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Brasil vai da sala ao porão na Conmebol

Almir Leite

27 de janeiro de 2016 | 11h16

Aquilo que já se sabia com base na observação dos fatos tornou-se oficial no final da manhã desta terça-feira: o prestígio do futebol brasileiro está bem perto do chão no âmbito da Conmebol.  A eleição do paraguaio Alejandro Dominguez à presidência da entidade deixou isso bem claro. Não pela chegada do dirigente ligado ao clube Olimpia ao poder. Mas porque não há mais cartolas brasileiros ocupando cargos-chave na diretoria da organização que cuida do futebol na América do Sul. Na real, o Brasil não apita mais nada.

Se não, vejamos: os vices de Dominguez são da Colômbia (Ramon Jesurún) e da Venezuela (Laureano González). Há uma vice-presidência vaga, mas o lugar já está destinado a um boliviano – que substituirá outro boliviano.

Mas o sinal de que o moral brasileiro está lá embaixo foi o poder dado ao argentino Luis Segura, aliás um cartola das antigas (se é que você entende este blogueiro).  Ele foi eleito para o Comitê Executivo da Fifa, na condição de representante sul-americano. Outro representante é o próprio Dominguez, na vaga deixada pelo hoje preso Juan Angel Napout – a quem Dominguez substitui na Conmebol, pois foi eleito para concluir o mandado de Napout, que iria até 2019.

Pode-se alegar que o Brasil tem um integrante no Comitê Executivo da Fifa, numa alusão a Fernando Sarney. Mas o filho do ex-presidente da República já estava no cargo, nomeado que foi por Marco Polo del Nero, o presidente licenciado da CBF.

Tivesse o Brasil cartolas de peso e ganharia lugar pelo menos nas vice-presidências. Mas hoje o País não tem. Exemplo disso foi que poucos cartolas sul-americanos conheciam até segunda-feira o atual presidente da CBF, o coronel Antonio Nunes. Diga-se que a recíproca é verdadeira, pois Nunes deixou claro em entrevistas que não sabia quem Alejandro Dominguez era. Isso apesar de ter votado nele – o paraguaio foi eleito por unanimidade, até porque foi candidato único, uma vez que o uruguaio Wilmar Valdez retirou sua candidatura.

Aí, vale notar alguns detalhes:

Nunes votou em Dominguez – amigo de Napout e do ex-presidente da Conmebol e igualmente enrascado com a Justiça Nicolas Leoz – porque Del Nero mandou. Votaria na Barbie se o presidente licenciado na CBF assim determinasse.

Segura ganhou prestígio e poder porque foi ele quem articulou a candidatura de Dominguez e depois a desistência de Valdez – que só teria o apoio de três das 10 federações do continente e passou a ser malvisto depois que, como presidente interino, começou a falar em modernização e em apuração de malfeitos. Por isso, o argentino vai parar na Fifa e também vai botar as cartas na mesa na  Conmebol, pois está colocando seus tentáculos na secretaria geral.

Não muito tempo atrás, a cartolagem abaixava a cabeça para Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero.  Sabe-se agora, por meio das denúncias, delações e investigações que esse “abaixar de cabeça’’ talvez não acontecesse por simples devoção ou respeito. Mas é fato que o Brasil tinha voz ativa na Conmebol e na Fifa, a ponto de em três eliminatórias seguidas a seleção fazer os dois últimos jogos contra Bolívia e Venezuela, ou seja, se estivesse precisando de pontos para ir a uma Copa, conseguiria sem problemas. Eram tempos em que o futebol brasileiro dava as cartas na Conmebol – e também na Fifa, a quem em última instância cabe definir a tabela das eliminatórias.

Hoje a situação é bem diferente e nada indica que o quadro mudará no curto prazo. No entanto, um outro dirigente brasileiro poderá, com o passar do tempo, crescer na Conmebol: Reinaldo Carneiro Bastos, atual presidente da Federação Paulista de Futebol.

Enquanto isso, o Brasil viverá na entidade sul-americana do coronel Nunes – Fernando Sarney dá seus pitacos, mas não anda disposto a se expor muito. Péssimo para o País e ótimo para o militar da reserva,  que como membro do Comitê Executivo (cargo que ocupa por ser o presidente interino da CBF) abocanhará US$ 20 mil mensais. Fora os R$ 180 mil que leva da CBF.