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Um plano de carreira de dar inveja

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de fevereiro de 2013 | 03h12

Edu: Até tivemos algumas experiências por aqui, mas não deram muito certo. Pergunto: funciona mesmo bem esse esquema dos times B do Barça e do Real Madrid disputando a Segunda Divisão, a tal Liga Adelante?

Carles: Nem sempre as ‘filiais’ dos grandes times do futebol espanhol estão na Liga Adelante, que é o nome comercial da Segunda Divisão. Neste momento, tal e como os times principais, ambos são bem competitivos. O sistema funciona relativamente bem e prepara os jogadores para subirem. Graças à dureza e seriedade da Liga Adelante, normalmente os meninos conseguem estar prontos para competir no caso de serem chamados pelos treinadores dos times de cima. Mas não é sempre que os clubes investem e prestigiam seus times B ou C.

Edu: Então existe uma conexão obrigatória com a Comissão Técnica do time principal? Porque, parece, o Mourinho não tem nenhuma química com a turma que trata da ‘cantera’ em Madrid. Imagino que seja uma tradição de todos os times espanhóis, mais uma faceta da Espanha profunda. Não teria muito sentido fazer bons times de base e não existir essa conexão.

Carles: Deveria existir, mas depende da gestão e do tipo de organograma estabelecido pela direção. No caso do Madrid, Mourinho exigiu ter o controle sobre as divisões inferiores, mas acabou trombando de frente com Alberto Toril, ex-jogador e atual treinador do RM Castilla (o Real Madrid B), muito querido dentro do clube. Simplesmente Mou desqualificou publicamente o trabalho de Toril, alegando que não pode contar com seus jogadores, pois não existe uma comunhão de objetivos no clube e que a filial não estaria seguindo a linha de preparação e orientação adequadas às necessidades e filosofia do time principal.

Edu: De todo jeito, os times B têm autonomia para ir ao mercado buscar jogadores jovens? Como o Castilla fez com o Casemiro, por exemplo. Quem define essa contratação? O Mourinho ou o Toril? Ou será o presidente?

Carles: Na prática ou na teoria?

Edu: Nas duas…

Carles: Os clubes contam com uma secretaria técnica, gente responsável por viabilizar a contratação de jogadores para a ‘plantilla’. A cadeia de comando varia de um clube para outro e de uma gestão para outra.  Houve um tempo em que se colocavam panos quentes quando se contratava um jogador de prestígio por capricho do presidente. Ultimamente fica bastante evidente que, por exemplo, o Benzema e o Kaká foram contratações do Florentino. Esse é sempre um ponto de atrito dentro do clube inclusive no que se refere aos times de base. Como conversamos o outro dia, Mourinho chegou a barrar alguns jogadores dos times de base para poder promover outros, de origem lusa e  teoricamente ligados ao Mendes, representante de Mourinho e de alguns jogadores. Expliquei?

Edu: Só fiquei sem saber quem contratou o Casemiro… Mas tudo bem porque seguramente ele não vai agradar ninguém, nem Toril, nem Florentino, muito menos Mourinho. A não ser que mude completamente seu padrão de comportamento técnico. A questão é que essa diferença de filosofia em relação ao Barça vai se distanciando. O Barça cada vez mais próximo do Barça B e o Madrid cada vez mais divorciado da estrutura do Castilla. Explica muita coisa…

Carles: Esse pode ser um motivo para que o Casemiro acabe não emplacando e se for por esse motivo parece-me até justo, o problema é quando fatores de outro tipo acabam sendo decisivos. Acontece que hoje os dois times B são muito fortes. Eu, pessoalmente, até acho que o Real Madrid tem alguns valores individuais muito interessantes na ‘cantera’. O problema é a diferença no plano de carreira traçado para esses garotos em cada um dos clubes.

Edu: Será que o Real Madrid só terá o devido carinho pela ‘cantera’ quando o treinador do time principal for espanhol?

Carles: Pode ser mas, suponho, será uma luta inglória da mesma forma, já que o imediatismo e a urgência de bons resultados, pela recente escassez de títulos, faz com que o clube da capital tenha que fazer contratações de impacto e por isso acabe relegando os jovens. O peso dessa responsabilidade é muito grande para a moçadinha. No caso do Barça essa promoção é feita de forma mais lenta e gradual. Mais pensada. E isso garante uma porcentagem maior de acerto.

Edu: Contratações de impacto não são necessariamente um mal. O pior é desprezar essa ideia muito legal do plano de carreira, que poderia fornecer um pessoal de suporte para os craques que vierem de fora. Como o Barça já fez algumas vezes. É bom lembrar que o time que promoveu a grande virada do Barça na década passada tinha dois cracaços de fora – Gaúcho e Eto’o – enquanto a rapaziada de ‘la Masia’ fazia mais de coadjuvante, inclusive Xavi e Iniesta. E até o técnico era gringo, Rijkaard… A verdade é que o plano de carreira devia constar das reivindicações trabalhistas dos jogadores daqui. Seria um passo gigantesco para a modernização do futebol brasileiro.

Carles: Verdade, mas acho que nem eles nem os jovens espanhóis têm esse tipo de consciência. No caso do Barça, por mais que desde fora se despreze a ideia, além dos vínculos naturais ao clube que também existem no Madrid, existe o apego territorial. Não quero com isso transformar esta conversa numa bandeira independentista, mais uma vez, mas ressaltar que é um valor adicional, fundamental para fortalecer esses vínculos nas duas direções. Esse apego territorial vai mais além do local de nascimento como no caso de Iniesta, originário de Castilla la Mancha mas radicado na ‘Masia’ desde menino onde recebeu os valores ‘blaugranas’.

Edu: Em todo caso, depois pode me cobrar sobre o Casemiro e a falta de preparo pessoal dele para triunfar na Europa. Aliás, estreou tomando 3 a 1 do Sabadell ontem.

Carles: Vou tomar nota e prestar especial atenção nele.

 

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