As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Futebol brasileiro continua empacado

Almir Leite

22 Janeiro 2016 | 11h51

O início do torneio da Primeira Liga está se aproximando – a tabela marca quatro jogos para o dia 27, a próxima quarta-feira – e o impasse entre os clubes filiados a ela, CBF e algumas federações continua. Os representantes da Liga, claro, defendem o direito de realizar a competição. Mais do que isso, defendem a independência. A CBF, por seu lado, não quer a competição, embora na prática fique em cima do muro. E conta com a Federação do Rio para guerrear com os “revoltosos’’.

É claro, e natural, que cada pescador puxe a sardinha para a sua brasa, de acordo com seus interesses. No entanto, o impasse revela um lado sombrio para um futebol que já foi o melhor do mundo, mas faz tempo patina, e tem nos conflitos infrutíferos e na resistência a mudança um dos motivos do mau momento que vive.

Tudo mundo sabe, e não é de hoje, que o modelo que administração do futebol brasileiro está ultrapassado, falido.  As dívidas dos clubes, frutos da administração irresponsável e muitas vezes lesiva, mostra isso. Os destinos dos ex-presidentes da CBF e a situação do atual também dão mostras dessa falência. E os motivos que os levaram a renunciar, a ser preso e a se licenciar são um atestado mais do que contundente de que algo vai mal no ex-país do futebol.

Nesse quadro, a Liga poderia (e pode) representar o embrião de uma mudança. Um cenário em que os clubes seriam mais bem administrados, cuidariam melhor de seu patrimônio e também seriam implacavelmente fiscalizados. Pela própria Liga e por órgãos governamentais – que foram ou estão sendo constituídos ou preparados para isso.

Mesmo com divergências até infantis como a questão clubística que  levou à troca do CEO semanas atrás e às idas e vindas de seu presidente, a Liga pode se tornar algo bastante salutar para o futebol brasileiro. Mas enfrenta a resistência ferrenha do que não querem mudanças. São cartolas retrógrados que ainda têm a cara de pau de dizer que defendem a evolução e até a saúdam a competição da Primeira Liga. Desde que no tempo e do jeito que eles querem.

O presidente da Ferj, Rubens Lopes, por exemplo, diz que a Liga é salutar. Para 2017. Para este ano, não. Tanto que ameaçou Flamengo e Fluminense até com desfiliação caso insistam com a “aventura’’ – que naturalmente trará prejuízo para o já falido campeonato estadual que administra. Diante da resistência dos clubes, saiu-se com a história de destinar a eles duas datas durante o campeonato que promove. Desde que joguem amistosos. Nada de torneio que não está no calendário da CBF.

Ou seja, Rubinho libera, mas não libera.

A CBF usa um tom diplomático que não engana ninguém. Diz defender as negociações, o acordo, mas não dá aval à Primeira Liga alegando que o torneio não estar no calendário e que é preciso respeitar o “ordenamento’’. Para 2017, tudo bem. Agora não.

A Liga, de forma sadia, resiste. Mantém o calendário, o seja, seu torneio, e ameaça até boicotar o Campeonato Brasileiro caso algum filiado seu seja prejudicado (entenda-se, perseguido). Será bom para o futebol brasileiro que mantenha disposição de lutar por mudanças. Se elas ocorrerem – e a CBF, caso confrontada de maneira firme, pode ser obrigada a ceder – se terá uma esperança de recolocar o futebol brasileiro nos trilhos.