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Tudo a ver com os ‘indignados’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

05 de abril de 2013 | 05h25

Edu: Algo está passando com os cinco principais campeonatos da Europa. O Barça pode ser campeão com quatro rodadas de antecedência, a Juve idem na Itália e o mesmo para o United na Inglaterra. Até o pasteurizado PSG pode ganhar o campeonato francês com três rodadas adiantadas, enquanto, na Alemanha, o Bayern pode liquidar tudo já neste sábado, oito semanas antes do final do campeonato!!!

Carles: É a Europa dos contrastes, a menos igualitária dos últimos tempos. Os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Fico imaginando o Eibar liderando um movimento “Indignados do futebol”. Não entendo sua estranheza conhecendo bem o contexto continental que estamos vivendo.

Edu: Para você, então, a situação da zona do euro explica tudo? Não há diferenças regionais, não há problemas de desigualdade localizados em determinados países com peculiaridades políticas e sociais, nem problemas internos de organização do futebol? As razões são as mesmas para todos os cinco?

Carles: É a história dos especuladores. Quando uma zona geográfica vive um estado de depressão econômica aparecem os grandes capitais interessados no lucro fácil, na enorme oferta que essas situações proporcionam. Obviamente que existem matizes que diferenciam uma realidade da outra. Em teoria, Barça e Bayern dispõem da própria capacidade de investimento. Mas é só teoria já que a camiseta blaugrana conta com o primeiro patrocinador comercial da sua história, sob a máscara de uma fundação, parte de um estado ditatorial cujo líder, por coincidência, é o dono do PSG.

Edu: Ok, concordo que o papel daninho exercido pelos especuladores é determinante e também entendo as melhores possibilidades de gestão dos grandes clubes. Mas insisto: não há formas mais práticas e particulares de se abordar cada um dos modelos? É só uma coincidência o fato de o futebol europeu entrar de férias, praticamente em bloco, no fim de abril (com exceção dos semifinalistas da Champions)? Fosse aqui e voltaríamos àquela história de que o brasileiro tem o pior calendário futebolístico do mundo…

Carles: Coincidência, nenhuma. Sintoma de má gestão econômica, mais do que provável. Imagino que muitos dos xeiques (e milionários mexicanos) cansaram-se de colecionar ‘testarossas’, iates e outros símbolos de poder e virilidade e decidiram-se por outro tipo de brinquedinho. Veja quais são a maioria dos proprietários diretos e alguns indiretos desses clubes. É uma disputa como outra qualquer para demonstrar quem é o melhor “dotado”. Não é o tipo de situação que favoreça a emoção, a de um campeonato disputado até as últimas batalhas. Virou guerra nuclear. E isso, sabemos bem, pode acabar destruindo os brinquedinhos. Bom, tem também o aspecto de que o futebol favorece a lavagem de dinheiro… Um atrativo para esse tipo de investimento.

Edu: Acho uma generalização equivocada essa sua… Os árabes e mexicanos estão em alguns clubes da Inglaterra, em dois ou três na França, entre eles o PSG, único grande da lista, e em mais uns poucos nichos. Patrocinam o Barça, mas não participam da gestão até onde eu sei. E entraram em esquemas de times menores de alguns países, como o Málaga. Na Itália e na Alemanha, por exemplo, não há time grande sob gestão de investidores estrangeiros. Além do que nada na história do futebol garantiu até hoje que gestores locais tenham sido mais eficientes que os estrangeiros. Esse desinteresse que afeta o torcedor tem muito a ver com a própria organização do futebol em si – não se busca novas fórmulas, nada se reinventa. Ninguém tem ousadia para, por exemplo, mudar as fórmulas de disputa. Isso é reflexo da sociedade? Pode ser, mas o futebol poderia resolver as coisas de uma maneira mais ágil, sem precisar derrubar nenhum regime…

Carles: Você acha pouco tudo isso que você mesmo listou? É simplesmente a coluna vertebral do futebol europeu. Certamente que ser nativo não imbui ninguém de competência gestora, mas garante um compromisso social distinto. A proximidade afeta ao menos as intenções. Você sabe que na Europa o regionalismo é mais do que um costume cultural, é quase um vicio. A mobilidade geográfica é sempre o último recurso. Antes, na maioria dos casos, o presidente de clube era o vizinho ‘triunfador’. Sua convivência e da sua família com a comunidade era condicionada pelas suas atuações. Veja o exemplo de Ali Syed, por exemplo, o tal hindu que “comprou” o Racing de Santander faz duas temporadas, sem por um tostão na mesa. Deu no que deu. Pergunte quantas vezes ele foi visto em Santander almoçando, jantando ou pegando uma praia.

Edu: Não vejo a coluna vertebral totalmente contaminada, Carlão, exceto pelos clubes ingleses (Chelsea e City), o que não é pouco. No contexto clássico do futebol, o PSG não é ninguém, vai ter que gastar muito para ser. E a questão da identificação regional é uma das coisas mais bacanas que existem na Europa. Lembro da quase falência do Zaragoza, que só foi salvo porque os ‘vecinos’ se cotizaram e socorreram os gestores incompetentes. Mas o que parece claro é que medidas pontuais e locais resolveriam algumas coisas. No caso da Espanha está a distorção mais gritante, a verba da tevê, que é negociada com os dois grandes à revelia dos pequenos. O Wolverhamptom, último colocado na temporada passada da Premier e por isso rebaixado, levou 39 milhões de libras da tevê. Que impacto teria para um Granada ou um Celta receber, só da televisão, uma grana como essa, pouco mais de 46 milhões de euros? Nisso, especificamente, os espanhóis estão atrás de todos. Ou seja, o problema não são os grandes. O problema, como sempre, é melhorar a vida dos pequenos.

Carles: Perfeito. Antes de mudar fórmulas de disputa, é preciso rever as de financiamento. Aí sim estou de acordo com você. Essa talvez seja a origem do problema à que me referi no começo da conversa. O grande problema é que as desigualdades vêm se acentuando faz tempo. Na sociedade em geral e no futebol. Quando se iniciou a destinar verbas de direitos de transmissão segundo o tamanho dos clubes e isso não tem tanto tempo assim, entre outras coisas, desencadeou-se a bancarrota e o desespero dos clubes. Para sobreviver, muitos não viram outra solução que vender a esses senhores que eu citei. Nem sempre foi assim. Foi nos anos do ‘aznarismo’ que se instaurou a política de privilégios e favorecimentos que hoje vivemos. Ao mesmo tempo em que se sonhava em construir uma Monte Carlo em cada cidade litorânea da Espanha. Vide Marbella, Valencia e outras menos votadas. Tudo para ter grandes iates ancorados em vez das famílias de operários alemães, italianos e franceses que religiosamente vinham de carro gastar seu suado dinheirinho todas as férias.

Edu: Ao menos no caso da Espanha, então, ao que parece, para mexer no futebol é preciso mexer no regime. Até que não seria mau negócio.

Carles: No modelo social e econômico, certamente. Pelo bem não só do futebol. E isso seria quase impossível sem uma reestruturação política.

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