As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em defesa de Muralha

Almir Leite

28 de setembro de 2017 | 17h49

Houve uma época no futebol em que se dizia que pênalti era loteria. Tremenda besteira, para não dizer burrice. Acabou-se “descobrindo” o óbvio.  Que pênalti requer preparação, treino e equilíbrio psicológico. Falo do ponto de vista do cobrador.

Mesmo porque houve um tempo em que o goleiro não tinha a menor responsabilidade no pênalti. Afinal, loteria ou não, a vantagem do atacante, com um golzão daquele tamanho a apenas 11 metros de distância, era enorme. Ou seja, se pegar um pênalti “tá” no lucro, vira herói.

O tempo passou e descobriu-se que, também para o goleiro, pênalti é treinamento, equilíbrio emocional, observação, estudo. E nos últimos tempos aumentou bastante a quantidade de pênaltis defendidos pelos goleiros.

Aí chegou Muralha. Goleiro mediano, capaz de fazer boas defesas e cometer falhas seguidas em num mesmo jogo. Capaz de irritar a torcida, das mais diversas classes sociais e das mais diversas profissões. Até porque, entre seus defeitos, não pega pênalti.

Bastou para entrarmos na era da existência de frango em pênalti, no mínimo de falha em pênalti.

E Muralha foi para a cruz. Até porque o Flamengo perdeu, nos pênaltis, um título que muita gente considerava ganho – sem levar em conta o adversário, o local da partida final, a má fase do craque do time, a irregularidade da equipe…

Mas Muralha cometeu o sacrilégio de pular sempre para o mesmo lado. E não pegou nenhum pênalti. Bastou para voltar a ser execrado, tido como culpado pela “perca” (a grafia é proposital) do título.

O fato de o jovem e promissor Thiago ter falhado no primeiro jogo ficou em segundo plano – e nem é o caso de crucificá-lo -, assim como o de o craque do time, Diego, ter cobrado bisonhamente o pênalti que transformou o ótimo goleiro do Cruzeiro, Fábio, em herói.

Muralha tornou-se o alvo principal das marretadas. O negócio foi jogá-lo para baixo, no chão. Derrubá-lo. Teve até matéria mostrando a quantidade de pênaltis que ele NÃO defendeu, para mostrar que se trata de um goleiro inútil.

E o pecado de ter pulado sempre para o mesmo lado? Tornou-se aberração. E poucos lembraram que um time como o Flamengo tem um treinador de goleiros que precisa ter a competência mínima de fazer com que os goleiros sejam “flexíveis” nas cobranças.

Sem contar que hoje até em time de várzea tem gente que faz levantamento sobre as características dos cobradores e as informa ao goleiro para que ele tenha maior chance de sucesso.  Será que o Flamengo não tem? Creio que tem, e que foi o preparador que, em comum acordo com Muralha, decidiu que ele deveria pular só para o lado direito.

Mas, na caça às bruxas, ou melhor ao bruxo, só Muralha está levando a culpa pela taça perdida. Claro que ele não está imune a críticas, e até faz muitas vezes por merecê-las. Na própria final, cometeu um erro ao soltar uma bola que quase resulta no gol de Arrascaeta – o que talvez não levasse a decisão para os pênaltis. Não merece, entretanto, ser o único vilão da história. Talvez nem vilão seja. Não por aquilo que o estão acusando.