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Viagem virtual ao Eldorado alemão

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

13 de fevereiro de 2014 | 21h51

Carles: O jornal alemão Sport Bild filtrou os salários do poderoso Bayern de Munique e entre outras coisas, deu para perceber que Boateng ganha quase o dobro que Dante. Injusto?

Edu: Demais, porque Dante vive apagando os incêndios que Boateng provoca. Não que seja um zagueiro infalível, ao contrário, mas Dante tem muitos atributos que Pep Guardiola preza muito. Você sabe bem quais são.

Carles: Sei, estamos de acordo que é um jogador que pode ser muito bem aproveitado, é habilidoso, sobe muito bem de cabeça, até tem armado o time com passes longos quando jogam dois cabeças de área – Lahm e Javi Martinez. Apesar de tudo, ele ainda carrega a fama de “falhão”, cada vez menos, mas faça a fama…

Edu: Pelo Sport Bild, Boateng ganha 6 milhões de euros e Rafinha, veja só, 5 milhões, enquanto Dante fica nos 3,5 milhões. É desproporcional, além de injusto, porque é preciso levar em conta a folha corrida, os serviços prestados ao longo da carreira, apesar de Dante ter 30 anos e Boateng, 25.

Carles: Temos que considerar que Boateng tem contrato até 2018 e Dante até 2016, portanto vai renovar antes… se renovar, ele vai estar com 32.

Edu: De todo jeito, os salários do Bayern mostram um patamar que o futebol alemão nunca teve na história – 12 milhões para Ribéry e  Götze, 10 milhões para Lahm e Schweinsteiger. Quem mandou ser poderoso? Bem-vindo ao mercado real do futebol.

Carles: Olha, a Allianz acaba de renovar sua cota de participação como patrocinador-mecenas-investidor do Bayern e passa a ter oito por cento de participação no clube, junto com Audi e Adidas, os três maiores. Com isso, entre outras coisas, garante o direito de uso do seu nome no estádio do Bayern até 2041. Não acho que o clube bávaro tenha muito problema de caixa, inclusive para pagar 17 milhões de salários anuais a Guardiola, o melhor remunerado.

Edu: Mas aí vai criar – já criou – um problema bem mais grave que o da Liga das Estrelas. Na Bundesliga, é Bayern e só Bayern. A ponto de o time contratar em menos de um ano os dois principais jogadores do principal rival, o Dortmund: Götze e Lewandovski. Disputar o Campeonato Nacional é pouco mais que uma temporada de treinos para a Champions, tanto que o campeonato vai terminar provavelmente em março. É muito difícil que essa situação se sustente, por mais que os patrocinadores banquem, porque, no caso de um tombo na Champions, vai tudo pelo ralo. Como aconteceu com o United, um case dos mais significativos no futebol contemporâneo.

Carles: É um problema da filosofia empresarial, de monopólio, destruir o concorrente é sempre mais fácil que construir um mercado maior, mais distribuído e portanto mais duradouro. As políticas expansionistas que estão por trás de clubes como Bayern, Real Madrid, Barcelona ou United pensam que se a liga do bairro ficar pequena, sempre estará a da cidade e depois dela, a liga nacional e, melhor ainda, a liga continental ou quem sabe uma liga mundial, transmitida por uma rede global de TV e patrocinada por quatro empresas gigantescas.

Edu: É a sua velha tese da Liga Europeia que virá, só com os grandes. É possível, sim, mas acho que não a curto prazo. Seria uma negociação política feita sobre brasas, em ambiente tenso, porque os grandes da Itália ou de Portugal não estão no patamar, hoje, dos grandes de Alemanha, Espanha e Inglaterra. Sem contar os pequenos que não são pequenos – Roma, Atlético de Madrid, Lyon, Dortmund, Tottenham. É um nó muito complicado de desatar. Enquanto isso, modelos como o do Bayern fazem um sucesso que eu julgo como temporário/temerário, exatamente como o do United, que sentou sobre a fama de time mais popular do mundo e desde então acumula prejuízos financeiros siderais e resultados medíocres dentro de campo. Não sei se o Bayern chegará a esse ponto, mas é claro que essa bonança toda é circunstancial, porque é assim que funciona o mundo do futebol.

Carles: Uma tese que eu abomino, que fique claro, e está muito relacionada com a essência do futebol-mercado. O Bayern, é bom lembrar, é administrado por uma empresa externa, criada pelo próprio clube, é verdade, e encabeçada por gente do clube. A distância estratégica, os defensores de métodos “modernos” de gestão dirão, é o mais profissional modelo que pode existir no futebol. Mas também se corre o risco de que esse afastamento esfrie a relação da entidade com o verdadeiro motivo de existência dela, o jogo jogado no campo. A possibilidade de perda desse elo é outro questão que esse senhores terão que pensar como resolver, mais cedo ou mais tarde. Bom, eu também não descartaria considerar o Bayern um clube biônico, até faz pouco tempo um clube muito pequeno dentro do contexto alemão inclusive e que graças a operações de todos os naipes, foi projetado até a atual situação de poderio, enquanto destruía ou enfraquecia os adversários, pelo caminho.

Edu: Então, você concorda que é uma questão de pagar para ver – e eles estão pagando. Essa estratégia de enfraquecer os inimigos para ostentar poder por longos períodos, por exemplo, tem dentro do futebol um outro ingrediente: perde a graça. E, insisto, ninguém vai segurar quando vier o primeiro vexame, uma desclassificação no mata-mata com um gol contra, um pênalti casual, uma jogada genial de Messi. Aí vamos ver quem paga a conta.

Carles: Admiro sua confiança nos fatores imponderáveis desse esporte. Eu sempre duvido que a moeda vá cair em pé quando tem todas as probabilidades de cair numa das duas faces, mas pode até acontecer. Uma “vantagem” que o também abominável homenzinho, dono do circo da Fórmula 1, tem sobre os todo-poderosos do futebol para manter o interesse sobre a competição, é que ele faz e desfaz, a ponto de estabelecer um teto para o orçamento de todas as equipes quando achou necessário equilibrar as forças. Da minha parte, continuo acreditando que existe vida mais além da ditadura do Bernie ou da tal livre iniciativa – que só tem liberdade no nome.

Edu: Nesse caso, nenhuma moeda cai em pé, não, você se engana. É a lei do jogo. E essa é implacável. Quando estivermos um dia indo ao estádio com nossos netos vou fazer questão de lembrar do ‘caso Bayern’.

Carles: Que os meninos se apressem, então.

 

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