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Novo cenário dos direitos de transmissão coloca em risco os Estaduais

No médio prazo, clubes pequenos podem ficar sem sua principal fonte de renda, o dinheiro da TV. Isso se a MP for aprovada

Almir Leite

03 de julho de 2020 | 15h51

Ainda está tudo muito confuso. Por isso, é precipitado dizer para onde vai o futebol brasileiro depois da medida provisória que mexeu com a principal fonte de renda da maioria dos clubes do País, ou seja, o dinheiro dos direitos de transmissão. Não dá para dizer quem ganha, quem perde (refiro-me única e tão somente aos clubes),  o que vai mudar exatamente.

Pra começar, mudança de fato só vai ocorrer se a MP for aprovada pelo Congresso. Do contrário, perde a validade e só restará uma grande confusão. Além da já antiga discussão sobre os direitos de transmissão, posto que há pelo menos duas décadas tem clube que acha que ganha menos do que merece e que seu rival ganha mais do que merece.

Coisas da paixão. E, sobretudo, do amadorismo da cartolagem.

Digamos que a MP seja aprovada. (Antes uma observação: a discussão sobre esse tema é supersalutar, mas a maneira como o debate foi forçado é desprezível, embora reflita muito bem o jeito ditatorial como o Brasil vem sendo conduzido, e não só a partir de Brasília).

Bom, mas partindo do princípio que a MP seja aprovada, vamos tomar o exemplo de Flamengo x Boavista, jogo que levou a Globo e rescindir o contrato de transmissão do Campeonato Carioca (assinado até 2024), por entender que houve descumprimento da cláusula que lhe dava exclusividade  – assinado pelo Boavista, não pelo Rubro-negro.

O Flamengo transmitir a partida pela Fla TV e ter 2,2 milhões de espectadores no pico não surpreende (se o jogo fosse com o Palmeiras, por exemplo, a audiência seria muito, mas muito maior).  Para viabilizar a transmissão, dizem os dirigentes, o clube gastou R$ 50 mil.

Portanto, se tivesse cobrado de quem assistiu ao jogo, o Flamengo teria um belo lucro, mesmo deduzindo do que teria arrecadado as despesas de transmissão e com a plataforma que a possibilitou.

Mas e o Boavista? Não imagino uma Boavista TV lucrativa. Quem pagaria para ver o time de Bacaxá contra o Macaé? E contra a Cabofriense?  Comprar os direitos dos jogos da equipe no Carioca também não seria interessante para as TVs, abertas ou fechadas, nem para a turma do streaming. Afinal, só os quatro jogos com os grandes valeriam a pena (se valessem).

Nem disputando o Brasileiro da Série D ou C o Boavista seria atrativo. Não precisa pensar muito para deduzir que um Boavista x Pelotas é pouco interessante do ponto de vista de quem tem de colocar a mão no bolso.

Por tudo isso, ainda que seja arriscado fazer prognóstico neste momento inicial, já é possível temer pelo futuro dos times pequenos, principalmente aqueles que na prática não atravessam a divisa de seus Estados – que são a grande maioria dos clubes brasileiros e os que têm na merreca que ganham de direito de TV a principal fonte de renda.

Com exceção do Rio, o risco não parece ser imediato, uma vez que os Estaduais têm contrato de TV até 2024. Mas, depois, se a MP vingar, pode ser que muito clube pequeno venha a desaparecer. E os Estaduais também.

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