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Vida dura para Neymar com o novo chefe no Barça

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de maio de 2014 | 18h24

Edu: Com Luis Enrique, um conhecedor como poucos das entranhas do Camp Nou e, pelo que sabemos, disposto a uma profunda renovação, o que será do Barça? Ou melhor ainda: o que será de Neymar?

Carles: Entendo que a renovação “profunda” é uma encomenda da diretoria que necessita um lavado de cara urgente. A mudança profunda (ou ruptura com o passado recente) na verdade, já aconteceu, inclusive com a contratação de um treinador, o Tata, que não só não tinha conhecimento das entranhas do Braça, como desconhecia completamente o futebol europeu.

Edu: Então conclui-se que o fato de conhecer as entranhas, porque foi técnico da base, é essencial para Luis Enrique. Sendo assim, será que a renovação não será apenas de nomes, uma vez que a filosofia continuará inalterada? Vamos ver um Barça do Guardiola remasterizado?

Carles: Pessoalmente, não acredito. Luis Enrique, como treinador, parece-me mais uma tentativa de ser. Não acho necessário conhecer as entranhas do clube, mas não deixa de ser uma carta de intenções, uma tentativa desesperada de corrigir o erro de trazer um sujeito desde o outro lado do oceano e dizer algo assim como: “Vire-se, caro desconhecido! Nesta cadeira sentaram-se algumas pessoas queridas pela comunidade que, além disso, conquistaram tudo ou 90% do que disputaram”. Lógico que Rosell e Bartomeu sabem o risco que correm trazendo um treinador que fez um bom trabalho de continuidade ao de Pep no Barça B, depois um papel mais do que sofrível na Roma e trabalhou direitinho no Celta, ali pertinho da casa dele, com gente do norte, como ele. Mas na falta do original, Luis Enrique é a fotocópia mais parecida. Vale o risco para ganhar um pouco de fôlego? São eles que têm o poder de decidir e, numa dessas, dá até certo.

Edu: Então me esclareça a dúvida inicial. Parece que o asturiano Luis Enrique é propenso a se dedicar à formação de jovens e faz uma aposta explícita por jogadores habilidosos, como os dois que ele trará de volta ao Barça, Deulofeu, que estava no Everton, e o brasileiro Rafinha, irmão mais novo de Thiago Alcântara. Isso conta pontos para Neymar?

Carles: Rafinha, Deulofeu, ou ainda Nolito e Fontàs, que ele levou para o Celta, são os meninos que ele treinou no Barça B. Os dois primeiros fizeram uma muito boa temporada. O caçula dos Alcântara transformou-se na essência do time de Vigo e deve retornar a casa junto com o mentor. Neymar é um desconhecido para Luis Enrique, que representa o protótipo do treinador híbrido, moderno, mas que mantêm a rigidez dos velhos sargentos, modulado pelas novas teorias de gestão de grupos humanos. Nisso, sejamos justos, ele segue à risca o modelo Guardiola. No caso de Neymar, Zé, penso que tudo depende dele próprio, da atitude e principalmente do futebol. Luis Enrique não é tonto, sabe que o futuro dele no Barça e na profissão depende do rendimento do time, da capacidade de decisão dos principais jogadores. Mas o mais provável é que ele tenha um plano B, o seguro, baseado nas ex promessas do time filial que ele conhece bem e dos que sabe tirar o máximo rendimento.

Edu: Bom, imagino que essa opção pelos peixinhos que ele conhece bem será gradual. Não acredito que, sem mais nem menos, ele vai sacar um figurão para escalar Deulofeu e Rafinha como titulares desde o início da temporada. Aliás, pode ser um problema a relação que ele tem com os mais antigos, com quem chegou a jogar inclusive, como é o caso de Xavi. O que será de Xavi, uma instituição culé, no contexto de Luis Enrique? Ele pretende sugar mais um par de temporadas do jogador que já está numa fase bastante irregular fisicamente, aos 34 anos? Me parece um primeiro problema sério, mais político do que técnico, que o novo treinador terá.

Carles: A chegada de Luis Enrique, se der os mínimos resultados esperados, deve ser o definitivo “efeito Giggs” para o meu primo Xavi. Mesmo que ele não se preste a isso, as grandes instituições esportivas europeias vivem desses mitos ambulantes. Eles são a história que desfila orgulhosa em meio às derrotas, que consola e lembra aos sócios e massa torcedora de onde vieram e para onde vãos os valores do clube. Reconheçamos que o Madrid sabe muito bem lidar com isso, talvez até porque a imagem deles é mais global do que o Barça, este, muito mais local, se bem que com cada vez mais repercussão e compromisso  global. É uma contradição mas é evidente, visível, por exemplo, na difícil convivência de alguns setores do clube com o maior dos mitos vivos blaugranas, Johan Cruyff.

Edu: Se me permite um palpite, totalmente baseado no feeling e nas cartilhas clássicas do futebol, porque não conheço as figuras envolvidas, acho que Luis Enrique, a partir de fim de julho quando começar a temporada, já terá metade dos problemas resolvidos pela direção, em parceria com a própria torcida. Muitos jogadores estão previamente condenados, alguns deles também instituições locais como Cesc e Pedro, que não é catalão mas é como se fosse. Aí restará ao asturiano e sua turma enfrentar essas questões pontuais, como a de Xavi, fazer os garotos decolarem e, principalmente, fazer Messi voltar a jogar, o que não é pouco. Quanto a Neymar, o que sabemos pelos brasileiros da Roma é que terá que trabalhar duro, duríssimo, em função justamente desses métodos militares do camarada Luis Enrique que você ressaltou. Se bem que Neymar nunca foi preguiçoso, adora treinar, e, cá entre nós, tinha uma certa vida mansa com Tata, como todo elenco do Barça.

Carles: Pois é, eu ouvi que os métodos de treinamento do Tata foram considerados literalmente arcaicos, antigos e ultrapassados. E eu acredito nisso porque ele nem teve tempo nem preocupação para se adaptar. E pode ter queimado definitivamente seu futuro fora da Argentina por total desconhecimento do que esperava por ele. Às vezes fico pensando na validade dessa política dos treinadores exigirem ser contratados junto com a sua equipe de confiança. É verdade que na maioria dos casos é mais fácil trabalhar com quem já se está acostumado, mas se, por exemplo, Gerardo Martino tivesse pesquisado e pedido um par de assessores locais, não necessariamente consagrados, especializados em preparação física motivacional, estratégias defensivas e coisas assim, quem sabe ele não pudesse ter aplicado a sua cartilha do bom jogo, do tique-taca rosarino para o que ele foi contratado.

Edu: Bom, na maior parte do tempo ele ficou apagando incêndios externos, o que justifica em grande parte seu fracasso em campo. É um panorama que qualquer sujeito que sonhar em treinar o Barcelona deve ponderar antes de dizer ‘lógico que aceito’. Vale também para os jogadores e acho, sinceramente, que Neymar se inteirou de um pouco disso nestes dez meses. Talvez ele possa até dar uma força a quem vem por aí, talvez David Luiz, ou Marquinhos. Ou até mesmo Thiago Silva.

Carles: Aposto no primeiro.

 

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