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Um general, alguns craques e muitas dúvidas: é a Holanda

Carles Martí e José Eduardo de Carvalho

28 de maio de 2014 | 20h23

“Brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar

O mar é das gaivotas que nele sabem voar

Brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar

Brigam Espanha e Holanda

Por que não sabem que o mar é de quem o sabe amar.”

 

Carles: Num doce tom de denúncia, a bela poesia da não menos Leila Diniz, “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, é só um pouquinho injusta pela generalista visão do primeiro mundo quanto ao desapego ao entorno. Os povos da Espanha, sobretudo os do norte da península, estão muito ligados laboral e afetivamente ao mar, com o que travam uma batalha de vida ou morte, pela subsistência e às vezes para conseguir sobreviver frente a sua braveza. Premonitória, entretanto, quanto à condena de holandeses e espanhóis perseguirem seu destino de domínio, quem diria, no campo de jogo.

Edu: A poesia, musicada por Milton Nascimento, também coloca o Brasil em meio a essa batalha, daí talvez essa visão sobre o primeiro mundo, em função da ocupação holandesa no Nordeste, no século XVII, mais um ingrediente na refrega além-mar que deixou marcas culturais e sociais profundas em várias cidades, de Salvador a Recife. Até a Insurreição Pernambucana que fechou o ciclo em 1654, depois dos tempos de relativa harmonia e prosperidade sob a tutela de um certo Johan Maurits van Nassau-Siegen, aqui chamado João Maurício de Nassau, apelidado ‘O Brasileiro’.

Carles: Mas antes que algum neerlandês se zangue, vamos esclarecer que a representação é dos Países Baixos e não da Holanda, na verdade, nome de uma região histórica situada na parte ocidental do país, e desde 1840 dividida em Setentrional e Meridional, quando da secessão Reino Unido dos Países Baixos.

Edu: Se bem que os livros de história por aqui ainda utilizam o nome clássico para o episódio, ‘Invasões Holandesas’, e temo que os neerlandeses terão que conviver com isso. O jogo que vai reviver a disputa pelos direitos do mar – e que é uma reedição da final da Copa de 2010 – é justamente no lugar em que os holandeses desembarcaram em maio de 1624, Salvador, fazendo a população em pânico fugir para o interior. Por si só, já é uma imensa carga de simbolismo, mas imagino que os jogadores holandeses tenham coisas mais contemporâneas com que se preocupar neste momento.

Carles: Esta geração de jogadores tem uma inegável qualidade técnica, mas muito pouca semelhança com a filosofia associativa da grupo mais notável de futebolistas daqueles lados. Sob o comando técnico Rinus Michels e Johan Cruyff, dentro de campo, aquela equipe que deu origem à expressão Laranja Mecânica revolucionou o futebol moderno e marcou toda a tentativa de inovação do modelo de jogo. Com dois vices seguidos, formam, junto com a Hungria de 1954 e o Brasil de 1982, o grupo de seleções mais injustamente ignoradas pela deusa vitória.

Edu: E acumularam mais um vice há quatro anos, ou seja, sentiram em três ocasiões o gostinho de ficar no ‘quase’. Mas o país construiu uma reputação interessantíssima de formação de jogadores, uma política de gestão futebolística que privilegia a garotada em quase todos os clubes, embora isso represente forte êxodo de valores quando esses meninos de tornam profissionais, uma vez que o nível da Eredivisie está longe de competir – em técnica e em grana – com as grandes ligas europeias. De todo jeito, o saudável estigma de futebol feito para crianças e adolescentes está definitivamente ligado ao modelo holandês.

Carles: Tanto que antes de Cruyff ou Marco Van Basten, os holandeses já tinham outro herói, o menino de sete anos Peter, o personagem que segundo a crença teria evitado uma tragédia nacional. Nederland, o nome do país em versão original, deve-se ao fato de grande parte do território se encontrar ao mesmo nível ou mais abaixo do mar, mas Peter, diz a lenda, tampou com o dedo uma fenda de um dos diques construídos para evitar as inundações do território.

Edu: O dedo mágico, desta vez, terá que ser de um velho conhecido da Espanha e desafeto de muitos jogadores brasileiros – Louis Van Gaal. O técnico, que está mais para general do que para treinador, perdeu por causa de lesões graves jogadores importantes para a Copa, entre eles três titulares: o ótimo Kevin Strootman, da Roma, o jovem lateral Jetro Willens, do PSV, e ontem o veterano Rafael Van der Vaart, ex-Madrid, recordista no atual grupo de participações com a camisa laranja, com 109 jogos. Se o grupo é complicado e muitos jogadores da Copa passada já não estão bem, como Wesley Sneyder e o nada delicado De Jong…

Carles: Xabi Alonso que o diga…

Edu: Agora, sem esses craques lesionados, a situação se agrava diante de alguns dos mais difíceis adversários da Copa. Ainda estão Robben e Van Persie, mas nem esses dois são garantia de um jogo fluente e competitivo hoje em dia. Na verdade a Holanda que vem ao Brasil é uma grande dúvida e, para piorar, a estreia tinha que ser justamente contra os espanhóis.

Carles: No confronto direto, os espanhóis ganharam 5 vezes, os holandeses 4, além de um empate. Apesar disso, o embate da sexta-feira, 13 de junho em Salvador, que seria entre Laranja Mecânica e La Roja, será, na verdade, entre os azuis e brancos, porque a Fifa insiste em alto contraste entre os uniformes dos adversários. O problema é que oficialmente Espanha não tem um traje branco para a Copa – o primeiro é todo vermelho e o segundo, preto. Há quem pense que o jogo entre os finalistas da Copa anterior, decide já na estreia de ambos quem fica com o primeiro lugar do grupo. Mas o Chile tem mostrado que pode surpreender e um dos dois estaria em risco. A Espanha mantém o primeiro lugar do Ranking Fifa, Holanda aparece em 15º, o Chile subiu para o 13º enquanto Honduras aparece só em 30º.

Edu: Ao contrário, friamente, hoje, o Chile é favorito contra os holandeses, até porque o time de Sampaoli abre sua participação pegando uma moleza, a Austrália, e pode fazer um importante saldo de gols já na estreia. Quando ao confronto entre La Roja e os rapazes de Van Gaal, ainda que ninguém se lembre dos tempos de Nassau, será curioso ver o comportamento da torcida brasileira que, se por um lado, tem na Espanha uma grande rival no caminho do título, por outro, ainda não engoliu aquela derrota na África do Sul graças à dupla Júlio César e Felipe Melo. Além da natural antipatia pelo técnico que odeia brasileiros. Arrisco a dizer que os baianos vão apoiar o time de Del Bosque.

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