Gallo, jovem conservador nas seleções de base

Antero Greco

24 de julho de 2013 | 17h45

A gente fala em modernidade, liberdade, alegria na vida. E no futebol, claro. Daí, topa com declarações estarrecedoras de um técnico jovem, com currículo ainda modesto na profissão e que revela mentalidade dos tempos em que havia colégio interno. Ou que estão adequadas para extremistas religiosos. Ou que funcionam em quartel – e olhe lá!

Trata-se de Alexandre Gallo, 46 anos, ex-volante que não se caracterizava pela fineza no trato com os adversários. Pois o responsável pelas seleções de base da CBF deu longa entrevista para o Estadão, publicada na terça-feira, em que revela uma faceta que se julgava superada, aquela do “sargentão”, do linha dura.

Gallo foi taxativo ao afirmar que a meninada de hoje anda muito marrenta (posuda, metida a besta) já em início de carreira e que, com ele, não haverá espaço para quem vier com brincos, cabelos diferentes, fone de ouvido e outros babados do gênero. “Os que têm, estão fora”, afirmou, ao ditar as regras para uma “nova mentalidade”.

Faz parte desse perfil, também, chamar jogadores em primeiro lugar pelo caráter, depois pelo comprometimento e, finalmente, pela qualidade do futebol. Ou seja, o atleta que sonha defender a seleção será avaliado como se devesse assumir posto de missionário, escoteiro, militar, ativista político islâmico atividades em que se exigem disciplina e absoluta aceitação da hierarquia. E não a de boleiro, em que se pede acima de tudo criatividade.

Gallo age com preconceito, vê apenas a superfície, a imagem e não o valor intrínseco que alguém pode ter. O que importam o corte ou a cor dos cabelos? O que tem de errar o moço usar brincos, assim como se usam tatuagens? Qual o problema de usar fones de ouvido, coisa que jovens e jogadores maduros ostentam a todo momento?

Esses são modismos, na maioria dos casos passageiros, e compõem a figura do jogador moderno. Alguns são bregas – e daí? Qual o mal que alguém faz em ser cafona, se assim se sente bem? A quem está agredindo? Qual o desrespeito que comete? Alguém já falou para Gallo que “o hábito não faz o monge”? E quem lhe deu aval para agir assim? A CBF? Não me surpreenderia…

O jogador deve ser avaliado por sua capacidade para agregar valor à equipe, para decidir jogos, para doar-se, para encantar o público. Pouco importa a aparência ¬– ou importa pouquíssimo. Conta o valor profissional. Deixa o profissional em paz, feliz, solto, e ele renderá muito mais. Não se pode aplicar para determinadas atividades uma cartilha comum. É preciso saber conviver com a diversidade, aceitar as diferenças.

Não sei se Gallo tem filhos – mas quem os têm sabe como são, sobretudo na adolescência. Eles querem ser diferentes, gostam de chocar, buscam a afirmação e a própria identidade muitas negando os padrões dos pais. Depois, com o tempo, amadurecem e fazem as opções definitivas para a vida.

Gallo fala a linguagem dos conservadores, que se assustam com quem saia de determinado padrão comum. Por esse caminho, está em busca de robozinhos e não de gente que tem características próprias, fantasias individuais, sonhos, gostos. Quer implantar nova mentalidade? Incentive a criatividade, a ousadia, a generosidade em campo, o fairplay. Resgate o estilo moleque de o brasileiro jogar.

Não será assim que vai o próprio Gallo vai se destacar. Mas, como disse, cada um faz suas escolhas. Ele está a fazer a dele, e não permite que os outros façam as suas e vivam sem dilemas.

O link da entrevista: http://migre.me/fAGEv

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