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Uma salada de estilos e etnias no timaço belga

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de abril de 2014 | 21h12

Edu: Desde a criação da Comunidade Europeia, vocês devem ter se habituado a conviver com a crescente influência desse pequeno país de pouco mais de dez milhões de habitantes que ganhou, com a zona do euro, uma destacadíssima projeção política como um dos criadores do chamado ‘ideal comunitário’. A Bélgica, com sua monarquia liberal bem camaleônica e uma divisão no núcleo de governo que distribui poder a vários partidos, dos verdes aos socialdemocratas, tem tudo a ver com esse conjunto de interesses difusos que vem conduzindo, ou tentando conduzir, o continente. É um sintoma do que ocorre dentro do próprio país, historicamente dividido pelas comunidades definidas pelos três idiomas, o flamenco (grande maioria), o francês e, em menor escala, o alemão. É um pouco também do que acontece com o futebol belga, hoje uma salada de estilos, resultado de sua mistura de raças, influências e origens.

Carles: Engraçado que, quando o assunto é separatismo, fora da Europa costuma-se pensar nas ilhas britânicas ou no estado espanhol, quando na verdade um dos mais ativos focos de autodeterminação está justamente na província Brabante Flamenco, onde está incrustada a zona federal de Bruxelas. É como se os caciques europeístas tivessem utilizado a ironia para escolher uma boca do vulcão para colocar a sede política do seu projeto de estado europeu unificado. Na verdade, é uma forma um tanto dramatizada de apresentar as lutas regionalizadas que já estão bastante assimiladas e normalizadas, a não ser em casos com intervenção imperialista como do amigo Putin na Criméia. Li em algum lugar uma análise de que essa seleção multiétnica justamente desafiava a nação dividida que representa quando, na verdade, considero que ela justamente reafirma a grande variedade racial e cultural. Por isso talvez seja uma grande equipe por respeitar a diversidade e aproveitá-la muito bem.

Edu: Fui cutucar o espanhol, é nisso que dá… O fato de ser o primeiro país continental a incorporar os princípios da Revolução Industrial explica, aliás, uma ligação secular com as ilhas britânicas. Entre outras identificações, Bruxelas está muito mais próxima de Londres do que Paris, por exemplo. E de alguma forma também explica, por uma lógica afinidade geoeconômica, por que 80% dos titulares do melhor time de futebol que o país teve em todos os tempos jogam na Premier League (contando os reservas, são 55% do elenco que vem sendo convocado atuando no campeonato inglês). Claro, grande parte dos craques belgas trabalha a no máximo duas horas de casa, praticamente a defesa inteira – o goleiro Mignolet (Liverpool) os zagueiros Kompany (City), Vertonghen (Spurs), Varmaelen (Arsenal) -, os meio-campistas Chadli, Dembélé (ambos do Spurs) e Felaini (United) e os atacantes Miralas e Lukaku (ambos do Everton), Benteke (Aston Villa), além dos irmãos Hazard, o cracaço Eden e o mais novo, Thorgan (ambos do Chelsea).

Carles: Todos trabalham pertinho de casa porque não faltam voos que liguem qualquer capital europeia com Bruxelas para facilitar a trânsito de senhores austeros metidos em ternos cinza e gravatas vinho e senhoras em tailleur. Aliás, neste momento estamos nos preparando para uma renovação de parte dos deputados europeus através do voto. O certo é que justamente a província Flamenca, que praticamente coincide com o antigo estado de Flandres é uma zona culturalmente muito arraigada, mas forma uma zona de transição entre germânicos, neerlandeses e franceses. Sempre esteve sujeita a tentativas de unificação, a maioria por interesses externos. Já fez parte de um estado austríaco, compôs um pseudoestado chamado Estados Belgas Unidos, foi incorporada à Benelux e após a Segunda Guerra Mundial, o presidente estadunidense Roosevelt até planejou criar um estado unificado por lá, mas a coisa na prática não funcionou por oposição dos poderosos aliados europeus, o francês De Gaulle e o primeiro ministro britânico Winston Churchill, que pelo visto compreendiam melhor as idiossincrasias locais. Essas condições quase sempre provisórias de convivência e as tentativas de imposição externa é o que eu acho, acaba sempre fortalecendo o espírito independentista e faz aflorar a defesa dos valores e das culturas locais. E por falar em defesa, será que o meta belga vai ser mesmo Mignolet ou existe alguma chance para o já quase madrileño Courtois, em grande fase?

