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Um Real Madrid com trejeitos de Barça

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de julho de 2013 | 08h10

Edu: Já há alguns dias tenho visto na imprensa de Madrid que a fase é de ‘espanholização’ do time de Florentino Pérez, depois das duas principais contratações até agora, Isco e Illarramendi. Sem contar Carvajal, que deve tirar o lugar de Arbeloa num suspiro. Ainda acho que virá uma paulada de verão, tipo Gareth Bale por 100 milhões de euros. Mas, por enquanto, não seria melhor falar em ‘rejuvenescimento’ mais do que em ‘espanholização’?

Carles: Acho que a passagem de Mourinho por Madrid teve um efeito “martelada no dedão”, quando passa é uma tremenda satisfação. Portanto, pelo visto, Florentino faz questão de permear seus movimentos por duas coisas que o antecessor de ‘Carleto’ Ancelotti parecia rejeitar, talvez porque tivesse dificuldade em lidar com elas: juventude e nativos do território espanhol. Por outro lado, poderia ser um “mea culpa” do senhor Pérez, quem sabe…

Edu: Uma coisa pode ser consequência da outra, só não se sabe o que veio primeiro, se a opção pelos jovens ou se a nacionalização. ‘El Pais’ lembrou bem que o único grande jogador espanhol contratado por Florentino até hoje é Sérgio Ramos, remanescente do primeiro período do atual presidente. Os outros, raríssimos, foram chamados em situações de emergência, como Diego Lopez na temporada passada, durante a fritura de Casillas pelo português. Aliás, pode ter sido um terceiro motivo, simplesmente o fato de Isco e Illarra serem ótimos jogadores, mais do que promessas. Nesse sentido, dá pra perceber até uma ponta de inveja na imprensa catalã.

Carles: No caso de Diego Lopez, aliás, era uma volta à casa.

Edu: Exato.

Carles: Tem mais, muito espanholismo, mas o clube merengue nega-se rotundamente a pagar qualquer cláusula de rescisão para não pagar I.V.A. e, portanto, não contribuir com a arrecadação de impostos do país. Bom, voltando, ao campo de jogo, a geração que ganhou o último europeu sub 21 forma um fantástico coletivo mas provavelmente é um grupo com melhores individualidades que a seleção principal, e a contratação de Illarra e Isco deve ter muito a ver com isso. Pensando bem, o Madrid só está fazendo o que o resto da Europa tem feito, contratando jogadores espanhóis, entre craques, jogadores normais e até dos menos bons. Mas se não foi nem pela juventude nem pela ‘espanholização’, certamente a direção do Madrid deve ter percebido a repercussão favorável e está gostando da simpatia que isso está provocando. A primeira consequência deve ser para os que já estão na casa, como Morata, da sub 21, e Jesé Rodrigues, da sub 20, sondados por vários clubes europeus e que, contra a tendência dos últimos anos, devem ficar no clube. O comando de Ancelotti, muito mais paciente que o antecessor, ajuda, é certo.

Edu: Por esse raciocínio, não seria exagero, então, chamarmos de ‘barcelonização’ do Real Madrid? Um Real Madrid com a cara do Barça. Que Florentino não nos ouça…

Carles: Não chegaria a tanto, você sabe que os catalães têm fama de pão-duros, um estereótipo que eles mesmo adotam. Já Florentino adora ir às compras, não acho que ele consiga manter a carteira quietinha por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, pinta um Bale na monotonia deste verão, o que de alguma forma não fere a regra da juventude.

Edu: Por outro lado, é preciso agora pensar o que fará Ancelotti com a mescla de moleques e alguns medalhões que podem perder o lugar. Por exemplo, Illarra e Xabi Alonso são compatíveis, ou um dos dois terá que esperar? Arbeloa vai ficar quietinho no banco vendo Carvajal jogar? Isco vai mesmo para a vaga de Di Maria? Como será a convivência de Cristiano Ronaldo com os garotos? E ainda tem Morata ameaçando o ‘sem noção’ do time, Benzema.

Carles: Por mais enfadonhos que possam ter sido os esquemas do italiano, é possível que ele finalmente esteja cumprindo o sonho da vida dele, dirigir o time que ele sempre admirou. Quem sabe, ‘solta a franga’. Ele vai ter uma coleção de craques à disposição e, como bom treinador italiano, poderá se permitir fazer combinações distintas, estratégicas. Corremos o sério risco de ver um Real Madrid jogando um jogo vistoso, alegre e um treinador justo com os seus. Outro aspecto que deve redimir a gestão Florentino. Afinal, tanto tempo errando, uma hora ele tinha que aprender que um clube de futebol não se administra como uma construtora. Temo pelo Barça de Neymar, onde, parece, começa um longo inverno só aquecido pelas fogueiras das vaidades de Messi e Rosell.

Edu: Não acho. Não é porque o Madrid começa uma nova etapa, promissora demais, que o Barça obrigatoriamente estará em baixa. Quero ver o quanto antes como Neymar vai se portar junto com Messi e como o Real Madrid vai digerir essa dupla, principalmente depois do que o garoto fez com os madridistas Arbeloa, Casillas e Ramos na Confecup. Não deve ser nada  agradável olhar no time adversário e ver os dois juntos, Messi e Neymar. E, logo ao lado, Iniesta. Teremos ‘caña’…

Carles: Que assim seja.

 

 

 

 

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