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O circo e o pão do futebol brasileiro

Cartolas argumentam com a importância que o futebol tem para o povo para defender a volta, mas querem mesmo é saber da grana

Almir Leite

02 de maio de 2020 | 14h43

Era para o Campeonato Brasileiro de 2020 começar neste sabádo, 2 de maio. Não vai começar pelo motivo que todos conhecem. Motivo óbvio. Óbvio? Para grande parte dos dirigentes dos clubes do País parece que não. Afinal, os efeitos nefastos da pandemia no território nacional ainda estão longe de acabar, como mostram os números e as imagens que vemos a cada dia. A cartolagem, no entanto, está louca para ver a bola rolando novamente. Trata a grave enfermidade provocada pelo novo coronavírus como uma gripezinha, um resfriadozinho.

Preocupados com o impacto financeiro da paralisação do futebol – que obviamente é real -, os dirigentes, com honrosas exceções, querem o retorno dos jogos o mais rapidamente possível. Até uma data, de certa maneira, está estabelecida: 17 de maio. Mas como ninguém quer ser pai de um filho que pode causar grandes problemas à vizinhança, o modo encontrado para fazer valer seu desejo é aquele clássico de se adota quando não se quer assumir responsabilidades: terceirizar a decisão.

Para isso, comandantes de clubes e federações uniram-se à CBF, que por sua vez passou a bola para o Ministério da Saúde, enviando ao órgão um protocolo com iniciativas de saúde a serem tomadas para segurança de todos os envolvidos em uma partida de futebol (de 200 a 300 pessoas). E o ministério, bingo!, deu sinal verde.

O que se esperava? Se o chefe do ministro da Saúde foi inicialmente contrário à paralisação do futebol e depois, por várias vezes, já bateu na tecla da volta das partidas, era óbvio que o ministério iria liberar.  O problema é que ninguém parece preocupado com as consequências.

Claro que o protocolo encaminhado pela CBF é sério, foi elaborado a partir da visão de especialistas em medicina e em atitudes que estão sendo adotados em países que também querem a retomada das competições. O problema é que ainda não se tem respostas claras de como neutralizar o vírus – o isolamento social é, segundo os cientistas, a única maneira eficiente de reduzir danos. Aí reside o risco. Principalmente quando se sabe que a pandemia ainda não atingiu o pico no País.

Mas como parece estar ocorrendo grande esforço para transformar o Brasil em circo (que me perdoem os palhaços), o negócio é dar ao povo o pão. E como o futebol e o pão do povo, pela paixão que representa, por que não servi-lo?

Agora, essa história de que portões fechados resolve o problema do risco de contaminação, que  os jogos transmitidos pela TV vão ajudar as pessoas a encararem a quarentena de maneira mais amena e até reduzir o deslocamento é pura cascata. Os caras querem mesmo é a grana da TV. Ainda que isso coloque em risco os artistas do circo e até o respeitável público.