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Maradona: adorado com a bola, abandonado como ser humano

O craque ímpar é endeusado por quase todo o mundo, mas para o que sentia o homem quase ninguém ligava

Almir Leite

25 de novembro de 2020 | 17h30

Em sua última entrevista, concedida ao jornal argentino Clarín por ocasião de seu aniversário de 60 anos, Diego Armando diz que foi e era feliz. Disse também que, ao voltar ao futebol de seu país para treinar o Ginmasia Y Esgrima, temeu que o povo não o amasse mais. E isso mesmo sabendo que os argentinos o tinham como um deus, e que não se deixa de amar deus.

Maradona, porém, tinha essa dúvida. Talvez porque, mesmo cercado de gente durante praticamente toda a vida, ele se sentia sozinho. Ter multidões ao lado não significa estar acompanhado. E esse sentimento de vazio parece tê-lo acompanhado durante quase toda a sua trajetória.

Maradona tem uma história até comum, infelizmente. A do garoto pobre que tem um talento enorme para alguma atividade e que, por meio desse talento, muda de vida, fica milionário, e torna conhecido no mundo inteiro, e adorado. Acaba tornando-se um mito, ou um deus como preferem os argentinos.

Mas e o ser humano? Como fica quando deixa de ser deus e se torna mortal, como todos os seres. Precisa de amor, carinho, compreensão, amigos verdadeiros…

Minha impressão é que Maradona jamais conseguiu ser o menino, o adolescente e depois o homem Diego. Por isso, vivia em busca, por isso fez tanta besteira, por isso talvez não tenha conseguido nunca se recuperar do vício das drogas e das bebidas – e quem acompanhou sua trajetória há de convir que, tentar, ele tentou.

Por se sentir só, Maradona tinha tanto medo de deixar de ser amado. Queria viver rodeado de gente e, de preferência, bajulado. Não era o ideal, o que resolvia. Mas era o que conhecia, o que estava acostumado.

Quem assistiu à série da Netflix “Maradona no México” teve a dimensão do bem que fez àquele ser trôpego, abatido, que vivia mancando por causa de dores fortes e constantes no joelho, ter a atenção, a admiração e o carinho do povo de Culiacan, onde ele treinou o Dorados de Sinaloa, um povo tão sofrido como ele um dia foi.

O jogador Maradona, um craque ímpar, todos conheceram. É imortal. Jamais será esquecido. Mas o homem Diego Armado poucas vezes foi lembrado.