A cor da mala pode variar, mas na essência é tudo suborno

Antero Greco

24 de novembro de 2010 | 12h52

A mala branca está em pauta, como em todo final de temporada. Nos últimos dias, o tema voltou à discussão, porque se fala, aqui e ali, que alguns times receberão incentivo adicional para vencer seus jogos e dessa forma ajudar concorrentes em busca de título ou de uma classificação melhor. Não importa a divisão – seja na Série A ou na B, a premiação que vem de fora é uma tentativa de contar com o trabalho de pernas alheias. Uma forma de compensar as falhas de quem se dispõe a pagar pelo serviço de outros.

A iniciativa é vista como “normal”. No meio boleiro – e isso se estende a torcedores –, o consenso é o de que não se está a estimular a derrota e sim a vitória. Feio é jogar para perder, alegam jogadores, técnicos, dirigentes, para justificar o envio ou o recebimento desse dinheiro fora do orçamento. Jogar para perder é feio (mesmo de graça), tão feio quanto como receber qualquer tipo de pagamento de um concorrente, seja por triunfo, seja por tropeço.

Não falta quem argumente que a mala branca é o equivalente a um bônus que um funcionário de uma empresa ganha por ter feito bem seu trabalho. Nada contra bônus oferecidos por corporações por objetivos alcançados. Isso serve para estimular seus dependentes. O prêmio é justificável, desde que seja a própria instituição que pague seus funcionários, que lhes acrescente algo ao salário. O patrão dividir lucros com empregados é uma forma de justiça social – todos queremos isso. Esdrúxulo, equivocado, humilhante, estranho, preocupante é obter vantagem financeira de outra empresa.

Vejo muita gente ficar indignada ao se referir à “cor” das malas. A branca é inofensiva, porque se pede para ganhar. A preta é uma afronta, porque o atleta fará corpo mole. Não há distinção alguma entre uma e outra: ambas são suborno. Alguém que preze sua empresa deve trabalhar sempre para honrá-la e esperar que todo tipo de reconhecimento (e de lisura) parta de seus gestores. O que vem de fora é anormal, deve ser rechaçado. No futebol, no entanto, essa prática não fere suscetibilidades, “porque existe mesmo” …

Certo que todos precisam de dinheiro para viver, para cumprir com seus compromissos. Para tanto, deve-se lutar por salários dignos e jamais esperar incentivos que venham de outra fonte que não seja a do seu empregador. Trata-se de grande hipocrisia ponderar que a mala branca não tem nada de conflitante. Claro que tem, e muito! Quem garante que o jogador que hoje recebe mala branca para vencer, amanhã não vai aceitar mala preta para perder – e dessa forma prejudicar seu próprio clube?

Tem muita gente disposta a vender a honra. E, salvo tubarões poderosos, vende bem baratinho. E ainda vai achar que é normal, sem perceber como está a rabaixar-se.

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