender as cores do clube’. É o mais importante. Em alguns casos, como no caso das seleções Azzurra, Celeste, Canarinho, Laranja Mecânica… esses simbolismos superam qualquer outro tipo de identidade.

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