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Um tigre asiático que aprendeu com a lição de casa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

27 de fevereiro de 2014 | 21h49

Edu: Coincidência ou não, foi quando a Coreia do Sul começou a promover uma revolução em seu modelo socioeducativo, turbinando ainda mais esse perfil de tigre asiático, que o futebol do país deslanchou. Eles chegam no Brasil para sua oitava Copa consecutiva e mostram que projeto levado a sério invariavelmente dá certo.

Carles: Nessa história de “conosco ou contra nós” patrocinada por George W. Bush, entre outros, e que pretende dividir o mundo em mocinhos de chapéu branco e bandidos de chapéu preto, os sul-coreanos receberam o sombreiro impoluto. Entretanto, não é exatamente o que pensam as seleções da Espanha e da Itália, desclassificadas na Copa 2002 em terras coreanas e japonesas de um forma um tanto estranha.

Edu: Aquela Copa foi um disparate em matéria de arbitragens e continua viva por aí a história de que foi uma compensação orquestrada por Blatter para ressarcir os prejuízos do governo sul-coreano com a organização. Mas nada disso anula o que eles fizeram, aproveitando aquela lição de casa, e a seriedade com que encaram hoje o futebol. Há alguns dias, o escritor espanhol Fernando Aramburu, em sua crônica semanal no El País, falava da disciplina, da simpatia, da educação e da dedicação dos jogadores sul-coreanos que estão na Bundesliga, um dos eldorados para quem vem daquele lado do mundo. Hoje são seis sul-coreanos atuando por times alemães da primeira divisão, mas a admiração que eles geram por lá é garantia de mercado por muito tempo. Aliás, entre os que jogam na Bundesliga, está o atual capitão da Seleção, o meio-campista Ja-Cheol Koo, que atua pelo Mainz, e um dos jovens mais promissores do time que foi medalha de bronze em Londres, o atacante Ji Dong Won, do Augsburg.

Carles: Mesmo que todo o mundo (menos Al-Ghaundour e seu assistente) tenha visto que aquela bola ainda estava meio metro dentro do campo quando Joaquim fez o cruzamento, era uma oportunidade de ouro para que os homens da Fifa pudessem abrir novos mercados – uma cultura milenar e  suficientemente flexível para não oferecer resistência às tentações ocidentais. A evolução é inegável ainda que, segundo a minha tradicional análise do Ranking Fifa (que normalmente dista anos luz da realidade),  a República da Coreia, na 61ª posição já sai em desvantagem com relação aos seus adversários de grupo: Bélgica 11ª, Rússia 22ª e Argélia 26ª.

Edu: É um grupo bastante acessível aos sul-coreanos. Vamos excluir a Bélgica, evidente favorita. Quem garante que a Rússia de Capelo não vai aprontar das suas indolências e apenar curtir uma viagem ao paraíso tropical? Eu diria que o jogo contra a Coreia, na estreia das duas seleções, dia 17 de junho, em pleno Pantanal, na Arena de Cuiabá, é uma decisão de vaga. O time coreano é uma equilibrada mescla de remanescentes da década de 2000, incluindo daquela Copa que provocou a choradeira de espanhóis e italianos, com alguns jovens muito promissores. No time estará inclusive o pioneiro das aventuras europeias, Park Ji-Sung, 33 anos, cem jogos pela seleção e que tem no currículo seis temporadas e meia com muitos títulos pelo Manchester United. Hoje, ainda dá pro gasto comandando o meio de campo do PSV Eindhoven.

Carles: Puxa vida, que visão tão espetacular e insólita acabo de ter, imaginando coreanos e russos jogando futebol sobre o Pantanal!!! Vou agora mesmo conferir se ainda existem entradas disponíveis para esse jogo imperdível, que nem os irmãos Coen seriam capazes de incluir num dos seus roteiros. Vi muitos bons jogos de Park no Manchester, rápido, inteligente para o jogo coletivo e não carente de habilidade. No entanto, prefiro apostar na Rússia que costuma deixar os seus fracassos já para as fases mais avançadas dos torneios. Sigo tendo minhas dúvidas quanto ao desempenho da Bélgica que, apesar de no papel ser uma das favoritas, pode até acabar disputando uma das vagas com os coreanos.

Edu: Pois eu já acho que os sul-corenos seguem adiante, até as oitavas. Fazem o segundo jogo em Porto Alegre, contra a Argélia, em um clima propício, e por último pegam a Bélgica, aqui do lado, na Arena Corinthians, em um jogo que pode muito bem garantir os dois times com um empate. E vão ficar hospedados longe de tudo e de todos, em Foz de Iguaçu, numa ambientação de ao menos três semanas. Desconfio que esses coreanos estão sabendo muito bem o que estão fazendo.

Carles: Realmente uma boa escolha, clima fresco, muito bem comunicado por transporte aéreo, sem ter os inconvenientes de conviver com uma urbe… Começam muito bem a trajetória mesmo, tem razão. Imagino que terão também uma infraestrutura esportiva à disposição, com centro de treinamento e tudo mais…

Edu: Terão um centro todo reformado e equipado para que Park Ji-Sung não fique nostálgico lembrando-se de Manchester, nem o outro Park (Park Chu-Young) sinta falta de seus tempos de Arsenal (aliás, ele andou aí pelo Celta também). Mas é bom que se diga: discretos como sempre, os sul-coreanos não fizeram nenhuma exigência especial em Foz do Iguaçu, ao contrário, elogiaram tudo, com elegância, educação e bom humor. Fernando Aramburu tem toda razão.

Carles: Park Chu-Young que deve capitanear a equipe no Brasil, foi escolhido jogador jovem do ano da Ásia em 2004, esteve cedido ao Celta na temporada 2012-13 e em 21 jogos conseguiu a excepcional marca de quatro gols – voltou para a Inglaterra. Imagino que a torcida brasileira já escolheu a Coreia num eventual enfrentamento contra os ingleses que não demonstraram o mesmo saber estar dos asiáticos.

Edu: Tranquilamente.

 

 

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