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Uma Copa para destruir zagueiros

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de outubro de 2013 | 22h26

Edu: Será a Copa dos ataques, grandes atacantes, jovens, habilidosos e desequilibrantes… E por isso mesmo será também a Copa das defesas. A impressão é que poucas seleções têm sistemas de defesa consistentes para segurar tanta gente boa nas linhas ofensivas. Pense bem: que países tradicionalmente têm as grandes linhas defensivas da história?

Carles: Está se desenhando um Mundial de um maior colorido, mesmo. Não sei se vai dar certo, mas as perspectivas são de muitos gols. É também um reflexo de uma tendência mundial, moda se quiser, de um jogo ofensivo, algo que talvez tenha começado no Barça mas que o planeta futebol fez questão de acolher de bom grado. Por outro lado, parece que está de volta o preciosismo, a vontade de entrar até a cozinha trocando bola ou driblando, pode ser que isso impeça as grandes goleadas, mas certamente nos fará ver jogos vistosos. Além disso, existe uma vontade maior desde todos os setores do futebol de que tudo isso se dê justamente no Brasil, como um dos grandes símbolos do jogo de bola.

Edu: Talvez tenha um pouco a ver com os esquemas, mas tenho a intuição de que tenha mesmo relação com o grande número de novos craques. Já que você não respondeu, respondo eu. As equipes históricas em matéria de defesa estão em maré baixa. A Itália, mais eficiente por anos, deixou de ter um esquema defensivo também por falta de material humano. Surgiram nos últimos anos mais meio-campistas e atacantes do que zagueiros que honrassem a tradição de Baresi, Maldini ou mesmo Cannavaro. A Alemanha já não tem bons zagueiros há tempos e sua dupla de zaga, hoje, Boateng-Hummels, ainda mostra desentrosamento e falta de jogo de cintura. A Inglaterra, então, outra histórica nesse quesito, nem se fale. Fico pensando o que podem fazer Messi, Neymar, Hazard, Ribéry, Reus, Iniesta e Balotelli diante de Jadielka e do torpe Cahill. Não tenho dúvida: como os atacantes vão brilhar, será uma Copa de quem melhor souber neutralizar, o que necessariamente não significa jogar na defesa.

Carles: Você não entendeu, mas eu respondi sim, as filosofias de jogo, mais que esquemas, são as que fomentam o surgimento de determinados perfis. Discordo que os zagueiros atuais sejam piores, eles simplesmente estão menos protegidos. Sempre defendi a idéia de que para poder julgar um zagueiro é preciso vê-lo em pelo menos duas equipes distintas. Hummels jogando lá atrás, a poucos metros da sua linha de fundo e com uma linha de volantes com vocação defensiva, certamente se consagra como zagueiro, mas não é o caso. Cahill é um zagueiro tradicional e definitivamente não é nenhum dos gênios que você citou, mas está lá por algum motivo. Talvez os zagueiros comecem a se parecer cada vez mais a Mascherano e menos ao inglês. Falta, agora, decidir definitivamente correr alguns riscos durante o jogo e treinar esse tipo de jogador para defender cruzamentos, porque para cobrir diagonais e bolas nas costas eles são melhores que os tradicionais zagueirões. Aliás, pelo que sei esse tipo de defensor já existe, Marquinhos ou Varane, por exemplo, não?

Edu: Sei bem o motivo pelo qual Cahill está lá: não tem outro. E não há comparação entre ele e os tradicionais Ferdinand e Terry, por favor. É claro que também tem a ver com as propostas mais ofensivas, mas os zagueiros de classe e eficiência não sumiram, só estão em outros times, como Varane e Thiago Silva. E Mascherano, você sabe muito bem, começou como improviso e foi ficando, em parte porque agradou Pep Guardiola e em parte porque passou mais da metade de seu tempo no Barça substituindo o eternamente contundido Puyol – além de não ter lugar no meio-campo. Não sinto a menor falta dos tradicionais zagueirões, mas tenho certeza de que italianos e ingleses, por exemplo, sentem e muito. Aliás, quero mesmo é uma Copa dos craques, não dos zagueiros.

Carles: Pois eles terão que decidir, ou imitam o futebol de risco ou continuam dando chance para os becões e optam por um futebol mais estático. Obviamente que Mascherano é uma improvisação, uma circunstância que acabou marcando uma tendência. Ele passou a fazer lá atrás o que já fazia no Liverpool ou no Corinthians um pouco mais adiantado, porque com todo o time pressionando mais à frente, diminuem as probabilidades de que haja uma grande quantidade bolas cruzadas e com todo o time recuado. Nesse caso, as necessidades de defender passam a ser as de bolas roubadas e enfiadas nas costas da defesa. Por isso costumo citar ‘el jefecito’ e não porque ache que ele é o modelo de novo zagueiro. Os Thiagos Silvas são escassos. Além de bom por cima e por baixo, sabe sair com a bola jogada e, provavelmente, se pedirem para ele jogar em outra posição, dedicado e disciplinado que é, jogaria e bem. Mais do que zagueiro, é um craque. Não é problema meu se a mentalidade inglesa demora a assimilar as mudanças (bom, historicamente, tem sido sim, um problema de todos). Também não digo que os jogadores de defesa desaparecerão, mas vão ter que se adaptar. Não tem sentido que se exija menos habilidade ou uma menor técnica a determinados jogadores de um time,  só porque jogam em posições teoricamente de destruição. Talvez o problema seja esse, a mentalização de que esses efetivos não estão lá para destruir, mas para dificultar taticamente que o adversário finalize.

Edu: Você continua achando que o Barça estabeleceu uma cátedra, o que eu mesmo gostaria muito que acontecesse. Mas não é completamente verdade, Carlão, por mais que suponha a sua vã filosofia. Os times não assimilam as coisas assim, não jogam no lixo suas características, por mais que alguns treinadores desejem fazer isso. Mesmo o Bayern, que tem o Pep Guardiola dos seus sonhos, não é como o Barça, não desprezou de todo o futebol mecanizado, embora tenha avançado muito. E não há como fazer certos times jogarem no risco porque não está no DNA deles, ainda que um ou outro treinador seja mais ousado. A razão é simples: material humano. O material humano é distinto aqui, acolá e alhures. E não há tantos craques assim espalhados pelo planeta, desafortunadamente. A mim me basta que, daqui a alguns meses, 95% dos craques estarão aqui, ainda que os esquemas não sejam os sonhados.

Carles: Não, não acho mesmo. Torço, o que já condiciona meu ponto de vista. Provavelmente, a contrarreforma chegará rapidinho e voltaremos a ver muito time sendo campeão à base de futebol mesquinho e especulador. E aí muita, mas muita gente vai concordar e acreditar que essa é a panaceia. Garanto a você que eu não estarei nesse grupo. Isso não impede que o futebol aprenda a defender sem ter que abrir mão de uma filosofia ofensiva, como faz o basquete (sei que são determinantes as dimensões dos campos). O Barça não estabeleceu cátedra, não, mas consciente ou inconscientemente, mostrou que é possível aprender, que nada é definitivo. O grande mérito de Pep foi trazer lições de outros esportes. Na questão de se não se tem o mesmo material humano disponível nas praias de Santos ou nas ruas de Dublin, consideremos a globalização como fator determinante das exigências. Se por um lado é uma imposição de valores, por outro, é um processo que nos põe diante dos olhos tanto num jogo do Calcio, ou da Premier ou do ‘torneo Clausura’. Para resumir, esta é uma Copa do Mundo esperada com muita ansiedade e não precisamente pelos resultados, mas principalmente pela promessa de muito talento e ambição ofensiva.

 

 

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