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Jô vai ser refém eterno do gesto de Rodrigo Caio

Por ter sido beneficiado por uma atitude ética do zagueiro são-paulino, atacante do Corinthians vai pagar eternamente quando não fizer o mesmo

Almir Leite

18 de setembro de 2017 | 10h08

Jô fez o gol com a mão. Indiscutível.  Por consequência, o Corinthians ganhou dois pontos de maneira irregular. Não foi o primeiro nem será o último time a ganhar um jogo no apito. Ou a perder. Neste Brasileiro, o mesmo Corinthians já deixou de ganhar dois pontos por causa do apito. Foi no jogo com o Coritiba no primeiro turno, quando o mesmo Jô teve um gol legal erradamente anulado.

Mas isso tem importância menor. Erros de arbitragem acontecem, em quantidade e gravidade muito maior do que deveria.  O que se discute, hoje, no Brasil, é o fato de Jô não ter tido ética (no futebol chamamos de fair play), é o fato de Jô não ter dito ao árbitro que ele fez o gol com o mão.

Seria mais importante, para o País e para o cidadão, torcedor ou não, que se discutisse o destino da Lava Jato a partir da posse da nova procuradora-geral da República.  Mas o que mais interessa é “julgar” Jô, a partir de seu comportamento.

Jô obviamente sabe muito bem que fez o gol com a mão. Qualquer um, ou qualquer uma, que já jogou futebol na rua, na garagem, na quadra, no campo, sabe muito bem que sempre, repito sempre!, se sabe onde a bola bateu ou com que parte do corpo se bateu na bola.

Portanto, não cola a desculpa dada por ele, de que se jogou na bola e, como o lance foi rápido, não sabe em que parte tocou. Até porque, no futebol, a mão se estende dos dedos ao ombro.

Ou seja, acuado, e acusado, de não ter tido fair play, ele inventou uma desculpa esfarrapada. Não cola.

Mas não é por isso que estão, torcedores do outro clube e setores da imprensa, descendo o malho em Jô. Ele está sendo criticado porque meses atrás foi beneficiado pelo gesto de Rodrigo Caio que, ao dizer ao juiz daquele clássico com o São Paulo que foi ele e não Jô que acertou o goleiro, o livrou de um cartão amarelo e de uma suspensão.

E também porque, como o peixe morre  pela boca, saiu por aí dizendo que faria o mesmo (não usou essas palavras, mas foi este o sentido; é só procurar gravação de programas no youtube para constatar isso).

Ao fazer isso, perante a opinião pública Jô se obrigou a fazer o mesmo quando fosse com ele.

Domingo foi. E ele não fez.  Entre a ética e a malandragem, preferiu a segunda.

Aí, pau nele. Teve até programa de TV que dedicou preciosos segundos do caríssimo tempo de televisão para “contextualizar” o erro de Jô, com o fato do presente e “ocorrências” do passado.

Jô poderia ter se acusado. O blogueiro até entende que ele deveria ter feito isso. Seria melhor para o jogo, para o esporte, e também faria bem ao momento, longo momento, que o País vive. Mas é muito forte condená-lo por  não tê-lo feito.

Como também foi muito forte condenar Rodrigo  Caio – e teve muita gente que condenou, entre eles o ex-técnico do São Paulo Rogério Ceni – por “ter se acusado”.

Tanto uma como outra atitude foram mais reações de momento do que indicativos profundos de caráter.

O problema é que Jô virou refém eterno do gesto de Rodrigo Caio.

E, num país em que a ética sempre foi produto ausente, constatar que alguém não a tem, ou não teve, é crime inafiançável.

Sorte do juiz, e principalmente daquele auxiliar que fica na linha de fundo para ajudá-lo e que não tem desculpa por não ter apontado a irregularidade. Ambos estão sendo absolvidos.