A Copa perdida*

Antero Greco

19 de fevereiro de 2014 | 13h20

A Fifa fez suspense, fechou a cara, ameaçou, esperneou e no fim das contas confirmou o que se esperava. Ou seja, que Curitiba receberá os jogos que lhe eram previstos para a Copa do Mundo. Dessa maneira, apesar da série de desentendimentos, mancadas, problemas e atrasos, as 12 sedes escolhidas pelo Brasil estão mantidas.

Ainda bem que um dos Estados mais fortes da federação driblou o risco de exclusão do torneio. O Paraná tem peso significativo, no futebol e na economia do país. A capital em diversas ocasiões adotou soluções urbanísticas modernas e arrojadas.

Que alívio, não? Dessa maneira, ficamos todos felizes e não serão necessários deslocamentos logísticos e mudanças de tabela em cima da hora. Contentes, pero no mucho. Ao mesmo tempo em que enxotamos uma dor de cabeça, não se pode negar que passamos tremenda vergonha. De lambuja, nos vimos obrigados a ouvir outra descompostura daquelas de Jérôme Valcke.

Alguém pode alegar que o francês é um chato de galocha. Concordo. O secretário-geral da Fifa nem sempre se mostra afável e simpático ao referir-se a nossos métodos de planejamento e trabalho. No episódio mais famoso, sugeriu que devêssemos levar um pontapé no traseiro. Lembra do bafafá que a declaração provocou? Mexeu com os brios patrióticos – incluídos os meus. Depois me dei conta que uma das funções dele é a de exercer o papel de fiscal, de ranheta, para as coisas andarem.

Se levarmos para o lado gaiato, sacudimos os ombros e comentaremos, como o aluno cara de pau que vive a relaxar com as lições de casa. “Uma bola fora a mais ou a menos não faz diferença. A Fifa sabia com quem estava lidando, na hora em que concordou em trazer o circo da Copa para cá. Azar dela.”

Não é bem assim. A Fifa tem culpa no cartório, e como! Joseph Blatter e seus colaboradores conhecem de sobra os aliados. Não custa lembrar que o ex da CBF durante muito tempo circulava pelos salões do palácio de Zurique sem a menor cerimônia. Andava pra cima e pra baixo com Blatter, atuava em comissões disso e daquilo. Eram amigões. Depois, se separaram, e têm lá suas razões. Nem me importam.

A Fifa fechou os olhos para a composição do Comitê Organizador Local, sempre com o ex-todo-poderoso à frente, numa gulodice de poder sem fim. Ah, mas Blatter poderia defender-se com o argumento de que não lhe cabia interferir nas escolhas de nomes, projetos, subsedes, etc. Em nome da autonomia nacional. Meia-verdade, pois o caderno de encargos comporta tantas exigências que ela vira dona da bola e da casa no período do Mundial. Portanto, não vale tirar o corpo fora.

O ônus maior é nosso mesmo. Com uma participação graúda do governo. O ex-presidente Lula exultou com a deferência de ver nossa terra como anfitriã do Mundial, se não estimulou pelo menos não travou a proposta dos 12 estádios e não se constrangeu em posar de companheiro do ex da CBF. Lembra do ex-ministro do Esporte, Orlando Silva? Dava a impressão de avalizar todos os planos.

A herança caiu no colo da presidente Dilma, que não entende nada de futebol e, no afã de sustentar o sucesso da empreitada, apregoa que faremos a maior Copa de todos os tempos. Em público, pelo menos, é o que lhe resta. Imagino nos bastidores como fica com os cabelos em pé.

Os custos absurdos dos estádios, as promessas furadas de obras de infraestrutura e outros benefícios nem entram na minha discussão. Desagradável pra chuchu é vermos discussões sobre verbas em campos como os de Porto Alegre e Curitiba ainda agora. O local da abertura não está pronto, Manaus idem. Faltam três meses para a Copa! Vergonhoso. Oferecemos nossa cabeça de bandeja para gringos despejarem os preconceitos deles.

A seleção pode faturar o hexa, pois Felipão conta com bons jogadores. Mas fora de campo estamos tomando de goleada. Ora, temos a tradicional cordialidade. Se bem que andamos com nervos à flor da pele…

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, 19/2/2014.)

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