“Bota ponta, Telê!” Pare de chamar ponta de externo, Tite!
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“Bota ponta, Telê!” Pare de chamar ponta de externo, Tite!

Um dos grandes ensinamento que Jô Soares nos deixa é a importância da simplicidade, da linguagem de fácil compreensão. Técnico da seleção deveria se mirar no Zé da Galera

Almir Leite

05 de agosto de 2022 | 16h28

O bordão, por ocasião da Copa do Mundo de 1982, ficou famoso. “Bota ponta, Telê!”, reclamava o Zé da Galera porque o treinador daquela seleção brasileira que ganhou a admiração do mundo – mas não levou o título -, colocava ora o meia Paulo Isidoro, ora armador Dirceu, ora outro jogador, no lugar que seria do ponta-direita.

É inesquecível. Até mesmo muitos do que sequer haviam nascido naquela época conhecem o bordão.  Pegou. Ironia do destino, a seleção maravilhou o planeta com um quarteto no meio-campo (Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico), não necessariamente um quadrado, e apenas um ponta, o esquerda, Éder.

Não foi por falta de ponta-direita que o Brasil não ganhou a Copa. Mas a forma como Jô construiu e desenvolveu o Zé da Galera para cornetar um técnico que admirava profundamente pela maneira como enxergava o futebol – e porque ambos tinham o mesmo amor, o Fluminense -, tornou o personagem eterno.

Jô Soares eternizou o Zé da Galera com linguagem simples e criativa

Para além do personagem, um dos mais de 300 que criou, Jô Soares sabia do que falava. Conhecia futebol, acompanhou Copas do Mundo in loco, frequentava estádios. Tinha rara inteligência – é daqueles seres humanos que, quando nasce, Deus vem e coloca o carimbo de gênio – e sensibilidade.

Jô brilhou em tudo o que se propôs a fazer – ou quase tudo, posto que ao guiar motos várias vezes fez a alegria do asfalto. Talvez o fato de saber perceber as mudanças por que passavam o Brasil e/ou o mundo – de costumes, na política, economia, no esporte… -, mas ter sempre a consciência de que há coisas que não mudam o tenha ajudado a brilhar.

Jô resistia a dar as costas para a tradição. Não engolia, nem aceitava, mudanças que não mudam nada. São inúteis. São forçadas por quem quer deixar uma marca, mas não sabe qual marca vale a pena deixar.

Jô não tinha esse problema. 

Por isso, da mesma maneira que nos últimos anos renunciava a assistir um jogo do Fluminense se ao mesmo momento estivesse passando um outro mais atrativo, com perspectiva de melhor futebol, ele não aceitava o uso de termos bobos, inúteis. Termos que desrespeitam a essência do futebol.

Não me lembro de tê-lo visto reclamando do uso de expressões “modernosas” no futebol. Mas tenho certeza de que fechava a cara ao ouvir coisas como “performar com resultado”, “último terço”, “extremos desequilibrantes”. Parece coisa de quem quer tapear os outros.

E externo, então? Será que um bordão “bota externo, Telê!” pegaria, faria sucesso?  

Acho que não, pois externo nada mais é do que ponta. Então, devemos chamar Raphinha, Vinícius Júnior e vários outros mais pelo que eles são para além de suas funções e obrigações táticas: pontas.