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Vale-tudo nos bastidores às vésperas da decisão

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de maio de 2014 | 20h16

Carles: Neymar põe os pés no gramado do Camp Nou às 18 horas do próximo sábado?

Edu: Para jogar, não. Talvez fique no banco, uma encenação básica. Por mais que o Barça esteja em um momento delicado, seria uma irresponsabilidade geral fazer entrar numa decisão alguém que não treina duro há mais de três semanas. Neymar não ajudaria em nada.

Carles: Pressão psicológica sobre as linhas inimigas, então? Efeito ‘Cid el campeador’? Ou será que o Tata pensou “se a coisa apertar, recorro a todas as forças disponíveis”? E se ele estiver no banco, pergunto: é uma forma de apaziguar as pressões para não jogar – da CBF, a instituição  mais afim com Rosell e correligionários via marca esportiva? Ou, por outro lado, para que o maior investimento da temporada esteja pelo menos à disposição para os 90 minutos mais decisivos da gestão desses mesmos senhores?

Edu: Essa pressão me parece inútil, Carlão, porque, se ele estivesse bem, certamente jogaria, mesmo se Dona Dilma se manifestasse pessoalmente. É claro que a pequena dor que ele sentiu na movimentação que fez ontem veio a calhar, bastante suspeita, não se tratasse de Neymar, um fominha inveterado. Mas o que confirma a encenação é que Felipão bradou que é totalmente a favor de que ele entre em campo, veja você. As pressões e jogos de cena numa situação dessas são quase um vale-tudo. Ou você vai me dizer que é coincidência a despedida de Carles Puyol à falta de 48 horas para a decisão, numa cerimônia cheia de mensagens emotivas e apelos ao orgulho do clube?

Carles: Exato! Esse é o verdadeiro efeito ‘Cid el campeador’, aliás o guerreiro que cavalga comandando as hordas culés, mesmo depois de… aposentado, combina mais ‘amb el capità’. Com o discurso emotivo do meu primo Xavi Hernández que quase levou a rocha Puyi às lágrimas, fechando linhas em torno à causa. Mas, claro, para isso é importante a presença de todos, sábado, no Camp Nou. Pelo menos os que pretendem estar no projeto que começa depois da Copa. E como o Celta joga pertinho, em Valencia, às 22h, com um pequeno esforço, até daria para o Luis Enrique estar escondidinho num canto… E, do outro lado, seguramente Miranda e Filipe Luis jogam. Estão entre os 30, mas se não forem ao Brasil, nem Felipão, nem CBF vão perder o sono, né?

Edu: Quem pode ter prejuízo é La Roja com Diego Costa pela metade, mas esse não perde essa decisão nem sob ameaça de fuzilamento. A imprensa de Madrid também está fazendo a parte dela. Normalmente os jornais são econômicos com o Atlético, porque derramam centenas de parágrafos para o primo rico e esquecem a moçada do sul da cidade. Desta vez, não. Você deve ter visto a reportagem demolidora sobre os métodos de Tata Martino, segundo a qual alguns medalhões do elenco teriam dito que os treinamentos do staff do argentino são um desastre para um time que estava acostumado com a intensidade de Guardiola e Tito Vilanova. Para surgir uma conversa dessas às vésperas do jogo do ano, à toa é que não é.

Carles: As redações dos jornais esportivos de Madrid, em ano que não é bissexto futebolístico como o corrente, estão divididas em uma parte ruidosa e gozadora merengue e uma minoria diminuída e humilhada vestindo rojiblanco. Nem é uma questão de quantidade, mas de ocupação dos postos chaves – as chefias de redação são normalmente do Madrid e, inclusive, costumam se alternar no cargo de chefes de comunicação do clube. É só conferir nos anais do clube e dos jornais. Não é o que tem acontecido nestes tempos e não porque os dominadores estejam calados, mas porque, à falta de possibilidades próprias, a porção madridista somou-se ao ataque sistemático ao inimigo do norte – norte do país, entenda-se -. Isso, até o sábado, porque depois, tudo volta à luta fratricida, a caminho de Lisboa. A pergunta é se uma vitória do Atlético na Liga seria uma vantagem real para o vizinho adversário na final da Champions.

Edu: Para o Real Madrid, um possível título rojiblanco é o pior que pode acontecer. A conquista depois de tantos anos vai tirar um peso das costas do Atlético, que chegará leve e solto a Lisboa, moralmente turbinado e pronto para derrubar outro gigante. Uma derrota para o Barça, por outro lado, joga a pressão sobre Cholo Simeone e sua rapaziada, que se sentirão obrigados a não deixar que uma temporada brilhante destas termine sem um título. Se bem que, no fundo, o mais pressionado sempre será o Real Madrid – pelo que representa, pelo que seus dirigentes propagam e pelo que gasta. De uma coisa não tenho dúvida: Simeone deve ter condicionado de tal forma os jogadores que, nesta semana, palavras como Champions e Lisboa sequer foram pronunciadas pelos lados de Manzanares.

Carles: Eu já acho que o Cholo assinaria agora mesmo, ganhar a Liga, mesmo perdendo a Champions, porque o torneio local é o prato trivial, um bom chuletón, digamos, capaz de alimentar um projeto de futuro imediato. A Champions é a iguaria estrela do El Bulli, para poucos, e por isso é o sonho da noite de verão, primavera neste caso, de Florentino Pérez. Tem mais, se o Atleti ganhar ou empatar sábado, vai relaxar, satisfeito com a sensação do dever cumprido e isso pode fazer baixar a tensão e favorecer o vizinho. Agora, de uma coisa eu tenho certeza, se forem campeões neste fim de semana, que ninguém se atreva a falar em celebração ao Simeone. A resposta pode ser bem atravessada.

Edu: Cholo deve estar apostando em um pequeno detalhe: para ganhar, o Barça terá que jogar bola, muita bola, algo que está em falta por lá. Seria bacana de ver o Camp Nou aplaudindo, com diplomacia, os primos pobres campeões. Funcionaria como uma vitamina para o futebol espanhol.

Carles: Vou torcer contra esse resultado, mas, se não tiver jeito, também aplaudo.

 

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