Edu: Essa dúvida seguirá até a Copa. Tanto Mignolet quanto Courtois honram a tradição que começou com autênticas lendas como Jean-Marie Pfaf, um dos líderes da melhor campanha da Bélgica em Mundiais (quarto lugar em 1986), e o incrível Michel Preud’homme, um goleiro de 1m79 que primava pela boa colocação e pela elasticidade e que chegou a jogar com o atual técnico, Marc Wilmots, na Copa de 1994. O fato é que, por um lado, a Bélgica será um dos times mais badalados da Copa, não tenha dúvida. Eden Hazard, sem medo de errar, é um dos top 10 do Mundial, mas terá que fazer jus à fama. Kompany é um zagueiro desejado por meia elite europeia (Barça e PSG inclusive) e os dois goleiros estão entre os mais cobiçados do continente. Por outro lado, porém, será também uma das seleções mais visadas pela mídia e pelos adversários, o que pode gerar uma pressão externa com consequências imprevisíveis para um grupo de jogadores relativamente jovem, que têm a missão de colocar o país no jet set internacional do futebol.

Carles: Não esqueçamos de que os belgas também foram vítimas do virus pré-copa e este mês perderam um dos atacantes habituais nas convocações de Wilmots, Christian Benteke, que sofreu ruptura do tendão de Aquiles durante um treino do seu clube, o Aston Villa. Provavelmente isso define o jovem Lukaku, que muitos consideram o novo Drogba, como titular absoluto no dia 17 no novo Mineirão contra a Argélia. Depois, o confronto teoricamente mais equilibrado do grupo contra os russos no Maracanã e, por último, contra os sul-coreanos, em São Paulo. Temos mais Bélgica como mínimo na fase seguinte, não?

Edu: Desde que chegue com os pés no chão. Dona da melhor campanha da Europa nas Eliminatórias, fez uma sequência de amistosos bastante ruim depois da classificação, incluindo um baile dado pelos colombianos, sob o comando de Radamel Falcao, em plena Bruxelas (0 a 2). Mas o planejamento dos belgas foi facilitado pelo sorteio das chaves. Além de participar de um grupo bastante tranquilo, o time vai passar toda a primeira fase no Sudeste, com viagens curtas. Para tanto, o país escolheu um local privilegiado, um resort na cidade de Mogi das Cruzes, a caminho do litoral paulista, com clima bastante ameno já que se trata de região serrana, a pouco mais de uma hora do aeroporto de Guarulhos e com infraestrutura invejável. Talvez seja um dos times que chegue mais desgastado à Copa, em função das exigências a que seus principais jogadores estão submetidos nos grandes campeonatos, mas, em sã consciência, hoje ninguém pode deixar de colocar a Bélgica entre as oito principais seleções que estarão no Brasil.

Carles: No famosos ranking Fifa, segundo a classificação do mês de abril, os belgas ocupam o 12º lugar, enquanto seus rivais diretos são 19º, Rússia; 25º, Argélia e Coréia do Sul, 60º. Uma honrosa colocação para quem está mais acostumado a frequentar os primeiros postos no ranking de produtores de chocolate, tal e como no simpático filme franco-belga ‘Românticos Anônimos’ em que o casal de tímidos patológicos só consegue se aproximar um do outro através da produção de chocolate criativo. Nada como saber rir de si mesmos para espantar as visões estereotipadas.

 

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