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Chamar o futebol carioca de várzea é desmerecer a várzea

Volta precipitada do Campeonato Carioca, para contentar o Flamengo, e risco de ações na Justiça dão a dimensão da bagunça

Almir Leite

17 de junho de 2020 | 15h37

O retorno precoce dos jogos do Campeonato Carioca porque o único clube do Estado que tem salutar condição financeira – pelo menos é isso que seus dirigentes vivem a dizer – assim o quer, é algo que preocupa. A covid-19 ainda faz alto número de vítimas por lá e, a rigor, segundo os especialistas, ainda é cedo para cravar que a curva de contaminação e mortes entrará na descendente.

Mas a pressão foi grande e a federação, que poderia buscar um consenso entre os filiados em momento tão grave, preferiu se unir a quem tem mais força.

Claro que os clubes pequenos, que praticamente só têm como renda o dinheiro da TV, que teve o repasse suspenso, estavam desesperados para voltar. Mas o que prevaleceu foi a vontade do Flamengo. O grande Vasco passa por uma fase de Maria vai com as outras (Eurico Miranda deve estar se revirando no título) e, com o pires na mão, não anda apitando nada.

O Flamengo, melhor clube do Brasil na atualidade e detentor da maior torcida desde sempre, tem o direito de defender a posição que considera melhor para o clube.

Mas, como lhe falta espírito coletivo e até sensibilidade diante do sofrimento representado pela pandemia, caberia à federação conter tal ímpeto.

Em vez disso, porém, a Ferj prefere ser intransigente com Botafogo e Fluminense – contrários à volta imediata e que nem treinando estavam -, a ponto de não abrir mão de fazê-los entrar em campo no próximo dia 22.

São “maus alunos” que não querem fazer a prova, definiu o presidente Rubens Lopes, que está no comando da Ferj desde 2006 e nunca foi protagonista de nada importante no futebol brasileiro.

É fato que o Fluminense, por exemplo, poderia ter feito os testes de covid-19 em seus atletas já há algum tempo – realizou na terça-feira.

No entanto, Tricolor e Botafogo não voltarem a treinar, ainda mais na confusão que se instalou no Rio com o “flexibiliza não flexibiliza” das medidas de restrição e com os números de covid na cidade, era compreensível.

(O Flamengo peitou a prefeitura e já voltou a treinar faz tempo, interpretando de maneira particular o decreto de restrição, mas isso é outra história.)

Compreensível para muitos, não para a Ferj (e os clubes aos quais ela se aliou), que manteve o pé na decisão de não permitir que Fluminense e Botafogo joguem apenas um julho.

Com isso, é possível, ou até provável, que o Campeonato Carioca vá parar na Justiça, o que poderia interromper a competição e fazer com que termine até bem depois de Estaduais que ainda nem têm data para retornar.

A confusão é tanta que o prefeito Marcelo Crivella, quem diria?, tem tentado atuar como moderador, pedindo para que Flu e Bota não sejam punidos com W.O. caso não entrem em campo segunda-feira. Fez isso após ver ignorada sua sugestão à federação para que estes clubes só retornassem ao campeonato em fevereiro.

Fluminense e Botafogo não são santos, também estão vendo seus interesses, mas neste momento de pandemia pelo menos agem com bom senso. Algo que falta ao resto.

É ou não uma bagunça? Uma várzea? Ops, várzea não! A várzea é muito, mas muito, mais organizada.

Resta torcer para que o protocolo que visa a garantir a saúde de atletas e demais envolvidos com os jogos funcione 100%. Mas não dá para esquecer que Flamengo, Vasco e Botafogo já tiveram jogadores infectados pelo novo coronavírus. E o risco continuará. Comnsequência da precipitação e  teimosia de cartolas inconsequentes.