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Entrevista de Edu Gaspar: Gilmar Rinaldi se manifesta

Almir Leite

13 Novembro 2017 | 21h51

Ex-coordenador de seleções da CBF por dois anos – assumiu depois da Copa de 2014 e ficou até junho 2016 -, Gilmar Rinaldi tem procurado manter silêncio desde então. Mas se manifestou em consequência da entrevista do atual coordenador, Edu Gaspar, ao Estado. Nela, Edu fala que a seleção precisava de um “choque de gestão” e que ele, Tite e sua equipe promoveram várias mudanças nos métodos de trabalho. Em e-mail enviado ao blog, Gilmar elogia o trabalho feito atualmente, mas pondera que boa parte do trabalho começou quando ele e o técnico Dunga estavam no comando.

Abaixo, o e-mail de Gilmar (e a entrevista de Edu pode ser acessada ao final):

“Boa tarde,

Gostaria de pontuar algumas coisas relativas à reportagem “A seleção precisava de um choque de gestão”, escrita pelo jornalista Andrei Netto e impressa no jornal Estado de São Paulo deste domingo (12/11).

Primeiramente, dizer que me alegra ver que atitudes tomadas previamente por um coletivo competente na CBF foram apontadas pelo atual coordenador técnico Edu Gaspar como o grande choque de gestão implantados após a minha saída. Dizer também que meu objetivo sempre foi montar uma estrutura moderna e duradoura, capaz de continuar dando suporte ao futebol brasileiro independentemente de quem estivesse responsável pela gestão.

Também gostaria de afirmar que continuo torcendo muito pela nossa seleção e pelos profissionais que lá estão, vários dos quais contratei justamente por acreditar em seus potenciais e capacidade de somar ao futebol brasileiro. Exemplos incluem Fábio Mahseredjian e Taffarel, que me causaram estranheza ao serem citados como “fato novo” na reportagem. Suas efetivações como empregados em tempo integral foram concluídas na atual gestão, mas os chamados iniciais e negociações para integração total começaram antes disso.

 

Acredito bastante no trabalho da empresa mencionada Ernst & Young, cujos serviços foram contratados pela direção da CBF logo no meu primeiro ano de gestão, para realizar justamente o organograma que abrange todos os departamentos e funcionários de seleções como citado na matéria, com planos salariais e esquematização completa e meritocracia sempre como base. Comemoro que tenha sido um ponto de aproveitamento para a gestão atual e espero esperançosamente que siga sendo também para as próximas.

Nesta mesma linha, creio ser essencial que a atual e as futuras gestões possam usufruir também das “ferramentas mais modernas do mundo” e um centro de inteligência no patamar que a CBF e a seleção mais vitoriosa do mundo merecem — algo que eu infelizmente não encontrei na minha chegada pós-2014, mas que trabalhei duro para instituir e deixar como legado. Acredito que não são ferramentas apenas importantes, mas essenciais para um bom trabalho no nível exigido pela Seleção Brasileira. É satisfatório que os profissionais que vieram depois de mim agora podem contar com esta base sólida, e que a considerem tão prioritária quanto eu durante minha gestão. Inclusive, a maioria dos profissionais de alto nível contratados na minha época para ficarem encarregados disso permanecem, e alguns que foram dispensados não ficaram muito tempo livres no mercado — como Paulinho, ex-chefe de scout que foi prontamente contratado pelo Real Madrid, e Sandro Orlandelli pelo Arsenal.

Também em questão de reaproveitamento, acredito ser de extrema importância o processo de envio de relatórios clínicos, físicos e técnicos pelo Fábio no final de datas FIFA aos clubes onde os atletas atuam. Este sistema de comunicação entre os clubes e a CBF foi implementado desde o caso da caxumba do Neymar em Agosto de 2015 e uma visita minha ao então treinador do Barcelona, Luis Enrique, onde ficou estabelecido que seriam enviados estes relatórios. O Fábio era encarregado de enviar relatórios dos trabalhos físicos ministrados, enquanto o Dunga e seu auxiliar Andrey eram responsáveis pelo relatório técnico e Dr. Lasmar pelas ocorrências médicas, independentemente do tempo que o atleta atuou ou não atuou pela Seleção durante o período. Apesar de não ser uma abordagem nova, me alegra que a atual gestão tenha mantido este protocolo e o julgado com o mesmo grau de importância que diagnostiquei na época.

Em relação aos treinos abertos e a “blindagem”, posso garantir que assim que o Sr. Aloísio — novo chefe de segurança na minha gestão, e atual chefe —assumiu seu cargo na CBF, uma de minhas primeiras medidas foi convocá-lo para uma reunião. Nesta ficou estabelecido que antes de cada treinamento da Seleção Brasileira ele deveria entrar em contato com o chefe do policiamento local, para avaliar a segurança e permitir que o público pudesse assistir as sessões de treinamento da Seleção, sem nenhum fator que colocasse os espectadores em risco. Assim fizemos em todos os jogos, amistosos e oficiais, no Brasil e no exterior, e determinei também que a Seleção não sairia mais pela porta dos fundos de hotéis, e que garantir a segurança dos atletas e torcedores era uma tarefa do policiamento local, que teria que resolver esta questão, pois os jogadores passariam pelo saguão no meio dos torcedores para que pudessem ter contato com a torcida. Os atuais treinos abertos citados na matéria, então, também se enquadram no reaproveitamento de mais uma medida que já havia sido tomada na gestão anterior.

A “blindagem” é algo que me soa estranho, pois como citei anteriormente, tomamos várias medidas para aproximar os jogadores dos torcedores, e a prática citada de liberar os atletas para encontrar com suas famílias em dias de folga também foi uma determinação que já existia anteriormente. Mais precisamente, a decisão foi tomada em conjunto comigo, a comissão técnica e os jogadores na Bahia, com a presença do auxiliar pontual CARECA, entre partidas disputadas em Novembro de 2015, quando encorajei que todos os atletas opinassem sobre a melhor forma de convivência para todos, e este foi o consenso adotado.

Em resumo, gostaria de reafirmar minha satisfação ao saber que muitas das medidas tomadas durante minha gestão foram avaliadas como positivas e reaproveitadas pela atual gestão. O intuito também é proporcionar mais contexto sobre algumas decisões, serviços e práticas que já existiam, muitas das quais seguem sendo a base de trabalho da CBF ainda hoje. Como se pode imaginar, não teria sido possível trazer e incorporar muitas destas mudanças e avanços sem uma presença assídua in loco na CBF para “despachar” e gerenciar de perto, contrário ao que foi maliciosamente sugerido. Não necessariamente me espantou a falta de pelo menos um pouco de crédito onde ele era devido, porém em uma próxima ocasião, acredito que uma matéria que ao menos questionasse as diferenças entre o antes e o depois e abordasse delimitações sobre as mudanças seria mais completa e precisa. Me coloco à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos.

Grato pela atenção,

Gilmar Luiz Rinaldi”

Leia aqui a entrevista de Edu Gaspar