Flamengo ignora técnicos brasileiros; técnicos europeus ignoram o Flamengo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Flamengo ignora técnicos brasileiros; técnicos europeus ignoram o Flamengo

Clube acerta em não optar por neste momento por um "profissional da casa'', mas não desperta paixões nos europeus

Almir Leite

28 de julho de 2020 | 13h22

É significativo o fato de em nenhum  momento a diretoria do Flamengo ter considerado o nome de um treinador brasileiro para substituir Jorge Jesus. A mensagem foi curta e grossa: eles não servem para nós.  A partir daí, o clube mandou um dupla de cartolas à Europa com a missão de encontrar alguém para o lugar do português.

Não engulo a arrogância, a petulância e o autoritarismo dessa turma que está no poder do clube de maior torcida do Brasil -autoritarismo explícito, entre outras atitudes, na forçada de barra para a retomada do Carioca e pelo apreço às más companhias que demonstram. Mas, desta vez, concordo com os dirigentes do rubro-negro.

Torrent, discípulo de Guardiola, deve acertar com o Flamengo

No momento, de fato não há treinador brasileiro apto a comandar o melhor e bastante vencedor elenco do País. Por vários motivos. Entre eles, porque nossos treineiros são divididos em dois grupos principais: o dos experientes (alguns deles vitoriosos e consagrados), cujas convicções estão bem arraigadas e além disso diferem do espírito de ousadia e intensidade a que o Flamengo se acostumlou; e aqueles ainda jovens promissores, com filosofias mais “modernas”, mais ainda sem o estofo necessário para domar o touro em que o campeão brasileiro e da Libertadores se transformou.

Dificilmente daria certo. O melhor mesmo é buscar fora.

Mas a procura está mostrando à empáfia da cartolagem flamenguista o outro lado da moeda: nas margens de lá do oceano, o Flamengo não é tudo isso. É o que mostra os vários “nãos”, alguns em forma de recado, levados até agora.

O português Carlos Carvalhal preferiu trocar o pequeno Rio Ave pelo pouco menor Braga em vez de aceitar o convite do Flamengo.

O espanhol Unai Emery, que no Paris Saint-Germain sempre viveu na corda-bamba até cair e no Arsenal foi tão mal que caiu no meio da temporada, preferiu o pequeno Villarreal, da sua terra.

O espanhol Fernando Hierro também não quis papo.

Depois dos fracassos, finalmente o Flamengo encontrou um interessado -e parece que vai dar samba: o espanhol Domènec Torrent. Para quem não conhece, referências ele tem. Foi durante muitos anos auxiliar de Pep Guardiola e dois anos atrás, querendo dar um passo maior e designado pelo Manchester City, foi treinar o New York City nos Estados Unidos e fez bom trabalho (o grupo que comanda o City inglês também é dono desse City americano).

Torrent, porém, quer crescer na carreira e por isso deixou a Big Apple e voltou para casa, à espera de um chamado. E, para quem quer crescer e aparecer, o Flamengo cai como uma luva.

Vale lembrar que Jorge Jesus aceitou vir ao Flamengo quando estava escondido no Catar depois de ser escorraçado por boa parte da torcida do Sporting. Um  ano depois, tendo aproveitado o trampolim, pulou de volta para casa.

Claro que o Flamengo não desperta paixões nos treinadores europeus porque faltam-lhe méritos.  O bagunçado e frágil futebol brasileiro e a maneira como o País está sendo atingido pela pandemia da covid-19 – quadro agravado pela postura do amigo maior do presidente rubro-negro – também não os fazem suspirar.

Porém a dura realidade, mesmo que injusta, é que, para os técnicos europeus, o Flamengo só serve de escada.

Tendências: