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Por que Gallo caiu

Almir Leite

11 de maio de 2015 | 17h22

Em julho de 2013, Alexandre Gallo visitou a redação do Estadão e concedeu uma longa entrevista, da qual este blogueiro participou. Ele transbordava confiança. No início daquele ano, havia sido nomeado coordenador das categorias de base da CBF, e técnico das principais seleções da base, a sub-20 e a olímpica, numa conversa com o então presidente da entidade, José Maria Marin, e com o então vice, Marco Polo del Nero, ocorrida num hangar do aeroporto de Fortaleza e que durou no máximo meia hora. Gallo nunca havia trabalhado com as divisões de base, mas dizia saber muito bem o que fazer. “Vou implantar uma nova mentalidade na base”, garantiu.

Em seguida, se explicou. Decretaria, em seu trabalho com a garotada, o fim dos brinquinhos, dos cortes de cabelo ‘afrescurado’, do uso desmedido do celular, do nariz empinado. Jogador mascarado não teria vez nas seleções de base, por mais talentoso que fosse. Era preciso ser humilde, respeitador. “Quando cheguei na CBF, me falaram: ‘O jogador aqui é convocado sempre pela capacidade dele, por serem jogadores comprometidos e também pelo caráter’.  Eu falei: ‘Está errado.  E a partir de hoje vamos virar a página ao contrário.  Vamos convocar primeiro pelo caráter, segundo pelo comprometimento e cumplicidade com o trabalho e terceiro pela capacidade’. Não tem mais brinco, não tem fone de ouvido, não tem cabelo, marra, nada.  Os que têm, estão fora.  Só jogadores comprometidos serão convocados.”

Gallo estava por cima da carne seca. Marin o apoiava incondicionalmente. E entendia que o treinador estava mais do que certo. Ele havia estado na  Argentina em janeiro de 2013, durante o Sul-Americano Sub-20 em que o Brasil, treinado por Emerson Ávila, havia sido eliminado na primeira fase ficando na lanterna de seu grupo e ficou revoltado com a bagunça que disse ter observado. Referia-se ao fato de que os empresários tinham livre acesso à concentração para conversar com os jogadores, que por sua parte faziam o que bem entendiam no hotel. Pareciam estar lá para se divertir e ajeitar o futuro profissional, relatou Marin. Teve até garoto simulando contusão para boicotar o treinador.

Assim, a chibata de Gallo contra jovens rebeldes, metidos à  besta, era bem-recebida. Até festejada.

Maio de 2015. De forma surpreendente, não pelos acontecimentos, mas unicamente pela ocasião – às vésperas do início do Mundial Sub-20 da Nova Zelândia -, Gallo é demitido em pleno andamento do “projeto olímpico”, a seleção sub-20 é entregue a um treinador pouco conhecido e a sub-23, a que irá buscar o inédito ouro na Olimpíada,  passa a ser responsabilidade de Dunga.

Gallo caiu depois de ser fritado em fogo não tão brando por pelo menos oito meses. E por quê?  Por ser autoritário, por querer fazer as coisas à sua maneira, por não fazer a menor questão de ter bom relacionamento com Dunga e Gilmar Rinaldi, hoje o coordenador de seleções da CBF e, acima de tudo, POR NÃO SABER LIDAR COM JOVENS JOGADORES.

A gota d’água para a demissão de Gallo (sim, demissão, porque esse negócio de decisão de comum acordo é papo para boi dormir) foi, como se fala, a convocação para o Mundial. Foi a não convocação de Gerson, do Fluminense, e de Gabriel, do Santos, que o treinador considera mascarados (não dá para lhe tirar a razão, pelo menos no caso do Gabigol, que o blog acompanha mais de perto). Jogadores cujo comportamento desagradou ao técnico no Sul-Americano Sub-20 do Uruguai – competição na qual o Brasil teve participação ridícula.

Lembram-se que no início deste post retomei entrevista em que Gallo dizia que jogador mascarado não teria vez com ele? Pois é.  Mas outro fator que irritou a direção da CBF foi o fato de ele ter convocado 26 jogadores, desfalcando os times no Brasileiro e na Libertadores (depois os são-paulinos foram liberados), deixando a CBF sob críticas agora e depois, quando três jogadores forem cortados depois de passar um período sem servir seus times.

Ah, além disso, não informou ninguém previamente sobre os convocados e sobre a lista suplementar co nove nomes que enviou à Fifa; Lembram-se que Marin disse antes da Olimpíada de 2012, na época de Mano Menezes na seleção, que exigia ter acesso aos convocados antes da divulgação da lista? A norma continua válida nesta nova administração da CBF.

Mas o que aconteceu nestes quase 28 meses para a glória virar desgraça?  Gallo manteve o prestígio em alta a época da Copa. Foi elogiado por Felipão por seu trabalho como olheiro dos adversários da seleção principal depois da Copa das Confederações e mantido na Copa do Mundo. Marin estava tão empolgado com o espírito disciplinador e com a “visão tática” de Gallo que num primeiro momento,  quando todos estavam perdidos sobre o que fazer com a seleção depois do vexame dado na Copa, chegou a sugerir que ele fosse colocado interinamente no comando da seleção principal,  “até a poeira abaixar”.

A careta feita pelo então vice- presidente da CBF provavelmente o fez se arrepender da proposta.  Naquela altura, Del Nero já se preparava para assumir a confederação de direito, o que fez em abril deste ano, e Gallo já o incomodava por sua independência.

Com a chegada de Dunga e Gilmar à seleção principal, Del Nero até tentou se desfazer de Gallo antes da malfadada campanha no Sul-American0 Sub-20. Marin era contra, e como ainda era o presidente de direito…

Começou então, o processo de fritura de Gallo. Os técnicos das seleções sub-15 e sub-17, que eram afinados com Gallo, foram substituídos, e, por fim, ele perdeu a coordenador da base, que passou para Erasmo Damiani, afinado com Gilmar Rinaldi.

A troca ocorreu após o fracasso no Mundial Sub-20 e a expectativa era de que Gallo entendesse o recado e pedisse para sair.  Ele não fez isso.

Del Nero assumiu e não quis, de cara, assumir o ônus de mandar um técnico da “era Marin” – que então já não apoiava mais Gallo, ruptura que ocorreu após o vexame no Uruguai – embora. Preferia esperar o fim do Mundial Sub-020 da Nova Zelândia para demiti-lo. Mesmo se fosse campeão.  O presidente da CBF estava convicto de que com Gallo o Brasil não teria chance de ganhar o ouro olímpico, mas achava melhor esperar antes de trocá-lo.

Aí veio a convocação para o Mundial, da maneira como relatado acima neste post.  E Del Nero resolveu mudar os planos, com o final que se sabe.

Aliás, talvez não se saiba. No próximo post, o blog vai contar o que apurou sobre a escolha de Dunga para comandar o time olímpico.