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VAR virou muleta de árbitros inseguros e precisa se meter menos

No Brasil, o árbitro de vídeo se mete demais, o de campo transfere responsabilidade e o que deveria servir para melhorar, piora

Almir Leite

04 de setembro de 2020 | 21h22

As explicações podem estar perfeitas do ponto de vista técnico e científico. Mas vai convencer um torcedor, mesmo que ele tenha doutorado em Física, que a paralaxe mostrou, por exemplo, que foi corretamente anulado o gol do seu time, porque o atacante estava realmente impedido. Mesmo que lhe mostrem uma imagem com as linhas verticais a partir do chão mostrando o posicionamento de seu jogador e o do beque adversário, vai ser difícil convencê-lo. A menos que a diferença seja clara.

E o jogador, que vive da bola, das atuações, das vitórias, dos gols? Será que o argumento do paralaxe num lance como o descrito no parágrafo acima vai convencê-lo de que não está sendo injustiçado ou perseguido. Pergunte ao treinador, esse ser que passa a maior parte da carreira com um cutelo no pescoço, se ele engole a eficiência do paralaxe.

Claro, a referência que o blog faz é em relação ao gol de Luciano, do São Paulo, contra o Atlético Mineiro. Gol que o blogueiro continua achando legal, pois o tal paralaxe não mostra de maneira contundente que houve impedimento (pelo menos não a imagem divulgada) e, como rezam o bom senso e a Justiça, em dúvida pró réu.

Mas só neste Brasileiro já há pelo menos uma dezena de lances que poderiam ser utilizados como exemplo.

E por que isso está acontecendo – como, aliás, aconteceu no Brasileirão passado. Creio que por um motivo simples: a forma como o VAR vem sendo utilizado no futebol brasileiro, que desconsidera algo fundamental: a essência do jogo. Nessa essência está contida, por exemplo, a autonomia do árbitro de campo de interpretar a regra e tomar decisões. É por isso, e para isso, que ele está lá. Ou deveria estar.
No Brasil, parece que não é mais assim. Quem apita o jogo de fato é a turma do VAR, do árbitro de vídeo, que desfruta do isolamento social da cabine e da parafernália que permite observar o lance de vários ângulos, com repetições, e recorrer a aparato tecnológico para “ver” o que olho humano não enxerga no momento da jogada. É, em muitos casos, o “procurar pelo em ovo”.

O VAR se mete demais na arbitragem. Quase todos os jogos têm várias pausas para que o VAR analise lances – e não vamos falar nem dos vergonhosos casos de demora de cerca de cinco minutos para a tal “análise”.

E fato que na maioria das vezes o árbitro de campo mantém sua decisão inicial. Mas isso não basta. Tivesse seguro do que faz, tivesse personalidade, ele não deveria nem chamar, ou permitir, a interferência do árbitro de vídeo. Chamaria para si as decisões.

Ah, mas existe um protocolo. Se ele é ruim, deve ser ignorado. Deve-se usar o melhor protocolo, o do bom senso.

A aplicação do VAR precisa ser revista. Não se trata de defender a tese de que, se a irregularidade é mínima, que se faça vista grossa a ela. É justamente o contrário: usá-lo para impedir que erros grosseiros, e por extensão imperdoáveis, aconteçam.

De resto, o juiz de campo e seus auxiliares decidem. Até porque são pagos para isso e precisam assumir a responsabilidade. Que se adapte a frase lida em todos os ônibus: “Fale com o árbitro somente o necessário’’!

À CBF, em vez de o responsável pelo VAR cantar desde o ano passado o mantra do “podemos melhorar” – já passou da hora de melhorar, né? -, deveria tomar atitude. Mudar de uma vez o que precisa ser mudado.

(Enquanto não faz o que tem de fazer, deveria liberar, publicamente, os áudios dessas decisões polêmicas, mesmo que contenham os mais cabeludos palavrões, para que todos saíbam como os árbitros de vídeo chegam a decisões tão brilhantes).

O VAR foi e é bem-vindo. Mas precisa ajudar mais e atrapalhar menos. Depois de sua introdução, as polêmicas até aumentaram. Mesmo sendo a polêmica outra das essências do futebol, é sinal de algo não está funcionando direito.