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Um monumento ao futebol e ao mau humor

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de maio de 2013 | 07h00

Carles: “Não aceito que dê a bola de presente ao adversário pela sua maneira de jogar. Conversei com ele e disse que não aceito isso de ninguém.” Sabe de quem é frase e a quem se refere?

Edu: Não.

Carles: Do vovozão Ferguson e sobre o Cristiano Ronaldo quando aquele era treinador deste. Acho que fez efeito, né?

Edu: Li tantas coisa sobre Ferguson nestes últimos dias que cheguei à conclusão de que fica difícil saber se ele era melhor técnico ou melhor gerente. E também onde termina a realidade e começa o folclore. Mas o velhão mal humorado merece tantas honras…

Carles: Provavelmente ele é um bom exemplo de diretor técnico, cargo que realmente  ostentava. Em alguns clubes esse termo fica só na plaquinha da sala do cara. No caso dos clubes ingleses costuma ser mais do que isso. Ferguson foi um gerente com responsabilidades técnicas e acho que o grande mérito dele é ter sabido se assessorar no que não era capaz de resolver. Administrar, durante 27 anos, tamanha quantidade de jogadores, das mais diferentes origens e na maioria dos casos, obtendo uma melhor versão de cada um deles, deve ter algum mérito.

Edu: Claro que com a estrutura do United fica tudo mais fácil, inclusive se cercar de gente eficaz. Entre as unanimidades em torno dele, está o fato de saber ‘fazer’ estrelas. Pode até ser um técnico comum com cabeças de bagre, mas tem a manha de saber tratar as ‘divas’.

Carles:  “Organizar estes egos, estas personalidades e conseguir motivar a quem já tem tudo, é parte essencial do trabalho”, teria dito ele.

Edu: E também sabe pescar algumas revelações aqui e ali. Se bem que fez muita bobagem também. Levou ao Manchester, por exemplo, o brasileiro Kleberson, que foi um fiasco. Mas nesta hora de despedida ninguém vai lembrar dos fiascos.

Carles: Não foi a única. De fato, segundo ele mesmo, uma das suas melhores decisões foi uma não contratação. “Um grande êxito foi não contratar Paul Gascoigne.” Essa sinceridade incomoda muita gente. Sem falar da guerra dialética que manteve com o espanhol e atual técnico do Chelsea, Rafa Benitez, então treinador de um Liverpool campeão da Europa. Nesse caso demonstrou um certo recalque, desmerecendo o trabalho do colega, se bem que, na essência, tivesse certa razão.

Edu: Esse lado de semear ódios e inimigos é uma vertente bastante agitada na vida de Ferguson. Arsène Wenger, outra das vítimas preferidas dele, que o diga. O onipresente John Carlin, em seu livro ‘La Tribu’, ressalta várias passagens em que o mau humor de Ferguson se transforma em falta de educação mesmo, estupidez em estado primitivo, o que prova que o título de ‘sir’ concedido pela rainha está desmoralizado há décadas.

Carles: Provavelmente o fato de ele castigar o chiclete constantemente, evita danos maiores.

Edu: Carlin sempre lembra de uma frase que teria sido dita por Martin Ferguson, irmão mais novo de ‘sir’ Alex, também ex-jogador, sobre o mau humor do ‘boss’: ‘Mesmo se ele vivesse sozinho numa mansão, arrumaria uma briga diferente  todos os dias’.

CarlesOu seja, em se tratando de mau humor, Cristiano Ronaldo pode inclusive se doutorar. Que sequência! Talvez, isso justifique as “palavras de carinho” dedicadas a Mourinho neste meio de semana, durante a comemoração de um gol. Sobre a relação do português com o clube espanhol, Ferguson tampouco se privou: “No Madrid, Mourinho tem que administrar um circo.” Aliás, admiro a clarividência que ele sempre demonstrou com relação ao Real Madrid, hehehe….

Edu: A verdade é que está enganado quem pensa que o velhote vai se aposentar de uma vez. O cargo que ele passa a ocupar agora no United, uma espécie de consultor geral do futebol, certamente será um inferno na terra para os seus sucessores. Você tem alguma dúvida de que ele vai continuar palpitando com sua proverbial elegância? E xingando juízes? E provocando Wenger e Benitez?

Carles: Nenhuma. É provável até que tenha mais tempo para sua criação lapidaria. Imagino que não será um mar de rosas para o seu sucessor no ‘banquillo’, com o homem fungando no cangote. Será que ajuda se for outro escocês, como David Moyes, ex-Everton? A escolha se baseia no perfil de Moyes, que desde 2000 vem posicionando o Everton entre os 10 primeiros colocados da Premier.

EduMesmo assim, não vai ser fácil. Fergie não é muito adepto de concessões. E pode esperar: quando o rosto do homem começa a ficar roxo, no segundo seguinte algo pesado virá. Mas apesar de todas as patadas e dos episódios um tanto constrangedores, o certo é que fica uma história muito rica, um pequeno monumento ao futebol. Não fosse assim o time mais badalado do mundo não teria segurado o cara por quase três décadas e os craques memoráveis que passaram por ali não teriam tanto carinho e reconhecimento para com ‘sir’ Ferguson.

CarlesVocê vai me permitir, para finalizar as minhas impressões sobre uma figura marcada por tantas frases, deixar a minha favorita, pela afinidade que ela me concede com sir Ferguson: “O Real Madrid, como clube favorito do general Franco, estava acostumado, antes de que a democracia chegasse à  Espanha, a conseguir quem quisesse e fazer o que quisesse”. ‘Menudo’ choque de egos!

Edu: Agora entendi o motivo de você ter insistido em falar do velho escocês hoje…

 

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