As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vacilo do Galo e Ronaldinho ausente

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de julho de 2013 | 07h50

Carles: Bom, a primeira coisa, tive que esfregar os olhos quando eu vi no calendário, duas partidas decisivas de torneios diferentes, ambos na jurisdição da Confederação Sul-americana de Futebol, marcadas para o mesmo dia e hora. Perde-se todo o direito de reclamar da arbitrariedade das datas Fifa, alegando que se favorece outras federações continentais.

Mas vamos ao que interessa, os jogos. Primeiro, o que aconteceu no Defensores del Chaco? A coisa complicou-se bastante para o Galo, não?

Edu: O Atlético sabia o que o esperava, conhecia as limitações do Olimpia e a dependência que time paraguaio tem da torcida, a necessidade de ver o time pegar fogo no grito. Com isso bem claro e estudado, o Galo fez um começo de jogo muito inteligente, tomando a iniciativa e em certos momentos calando o Defensores Del Chaco. Mas faltou ambição, concentração e principalmente liderança dentro de campo. O time brasileiro praticamente deu um gol de presente justo no momento em que os paraguaios estavam inseguros, desconfiados.

Carles: Aí a história mudou completamente…

Edu: Claro, com esse gol, o estádio cresceu, o time mineiro perdeu o controle dos nervos e, também em razão disso, desestruturou-se taticamente. O Galo já tem um esquema difícil, com muita dependência do Gaúcho na área de criação e normalmente há um vazio no meio de campo, que tem dois volantes extremamente conservadores e alguma variação apenas quando Tardelli vem buscar o jogo. Como Bernard estava fora, suspenso, havia uma série de buracos entre a intermediária e o único atacante real nesse jogo, Jô, perdido entre três zagueiros. Novamente faltou liderança e o desajuste tático comprometeu todo o rendimento. Ronaldinho esteve ausente, apático, um fiasco. Nada que me deixasse surpreso.

Para comprovar que o Olimpia não era tudo isso, bastou um pouco de toque, bola no chão, algo mais de ousadia para o Atlético dominar o jogo em grande parte do segundo tempo. Mais ainda quando Cuca foi corajoso e disse: ‘Chega de Ronaldinho’. Substituiu o Gaúcho, reforçou o meio de campo e chegou a merecer o empate.

Carles: É aquela história que tínhamos comentado nesta semana da necessidade de ser ‘cascudo’ na Libertadores.

Edu: É fundamental saber se comportar na adversidade, com as arbitragens condescendentes e os exageros fora de campo. Até pedras foram atiradas no gramado, sem nenhuma consequência aparente a não ser para o próprio Atlético. Por falta de concentração, o time vacilou no último lance e tomou um segundo gol. Não vejo que as coisas estejam perdidas porque o Galo já provou reiteradas vezes que sabe reverter e justificar o grito criado por sua torcida, ‘Eu acredito!’.

Carles: Mas o Olimpia  não é o Newel’s…

Edu: Não mesmo, é pior, o que, neste caso, não é bom negócio. Vai jogar fechado, batendo, mesquinho em seu campo. Será complicado.

Carles: Temo que não vai ser nada fácil para o time brasileiro. Deu tempo de acompanhar a consagração da temporada de “Pep” Tite? À base de controle remoto, imagino…

Edu: Não tinha outro jeito. Enquanto o Galo passava por seu particular calvário paraguaio, no Pacaembu, mais do mesmo. O São Paulo entrou numa perigosa espiral aparentemente sem saída com o atual elenco, porque seu material humano não rende, não há química possível à vista e a insegurança afeta até jogadores como o velho Lúcio de tantas batalhas vencidas na Europa. O placar somado dos dois jogos da Recopa Sul-Americana diz tudo: 4 a 1 para o Corinthians. De um lado, um time que sabe o que pode, capaz de reagir com nexo quando as coisas não andam bem e que tem hoje uma segurança própria dos espíritos leves, que, por sinal, também sabem enfrentar as derrotas – além de ter jogadores decisivos como Danilo, Shiek, Guerrero. Do outro, um grupo claramente dividido, sem alma, sem munição. Autuori terá muito trabalho.

Carles: Engraçado que ao ver as escalações, o torcedor que está na Europa pode achar o time que foi de certa forma humilhado nestas finais, até por uma certa passividade, um time respeitável. No papel e com nomes como Rogério Ceni, e outros que tiveram trajetórias europeias de certo êxito como Lúcio, Denílson ou Luís Fabiano. Porém na prática, parece que a reformulação no São Paulo é inevitável e tudo em meio ao Brasileirão. Um mau resultado pode comprometer totalmente a seguinte temporada.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: