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Alemanha não é exemplo para o futebol brasileiro neste momento

Além de um protocolo muito rígido, futebol alemão volta porque pico da pandemia já passou no país; aqui, nem chegou

Almir Leite

07 de maio de 2020 | 13h37

A Alemanha decidiu retomar as partidas de futebol no próximo dia 16. No Brasil, os jogadores estão voltando timidamente aos treinamentos  e os dirigentes gostariam ver seus times em ação ainda neste mês. O principal motivo para a volta do futebol alemão é o mesmo que leva os cartolas daqui  a querer que isso também aconteça no Brasil: o dinheiro. Mas, neste momento, este é o único ponto em comum entre os dois países. Para por aí.

O futebol está voltando na Alemanha, entre outros motivos, porque o país está em estágio diferente da pandemia do novo coronavírus.

Lá, o pico chegou antes e já passou, embora ainda exista risco. Aqui, ainda não chegou.

Lá,  o problema foi tratado com eficiência pelas autoridades, que não brigaram com a realidade e fizeram o que tinha de ser feito, o que comprovadamente resultou em número menor de contaminações e de mortos. Sem contar a qualidade dos serviços de saúde. “Podemos voltar a jogar porque temos a sorte de viver em um país que tem um dos sistemas sanitários mais modernos do mundo”, reconheceu o diretor executivo da Bundesliga, Christian Seifert.

Aqui, não se tem essa sorte. Além das deficiências de há muito conhecidas do nosso sistema de saúde, aquele que deveria ser nosso “comandante supremo”  continua a viver em seu próprio mundo, a trafegar na contramão na estrada e a insistir na volta do futebol  – que sequer teria parado se dependesse de sua vontade “suprema”.

Sem contar que os jogos do futebol alemão não se limitarão aos portões fechados, como manda o bom senso para este momento. O protocolo de lá não tem cafezinho, mas passa por itens como confinamento de uma semana antes do primeiro jogo para todos os elencos; testes de covid-19 duas vezes por semana; instrução para que, no dia do jogo, jogadores, membros da comissão técnica e demais envolvidos do time da casa usem o próprio carro para ir ao estádio; que a delegação visitante vá ao jogo em vários ônibus para observar distância segura entre as pessoas; providências dos clubes e das forças de segurança para que não ocorram aglomerações fora do estádio e em pontos como bares e sedes de torcidas…

Enfim, é um protocolo complexo, que pode servir como base para o futebol brasileiro no futuro ou, se não tanto, fornecer itens que poderão ser acrescentados aos guias que estão sendo desenvolvidos por aqui.

O futebol volta na Alemanha porque, economicamente, não pode ficar parado. As 36 equipes das duas primeiras divisões são responsáveis pela subsistência de 56 mil pessoas e, para os clubes, voltar a campo significa ter acesso a 300 milhões de euros que estão congelados em cotas de TV, patrocínios e outros negócios. Seifert, o diretor da Bundesliga, admitiu que, sem futebol por muito tempo, várias equipes menores poderiam fechar.

O risco existe por aqui também, até com clubes grandes. Mas, por outro lado, se eles sobreviveram várias vezes a administrações nefastas e irresponsáveis – o que faz com estejam quase todos mal das pernas – que se virem agora. Que esperem. O que não se pode admitir é que coloquem em risco jogadores, membros de comissão técnica e os funcionários que restaram (muitos deles já saíram demitindo) porque não têm capacidade de administrar seus clubes.

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