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Um mercado ao sabor de Barça-Madrid

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de julho de 2013 | 17h19

Edu: A impressão que dá é que o Barça, até mais que o Real Madrid, vai ser o fiel da balança no mercado intertemporada, tanto pelas figuras que podem sair quanto pelos zagueiros que pode contratar ou até um meio-campista.

Carles: Verdade. Se por um lado a Liga Espanhola vai perdendo peso no continente, as portas de entrada e saída tanto do Barça quanto do Madrid seguem sendo decisivas para o resto das grandes equipes europeias.

Edu: Ao menos três situações têm o Barça envolvido, com os devidos desdobramentos. David Villa parece ter definido que seu destino é o Atlético de Madrid. Se Thiago Alcântara fica é uma coisa, se sai é outra. Nesse caso talvez o time precise de um reserva para Xavi. E há o problema dos zagueiros. Acho que já não existe na casa ‘culé’ tanta confiança na resistência física de Puyol e o ponto mais fraco do time vai precisar de socorro. Não será Thiago Silva ao que tudo indica, mas quem? Marquinhos, garoto de tudo, ex-Corinthians? David Luiz? Alguma revelação local?

Carles: Vamos por partes. A ida de David Villa para o Atlético já está confirmada por um valor entre 2,1 e 5,1 milhões de euros, dependendo da permanência dele no clube por um período de um a três anos. Coincidência ou não, o Tottenham havia demonstrado interesse por Villa, supostamente para voltar às negociações com o Madrid por Bale, guardando as distâncias entre estilos e porte físico dos jogadores. Não sei se isso pode ter influenciado para que a diretoria blaugrana facilitasse o negócio com o Atlético. Falemos da zaga. Tito Vilanova quer Thiago Silva, mas tanto o dono do PSG como seu treinador, Blanc dizem que ele tem um papel protagonista no clube, de líder e capitão, e que o brasileiro não sai tão cedo de Paris. A secretaria técnica do Barça gosta da opção David Luiz, mas Tito parece irredutível. Gosta dele tecnicamente, mas desconfia da sua capacidade tática, acha que ele é um pouco dispersivo. Fale-me de Marquinhos que eu vi jogar pouco. A qual dos dois estilos se aproxima.

Edu: Seria uma aposta como foi Varane em Madrid. É muito jovem, surpreendeu ao chegar e virar titular, com personalidade, em um caldeirão como a Roma, e tecnicamente tem um sentido de cobertura excepcional, principalmente porque é muito veloz e domina as questões de posicionamento. Tem o problema de não ser muito alto, o que compensa com antecipação. Se o Barça ainda pretende manter a dupla titular Piquet-Puyol, com Mascherano de reserva imediato, seria o momento de apostar em Marquinhos, que ainda é cru para ser titular absoluto em um time desse porte. Como custo-benefício, diante do potencial dele, acho melhor investimento do que David Luiz.

Carles: Pois, nesse caso, talvez seja a opção mais adequada para o Barça. Talvez o próprio David Luiz não confie totalmente nas palavras de Mourinho dando-lhe certas garantias e prefira buscar uma alternativa em Barcelona. Quanto ao meio de campo, não acho que o Barça vá investir nesse setor, principalmente porque está em xeque com relação ao jogador da casa candidato a ser o próximo titular, Thiago Alcântara, e considerado o melhor jogador do último Europeu sub 21. Fala-se muito que já haveria um acerto com o Manchester United, notícia estendida pelos jornais de Madrid. Continuo achando que o grande perigo nesta questão é o pai de Thiago, o ex jogador Mazinho. E insisto em que o Barça teria acalmando o homem com a renovação do caçula Rafinha. Dia primeiro de agosto a cláusula de rescisão de Thiago que agora está em 18 volta aos 90 milhões. Acho que vão deixar o tempo passar.

Edu: Três semanas, Carlão, é muito tempo para enrolar o United. Tenho ainda a impressão que Thiago-Barça e Bale-Madrid serão os dois maiores assuntos do verão espanhol. Mas há muitas outras novidades na Liga, entre elas nove times com treinadores recém-chegados, com destaque para Schuster no Málaga, Luis Enrique no Celta e, claro, Ancelotti em Madrid. E vários jogadores brasileiros envolvidos, uns saindo, como Kaká, condenado em Madrid, e outros chegando a um time grande, como Leo Baptistão. Mais alguém daqui em vista?

Carles: No caso de Kaká, é sintomático o número de camiseta com que Isco foi apresentado (e cujo escudo não beijou ao contrario de Carvajal, que o fez ostensiva e apaixonadamente, no dia seguinte). Por enquanto Isco demonstrou ser um garoto simples e modesto, mas mesmo assim, não me convence o fato de ter sido apresentado com o número 23. Parece que alguém no clube pensa que ele poderia vestir a número 8 de Kaká durante a próxima temporada. Além de bom jogador, ele serviria como símbolo da renovação de imagem que pretende o Real Madrid. Pelo que se sabe, por não ter recebido nenhuma oferta à altura, o clube teria oferecido a Kaká ficar por um salário menor e o jogador não aceitou. Tudo depende de Ancelotti, mas as coisas ficam complicadas para o brasileiro em Madrid. Nem bem Leo Baptistão aterrissou, já chegou Villa fungando no cangote. Se bem que “el Cholo” vai tirar proveito deles mais Diego Costa. Os três são jogadores com características de desmarque, ideais para o jogo proposto por Simeone. Desconheço se algum outro brasileiro poderia chegar, falou-se em Leandro Damião antes a Confecup, mas parece que ele sofre uma lesão, não?

Edu: Damião perdeu visibilidade com a lesão que o tirou da Confecup. Mas continua no mercado e já foi uma vez sondado pelo Tottenham. Enfim, se o que vamos ver é uma repetição dos outros anos, com uma disputa paralela Barça-Madrid e o resto em outra competição, ao menos há o bom consolo de que equipes mais ou menos estruturadas não mudaram tanto. São times agradáveis de apreciar, Real Sociedad, Betis, mesmo o Atlético de Simeone. Mas a grande surpresa parece mesmo ser o novo perfil do Real Madrid, isso se Florentino não ‘tirar la casa por la ventana’ para ter Bale. E, para completar, veremos a dupla Messi-Neymar! Pensando bem, podemos nos queixar o quanto for, mas isso aí continua sendo a Liga das Estrelas.

Carles: Se para os culés é preferível que Bale não venha, para qualquer apreciador do bom futebol, a sua chegada à Liga seria uma boa notícia, mesmo que fosse à ‘meseta’1. Florentino parece quase recuperado da sua ‘síndrome galáctica’, mas ele vai precisar ao menos de uma ‘dosesinha’ chamada Gareth. Um capricho de verão que não chegaria a colocar em risco a imagem de certa austeridade e de valorização do produto nacional deste “novo Madrid”, mas que, ao mesmo tempo, cumpriria a sina das apresentações milionárias no Bernabéu da era Florentino.

 


[1] Planície que, neste caso, faz referência à região central do território espanhol, onde está localizada a cidade de Madrid.

 

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