A chance perdida de Jô

Antero Greco

17 de setembro de 2017 | 18h54

Meses atrás, Jô esteve no centro de uma grande discussão a respeito de honestidade, altivez, fairplay no futebol. Num clássico com o São Paulo, recebeu advertência da arbitragem, por falta no goleiro adversário. O zagueiro Rodrigo Caio antecipou-se e disse que o atacante não havia atingido o colega. O juiz voltou atrás e Jô livrou-se de punição.

Nos dias subsequentes, falou-se muito sobre o gesto de Rodrigo Caio. O cavalheirismo do tricolor mereceu elogios amplos e críticas pontuais. Mas, dentre os que exaltaram a postura honesta, estava Jô. Agradeceu o colega e disse que a honestidade no futebol passava pelos jogadores. Enfim, encampou a corrente em favor de Rodrigo.

Neste domingo, num lance que decidiu o duelo entre Corinthians e Vasco, Jô voltou a ter papel decisivo, pois marcou o gol da vitória por 1 a 0. Mas com o braço. Claramente, indisfarçavelmente, sem interpretação dúbia. Meteu a mão na bola, em vez da cabeça. Árbitro e os espantalhos que ficam atrás do gol não viram a ilicitude e confirmaram o gol.

Imagens da tevê mostram, após a jogada, Jô mostrando para um jogador do Vasco que a bola havia batido no peito. Ao final da partida, declarou para repórteres que se jogou e não viu onde a bola pegou. “Se tivesse sentido que era na mão, eu diria”, argumentou.

Jô desperdiçou excelente ocasião de colocar em prática o que viu de positivo em Rodrigo Caio. Deu de bico na chance de justificar suas próprias declarações. Comportou-se de acordo com o figurino boleiro nessas oportunidades – ou seja, prevalece a cara de pau no lugar da sinceridade.

Agiu como o cidadão médio que esbraveja contra a corrupção e impunidade. Mas, ao menor vacilo dos outros, tira vantagem, mesmo que ilícita. Espinafra “políticos ladrões”, esculhamba a “malandragem” alheia, mas enxerga em seus deslizes apenas “distrações”.

O Corinthians jogou mais do que o Vasco, criou mais lances de gol, merecia a vitória que veio, e volta a respirar tranquilo na ponta. Só desastres acumulados vão tirar-lhe o título. Mas, se Jô tivesse agido de outra maneira, ganharia por antecipação o título do jogo limpo.

Ah, mas isso é utopia, coisa de gente sonsa. O mundo é dos espertos.

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