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Uma Liga que ninguém quer e tensão pré-Lisboa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

11 de maio de 2014 | 17h54

Carles: A um mês do inicio da Copa, os sul-americanos Pellegrini, Luis Suárez e Simeone (e em outra ordem de coisas, também o Tata) são os principais protagonistas das duas retas finais dos campeonatos mais seguidas e emocionantes do planeta futebol. E tudo isso no coração da Europa. Premonitório?

Edu: Sul-americanos no topo? Não acho que seja o caso. Simeone montou um time europeu até a raiz e Pellegrini está há tanto tempo por aí que já se tornou um treinador universal. Suárez talvez seja um representante autêntico do Cone Sul, mas o fato de ter fracassado na reta final também comprova as teses sobre inconstância que perseguem o pessoal do lado de cá. Também temos Carlitos Tevez artilheiro e campeão na Itália e uma brigada sul-americana campeã na França. Mas não acho que signifique a vitória de um estilo ou uma antevisão da Copa. Talvez seja até o contrário, os sul-americanos é que estão cada vez mais europeus.

Carles: Sinal de inteligência do Cholo que, na verdade, montou um time argentino com recursos multinacionais que só a Europa pode dar. Por enquanto. Essa intensidade, essa pegada é muito de ‘bombonera’, inclusive esses trejeitos dele tão à Elis Regina, chamando a torcida para a ação, é muito dos seus vizinhos. Hoje por exemplo, em casa e contra o Málaga, faltou aquele que faz a diferença, o que às vezes faz do velho e bom rompedor, Diego Costa, outro sul-americano. Aliás faz tempo que o futebol argentino também não tem o típico centroavante, desde ‘el ángel’ Batistuta, porque Higuain não é o caso e Carlitos também é outra história. Agüero um pouco. O certo é que neste fim de liga, entre os ‘catenaccios’ dos que não querem cair e a falta de artilheiros nas equipes que pretendem levantar o troféu, vamos acabar tendo uma final ao gosto de todos.

Edu: Finais emocionais, ‘de infarto’ como vocês dizem, nas quais as virtudes são controlar os nervos e ter coração forte, mais do que ter imaginação. As retas decisivas da Premier e da Liga estão muito parecidas. O Liverpool com o título na mão, perdendo jogos bestas porque não soube acomodar os nervos, nem mesmo Gerrard, o capitão infeliz depois de dar um gol de graça ao Chelsea, há duas semanas, quando tudo estava pronto para a comemoração em Anfield. Aí, o City, que tem os jogadores mais experimentados e mais talentosos também, fez com cuidado sua parte, sem empolgar mas eficiente. Mas não o caso da Liga das Estrelas, o campeonato que ninguém quer ganhar, parece.

Carles: Parece que a taça da Liga pesa. E muito. Até o Tata já tinha se despedido literalmente na semana passada e teve que mudar rapidinho o discurso. E mais rápido ainda, chamar de volta o Neymar, que parecia já concentrado com a família Scolari. O Barça fez e segue fazendo tudo ao seu alcance e um pouco mais para não ganhar. Mas, aí, o comichão de uma final continental em Lisboa pareceu ter igualado as coisas por baixo, na parte alta da tabela. Agora, queira ou não, na segunda passagem fugaz de Gerado Martino por aqui, parece que vai levar um título na mala. Aliás, da outra vez, o time dele então, o Tenerife, também tirou o título de Madrid e mandou para a Ciudad Condal.

Edu: O mais preocupante é o que pode acontecer com esse brigador e energético Atlético de Madrid neste finzinho. O time sensação, que foi visto como uma mudança de parâmetros por enfrentar os gigantes com seus recursos parcos, não está sabendo resolver – talvez não esteja sabendo ser grande, como se temia. Enfrentou duas mangabas nas últimas rodadas e só conseguiu um pontinho, a muito custo. Do contrário a esta hora estaria comemorando na Fonte de Netuno, ali encostado no Museu do Prado, seu lugar cativo no centro da Madrid para fazer frente ao inimigo rico da Praça de Cibeles. O trabalho de Simeone corre o risco de entrar para a galeria dos felizes perdedores?

Carles: Sem querer justificar a aparente falta de ambição dos três que disputam a ponta, é preciso dizer que a tensão nestas rodadas fica a cargo dos de baixo, porque para eles um pontinho pode valer a permanência na Primeira; ou dos que estão no meio da tabela, na zona morna, como dizemos, porque dizem as más e também as boas línguas que ‘los maletines’ com pequenos incentivos adicionais pelas vitórias correm soltos nesta época. Não é à toa que os jogadores do Elche, do Málaga e também do Betis, que já está matematicamente rebaixado, provavelmente tiveram que sair todos, na maca, extenuados pelo esforço. Outra coisa também é que esses times têm menos jogadores nas principais seleções. Inacreditável o recente surto de contusões no músculo “blatter” das grandes estrelas.

Edu: Tudo isso explica, Carlão, mas não justifica. Malas pretas e brancas em finais de liga são epidemia mundial. E as contusões, bom, estava na cara que iam ocorrer. É que, neste ano, com a proximidade da Copa, fica mais evidente quem se poupa e quem se mata, mas as lesões são comuns em fim de temporadas árduas. Veja o Madrid, que ao que tudo indica não tem ninguém se poupando – porque o que interessa mesmo é La Decima, em Lisboa – e hoje está com meio time na UTI. Mais de meio time, porque Cristiano está lá. O que acontece, isso sim, é que as circunstâncias fazem crescer o medo de lesões, o que potencializa o impacto psicológico. No fim, todos sentem, quem está no topo ou quem está com a corda no pescoço. Caberia aos responsáveis técnicos e médicos preparar essa situação adequadamente.

Carles: Já falta pouco, passa logo. A perspectiva da Copa das Copas no horizonte faz aumentar o número de erros não forçados, como diria o titio Toni Nadal. Apesar de tudo, só sei que temos duas finais emocionantes pela frente, uma em Barcelona e outra em Lisboa, sem falar da de Turim, destinos nada desprezíveis, aliás. Depois disso, caminho a Curitiba.

 

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