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Uma conspiração cósmica em favor do falso 9

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

11 de fevereiro de 2014 | 20h37

Carles: A lealdade ao clã dos Scolari é mais relativa do que se pensava ou o problema são as circunstâncias, obra do acaso? Alguns nomes novos…

Edu: Alguns sinais são de surpreender. Por exemplo, abriram mão por enquanto de Hernanes, um dos peixinhos da família. A subida vertiginosa de Fernandinho pode ser o principal motivo, mas até agora Hernanes vinha sendo um assíduo, mesmo quando Lucas Leiva foi chamado (agora não está na lista por lesão). Rafinha em vez de Maicon também é uma surpresa, nesse caso talvez um teste com o lateral do Bayern. É sempre bom lembrar a preferência de Parreira por jogadores que atuam na Alemanha e na Inglaterra. E Willian parece ter conseguido a vaga definitivamente, por ‘culpa’ de Mourinho, que lhe deu confiança.

Carles: Mais do que justo. E é provável que a trajetória aparentemente errática e pouco ortodoxa de Willian acabe sendo seu grande trunfo. Tem encarado os desafios com surpreendente maturidade e vai acabar sendo um homem importante na seleção porque, aos 25 anos, oferece o que nenhum outro no grupo. Contudo, não é seguro que os convocados para este amistoso estejam garantidos na Copa. Tenho a impressão que os selecionadores desta vez perderam o controle sobre o calendário Fifa e este último teste não tem o mesmo peso que em edições anteriores, quando as federações tinham mais liberdade para marcar seus compromissos.

Edu: Mesmo assim, como estamos falando de Família Scolari, tem grande significado o fato de ele não ter chamado, por exemplo, Robinho e Kaká. Copa é passado para os dois, esteja certo. E tem o outro lado também. Felipão voltou a convocar Julio César, como se mandasse um aviso: ‘Não adianta vocês reclamarem, ele será o meu goleiro,  e ponto final.’

Carles: Recado mais do que entendido, o goleiro titular é Julio César. Mesmo sem olhar as estatísticas, poderia até garantir que é a primeira vez que a Seleção Brasileira terá um jogador do Toronto FC numa Copa. A outra certeza é que os goleiros reservas jogam no Brasil, nem Diego Alves, nem Neto. Serão Vitor e Jefferson, mesmo. Já Kaká e Robinho… prefiro esperar. Rafinha deve essa chamada ao meu amigo Pep, mas quem é realmente o ameaçado, Dani ou Maicon?

Edu: Dani Alves é absoluto, a experiência de ter disputado uma Copa conta a favor dele. É outro procedimento padrão de Parreira, desde que ele recuperou Dunga depois da Copa de 1990 para fazê-lo campeão em 1994. Tem dessas coisas… E sobra agora a dúvida sobre o centroavante. Fred continua meia boca, não sai da enfermaria, fez dois joguinhos na volta e já se lesionou. Há seis meses estamos falando: os problemas estão no gol e no comando do ataque.

Carles: Insistamos, quem sabe? Deu certo com Fernandinho e Willian, e até do Rafinha andamos falando. Lembro também de ter falado por aqui que no final das contas ia ter improvisação, um “falso 9”. Aposto em uma final com um monte de baixinhos de amarelo, fazendo tiqui-taca e a Espanha com um centroavante fixo. E mais, com Jefferson como goleiro. Quer apostar?

Edu: Só aposto se for a favor do falso 9, até por falta de opção. E seria um problemão para os adversários. Neymar por ali, junto com Willian, Oscar chegando, Bernard pelos lados. Se não fosse Felipão e sua obsessão por grandalhões, seria a grande sacada. Quanto ao Jefferson, duvido. No máximo entra Victor – mas só se Julio César for um desastre nos últimos amistosos (serão mais dois às vésperas da Copa). Se jogar mal como de rotina está garantido.

Carles: Bom, o cenário é o mesmo em que a seleção espanhola deu vexame com os goleiros, Víctor Valdés contundiu-se com todas as substituições pactuadas realizadas e Reina entrando na marra, goela abaixo, apesar das queixas do treinador sul-africano. Falando sério, sem chance de que Júlio César perca toda a confiança nesse jogo. Os “jugones” que você citou dão inveja, só não vejo nenhum deles capacitado para funcionar como pivô. Repito o que eu já disse aqui, a única coisa que Neymar não sabe fazer do meio para a frente, é jogar à frente da linha da bola, nos poucos minutos em que o Tata tentou funcionasse assim no Barça, foram um total fracasso.

Edu: Acho que você está se esquecendo do hat-trick contra o Celtic, em que ele jogou por ali, destruiu os escoceses, e ainda deu uma assistência ao Pedrito. Neymar joga em qualquer lugar do ataque, Carlão, só precisa de liberdade, coisa que no Barça vem a conta-gotas. Mas ele vai se acostumar. E como a Seleção é território dele, fica mais fácil. Lembro bem de um gol que ele fez contra Portugal dos delicados Pepe e Bruno Alves fazendo uma internada pelo meio da área. Nunca como centroavante fixo, lógico.

Carles: É obvio até para a dupla dinâmica que deixar o Neymar fixo seria o desperdício do milênio. Isso está fora de questão, mas é provável que alguém precise ocupar a posição de boi de piranha, estar na mira permanente dos franco atiradores como Pepe ou Bruno Alves para regozijo dos que vem de atrás ou dos flancos. Não vejo o Neymar fazendo esse trabalho sujo, Contra o Celtic, ele foi o que chamamos aqui, o “segunda punta”, posição aliás que cairia como uma luva para ele. Então, o pesadelo do centroavante continua.

 

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