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TV alemã denuncia doping sistemático no atletismo russo

Amanda Romanelli

04 de dezembro de 2014 | 14h30

A TV alemã ARD jogou uma bomba no esporte olímpico – e, mais especificamente, no atletismo – da Rússia em um documentário de uma hora transmitido na noite de quarta-feira. “Top secret doping – how Russia makes its winners?” –  ou, “Doping secreto – como a Rússia produz campeões?” – mostrou várias evidências do uso sistemático de substâncias proibidas no país. O documentário não foi postado no YouTube e não está disponível para a visualização no Brasil, por enquanto.

Segundo os informes das agências internacionais e da imprensa alemã, o documentário mostra denúncias de um ex-funcionário da Agência Nacional Antidoping da Rússia (Rusada), Vitaly Stepanov, e de sua mulher, Yuliya Stepanova, corredora meio-fundista que foi banida do esporte em janeiro justamente por doping. Eles acusam Sergey Portugalov, chefe da comissão médica da Federação Russa de Atletismo, de fornecer substâncias de uso proibido para atletas em troca de 5% do valor de premiações.

“Você tem que se dopar, é assim que funciona na Rússia”, disse Yuliya. “Se você precisa de ajuda para ganhar medalhas, essa ajuda é o doping.” Ela ainda afirmou que oficiais de controle de doping são subornados para esconder resultados positivos. De acordo com o documentário, Yuliya e o marido deixaram o país após as denúncias.

A reportagem também coloca duas atletas de resultados expressivos na mira das acusações. A meio-fundista Mariya Savinova, atual campeã olímpica dos 800 metros, é mostrada em uma filmagem utilizando o esteroide anabolizante oxandrolona. Seu rosto não é mostrado, mas a ARD garante que possui uma versão sem edição da imagem que identifica a atleta. Nem Mariya e nem seu técnico, Vladimir Kazarin, manifestaram-se sobre a acusação.

“A maioria dos atletas se dopa, 99%. E você consegue qualquer coisa. Quanto menos detectável é a droga, mais cara ela é”, acusa Yevgeniya Pecherina, atleta do lançamento do disco que cumpre uma suspensão de dez anos, que vai acabar em 2023.

Tricampeã da Maratona de chicago, Liliya Shobukhova – que também está suspensa – aparece no documentário afirmando que comprou sua vaga na equipe olímpica de 2012 por meio do pagamento de 450 mil euros ao seu então técnico, Alexey Melnikov. O treinador, um dos principais do país, é acusado de ter recebido o dinheiro para subornar fiscais e encobrir um caso de doping da maratonista ocorrido em 2011. Ela correu nos Jogos de Londres, mas não terminou a prova.

O presidente da Rusada, Nikita Kamaev, afirmou que as acusações são falsas. “Todos os atletas que aparecem no documentário infringiram as leis antidoping em algum momento do passado. Essas pessoas entram em contato com os jornalistas e contam histórias. Para nós, profissionais, essas histórias são risíveis.”

Mas as denúncias não fizeram os representantes da Agência Mundial Antidoping (Wada) e da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) darem risada.

David Howman, diretor-geral da Wada, descreveu o documentário como “chocante”. “O que temos de fazer agora é enfrentar essa situação sem medo, e garantir que aqueles que foram corajosos (para denunciar) sejam protegidos.”  A Wada informou que recebeu uma cópia do documentário e que todas as denúncias serão investigadas. Dick Pound, ex-presidente da entidade, disse que as denúncias são “extremamente alarmantes” e que as denúncias vão arranhar a credibilidade do esporte e da luta contra o doping.

A IAAF afirmou que há uma investigação em andamento em seu Comitê de Ética, relacionada a algumas das denúncias feitas no documentário. Em dezembro do ano passado, a entidade exigiu a criação de uma força-tarefa na Rússia, preocupada com o aumento do número de casos de doping no país. Em 2013, a Rússia foi o segundo país mais testado pela IAAF, atrás apenas do Quênia. No ano passado, 28 atletas russos foram flagrados e suspensos. Nesta temporada, de acordo com a lista da IAAF atualizada até 31 de outubro, são 17 suspensões.

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