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Um desastre coletivo que pode decidir a Liga

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de fevereiro de 2014 | 21h05

Carles: Desastre do Barça em Anoeta. Erro estratégico do Tata ou efeito colateral do desgaste em Manchester?

Edu: Bobagem grosseira do argentino, que pode custar sua renovação de contrato, dependendo do impacto dessa derrota no decorrer da Liga. A obsessão por fazer rotações chegou ao extremo, contra um adversário fatalista, em um campo difícil e num momento crítico do campeonato. Sete mudanças de uma vez!

Carles: Recém finalizado o jogo, ele reconheceu que leu errado a partida e que errou nas substituições. Rotações é uma coisa, bem diferente de suicídio. Tirar o Dani Alves (as declarações dele sobre a torcida, para variar, podiam ter pesado) justo quando tinha ficado sem Jordi Alba foi só um dos erros. Tradicionalmente, os treinadores argentinos não lidam muito bem com laterais que não sejam muros, inclusive eles adoram deslocar centrais para os flancos. Continuo achando que o trabalho às vezes sombrio de Cesc, dá consistência ao meio e alternativas à frente. Mas ele gosta é do Song. Sei também que muita gente prefere não substituir jogadores que num lampejo podem decidir um jogo, mas hoje eu teria tirado o Neymar no segundo tempo.

Edu: Neymar poderia ter saído, sim, como tantos outros. Não vi alguém se salvar. E o pior de Tata foi a confusão de um sistema de marcação que ele nunca utilizou desde o início de uma partida nesta Liga, o que o coloca definitivamente naquela lista maldita de treinadores que gostam de inventar para mostrar que podem ser criativos. Aí, quando o barco afunda, só resta mesmo assumir a responsabilidade, uma maneira de demonstrar grandeza no momento do erro. Mexer na estrutura do time contra a Real Sociedad em pleno Anoeta é de uma imprudência primária. E Song? Bom, faltam três meses para o fim da temporada, mas a carta de demissão está pronta.

Carles: Prontinha, imagino que joga para tentar conseguir um troco razoável por ele já que poderia ter jogado o Mascherano que ficou no banco. Li um ensaio reproduzindo uma fictícia conversa entre os aposentados Drogba e Eto’o no futuro em que eles se perguntavam por quê, depois de “Jay-Jay” Okocha, o futebol africano deixou de produzir “medias-puntas” para fabricar volantes operários em série. Sempre haverá um time inglês interessado em Song. Lógico que ninguém se salvou no time, sem identidade e perdido em campo e justo contra uma equipe de futebol tão fluído como a Real. O paradoxo é que são justo os times bascos que estão dando uma mão ao Madrid, complicando a vida do Braça. Bom, na verdade foram os próprios blaugranas que se complicaram.

Edu: O panorama agora é inverso ao do início do ano, depois da parada para as festas. O Real Madrid lançado, numa fase em que tudo dá certo mesmo sem Cristiano, um Barça bipolar, confuso taticamente, e um Atlético que ainda precisa provar que não é um intruso. Provavelmente nem você põe em dúvida neste momento que a Liga de las Estrellas tem um favorito de camisa branca e que joga na capital.

Carles: Nem eu ponho em dúvida. E acho até que o Barça tem aguentado bem demais o tranco de tanta zica dentro e fora do campo. A vantagem do Madrid, sem querer justificar, é que as suas principais estrelas, além de serem touros e com um estilo de jogo menos sujeito a entradas que possam tirá-los da Copa, suas seleções nacionais tem infinitamente menos importância para eles, casos de Bale, Benzemá e até o próprio Cristiano. Já Neymar e Messi são a alma e o corpo das suas…  às vezes é possível ouvir daqui as preces de milhões de argentinos e brasileiros quando eles carregam a bola e são acossados pelos marcadores.

Edu: Não deixa de ser uma explicação, só que elementar demais para o que está ocorrendo no Barça. Para um time com esse nível de sofisticação, a justificativa não pode ser tão simplista, porque mesmo com Messi contido e Neymar despersonalizado a coisa deveria funcionar melhor em um coletivo com tantas competências. Vamos ser claros: a estrutura é que não convence. E se pegarmos, por exemplo, o sistema defensivo, aí desanda de vez. O que já era vulnerável há pelo menos três anos, inclusive com Guardiola, agora se transformou em uma catástrofe, mesmo quando o time vence. Posicionamentos equivocados, esquema de cobertura inexistente e, individualmente, um panorama assustador.

Carles: O sistema defensivo de Pep era vulnerável, verdade. Só que, no tempo dele, o time era muitíssimo menos atacado. No primeiro tempo em Anoeta, a Real ganhou a cota de posse de bola. O Tata provavelmente se sentiu um gênio e, como você bem disse, quis inventar, coisa que Ancelotti não faz em nenhuma hipótese. Pode até ser que o Florentino contrate, que Carlo tenha que engolir jogadores que nunca quis, mas o jogador que não entrar no esquema pré-determinado dele fica fora. Por isso, por exemplo, tem forçado o Isco a ser um atacante e o malagueño tem se sentido um estranho no ninho. Quanto ao vizinho do Manzanares, eu não diria que inventa, mas tenta encontrar variáveis, como com Sosa e Diego Ribas, apontados como possíveis causas de que o ‘Atleti’ tenha desandado mas que na verdade são tentativas de sofisticar um jogo extremamente pragmático. Tentativa louvável eu diria e numa dessas, se o Cholo acerta…

Edu: Dependendo do que acontecer para o Atletico neste domingo contra o perigoso Osasuna, no terreno minado de Navarra, onde todos os grandes sofrem, a decisão do campeonato, depois de muitos anos, pode estar marcada para o próximo fim de semana, com o derby madrileño. É caso de segurança máxima no eixo entre a Plaza de Cibeles e a Fuente de Neptuno.

Carles: Sobretudo depois das conturbadas semifinais da Copa del Rey entre os rivais da capital do reino por um lado e entre Real Sociedad e Barça, por outro. Pretexto aliás para algumas rusgas em Anoeta e que, inclusive provocaram a expulsão de Tata. Um dia para o argentino esquecer.

Edu: Um dia para o Barça esquecer.

 

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